Esquismogênese, Vanguarda e a Crise do Horizonte Progressivo da Música
- carlospessegatti
- 16 de dez. de 2025
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Este artigo propõe uma análise do conceito de esquismogênese, formulado por Gregory Bateson, aplicado ao campo da música contemporânea a partir da leitura de José Miguel Wisnik em O Som e o Sentido, em diálogo com Daniel Charles.
Argumenta-se que a crise do horizonte progressivo da vanguarda musical do século XX pode ser compreendida como um processo esquismogenético, no qual a radicalização dos princípios de diferenciação, racionalização e controle do material sonoro conduz a uma reversão estrutural desses mesmos princípios.
O contraponto entre serialismo integral e minimalismo é analisado como expressão complementar desse colapso sistêmico, envolvendo categorias como memória e esquecimento, repetição e não repetição, historicidade e suspensão temporal.
O artigo articula ainda esse diagnóstico à crítica da racionalização estética em Adorno, à noção de entropia sonora e às transformações contemporâneas da experiência temporal mediada pelo som.
Palavras-chave: esquismogênese; música contemporânea; vanguarda; repetição; tempo musical.
1. Introdução
A história da música ocidental do século XX foi amplamente marcada pela ideia de progresso estético, entendida como ampliação cumulativa da consciência técnica e da racionalização do material sonoro. Tal horizonte progressivo sustentou grande parte das experiências de vanguarda, particularmente no pós-guerra, quando a música passou a operar sob o signo do controle sistemático de seus próprios parâmetros.
Entretanto, como observa José Miguel Wisnik em O Som e o Sentido, esse projeto encontra um ponto crítico em que o avanço técnico deixa de produzir diferenciação perceptível e passa a gerar efeitos de indiferenciação, saturação e perda de sentido histórico. Para interpretar esse impasse, Wisnik mobiliza o conceito de esquismogênese, desenvolvido por Gregory Bateson, oferecendo uma chave analítica capaz de compreender a crise interna da modernidade musical.
Este artigo desenvolve essa hipótese, aprofundando o conceito de esquismogênese e examinando suas implicações estéticas, históricas e antropológicas no campo da música.
2. A esquismogênese em Gregory Bateson
Gregory Bateson introduz o conceito de esquismogênese em Steps to an Ecology of Mind para descrever processos de diferenciação progressiva em sistemas de interação. O termo designa dinâmicas nas quais comportamentos ou padrões comunicativos se intensificam cumulativamente, conduzindo o sistema a estados de instabilidade e ruptura.
Bateson distingue entre esquismogênese simétrica, baseada na escalada competitiva entre comportamentos semelhantes, e esquismogênese complementar, fundada no reforço assimétrico de papéis distintos. Em ambos os casos, a ausência de mecanismos de feedback negativo compromete a autorregulação do sistema.
Inserido no projeto mais amplo da ecologia da mente, o conceito indica que sistemas culturais e simbólicos, assim como organismos vivos, possuem limites internos. Quando esses limites são ultrapassados, a diferenciação extrema tende paradoxalmente a produzir colapso funcional.
3. Esquismogênese e ecologia da mente
Na perspectiva batesoniana, mente não é entidade individual, mas processo relacional distribuído em circuitos de comunicação. A arte, nesse contexto, constitui um subsistema ecológico no qual padrões perceptivos, culturais e técnicos se retroalimentam.
Aplicada à música, essa abordagem permite compreender a vanguarda não apenas como sucessão de estilos, mas como sistema autorreferente de diferenciação formal. A esquismogênese surge quando a intensificação desses mecanismos deixa de ser modulada pela escuta, pela tradição ou pela experiência corporal do tempo.
4. A vanguarda musical e o ideal de controle total
O serialismo integral representa o ponto máximo do ideal moderno de racionalização musical. Ao estender o princípio serial a todos os parâmetros do som, esse projeto buscou instaurar um regime de memória total do material sonoro, eliminando contingências históricas e resíduos expressivos.
Entretanto, como observa Wisnik, essa radicalização conduz a um paradoxo: a diferenciação extrema dos eventos sonoros resulta, no plano perceptivo, em homogeneidade. O excesso de informação formal gera um efeito entrópico, no qual a escuta já não discrimina diferenças significativas.
5. Entropia sonora e indiferenciação perceptiva
A noção de entropia, aqui empregada em sentido metafórico, permite compreender esse fenômeno. Em termos informacionais, tanto a saturação de dados quanto a redundância excessiva conduzem à perda de contraste perceptivo.
No serialismo, a entropia emerge do excesso de complexidade; no minimalismo, da repetição insistente. Em ambos os casos, a música atinge um limiar em que o aumento de controle formal não se traduz em aumento de sentido estético.
6. Serialismo e minimalismo como polos complementares
O contraponto entre serialismo e minimalismo não deve ser compreendido como simples oposição estilística. Ambos configuram respostas esquismogenéticas a um mesmo sistema em crise.
Enquanto o serialismo radicaliza a não repetição e a diferenciação absoluta, o minimalismo afirma a repetição elementar e a pulsação regular. Todavia, ambos suspendem a narrativa histórica tradicional: no primeiro caso, pela saturação cognitiva; no segundo, pela hipnose temporal.
7. Esquismogênese, racionalização e crítica adorniana
A leitura esquismogenética da música moderna encontra forte ressonância na crítica de Theodor W. Adorno à racionalização estética. Para Adorno, a hipertrofia do controle técnico pode conduzir à regressão da escuta, mesmo em contextos de alta complexidade formal.
A esquismogênese permite compreender essa regressão como efeito sistêmico: não se trata de falha subjetiva do ouvinte, mas de um colapso na mediação entre forma musical e experiência histórica.
8. Capitalismo cultural e homologia estrutural
A racionalização extrema do material sonoro apresenta homologia estrutural com a lógica do capitalismo avançado, caracterizada pela abstração, pelo planejamento total e pela eliminação do acaso.
Nesse sentido, tanto o serialismo quanto certas vertentes do minimalismo podem ser lidos como expressões críticas — ainda que ambíguas — de um mesmo regime de racionalidade técnica, no qual o domínio formal tende a se autonomizar do sentido.
9. Reversão esquismogenética: do ciclo das alturas ao pulso
Wisnik observa que o esgotamento do ciclo das alturas na música ocidental moderna conduz a uma reversão em direção à elementaridade do pulso. Essa passagem não representa regressão histórica, mas deslocamento estrutural do eixo organizador da música.
O pulso emerge como fundamento temporal quando a organização das alturas atinge seu limite de complexidade. Trata-se de mais um efeito esquismogenético: a simplificação radical como resposta ao excesso formal.
10. Repetição, ritual e diferença
A distinção entre repetição ritual e repetição esquismogenética é central para compreender as transformações da experiência temporal na música contemporânea. Nas culturas tradicionais, a repetição musical opera como reatualização simbólica da memória coletiva, estruturando um tempo circular, porém significativo.
Na modernidade tardia, a repetição tende a se autonomizar de sua função simbólica, operando como procedimento técnico autorreferente. A repetição minimalista suspende a expectativa e neutraliza a narrativa temporal, instaurando um presente contínuo.
Essa transformação pode ser compreendida como resultado de um processo esquismogenético, no qual a radicalização da não repetição produz sua própria inversão. A repetição contemporânea configura-se, assim, como repetição sem mito, mais próxima do automatismo maquínico do que do ritual simbólico.
11. Considerações finais
A aplicação do conceito de esquismogênese ao campo da música, conforme desenvolvido por José Miguel Wisnik a partir de Gregory Bateson, permite compreender a crise da vanguarda não como fracasso pontual, mas como processo sistêmico de autossaturação da modernidade estética.
Serialismo e minimalismo aparecem como expressões complementares desse colapso interno, no qual diferenciação e indiferenciação, memória e esquecimento, progresso e suspensão temporal se entrelaçam.
A esquismogênese revela-se, assim, uma ferramenta crítica fundamental para analisar as transformações contemporâneas da escuta, do tempo e da experiência musical.
Referências (seleção)
ADORNO, Theodor W. Introdução à sociologia da música. São Paulo: UNESP, 2011.
BATESON, Gregory. Steps to an Ecology of Mind. Chicago: University of Chicago Press, 1972.
CHARLES, Daniel. La pensée technique dans la musique contemporaine. Paris: PUF, 1978.
WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.




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