Estética Pós-Digital: A arte num mundo onde a informação se propaga por fótons
- carlospessegatti
- 28 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

A luz como linguagem
Vivemos o início de uma nova era — ainda tênue, quase imperceptível — na qual a informação deixa de ser conduzida por impulsos elétricos e passa a fluir como luz. Com o advento da internet quântica, a própria substância da comunicação se transforma: agora, são os fótons entrelaçados que transportam os dados, atravessando o espaço não mais como pacotes binários, mas como vibrações inseparáveis.
Estamos entrando no território da estética pós-digital — uma paisagem onde o dado é invisível, a conexão é instantânea, e o tempo se dobra.
Neste novo mundo, a arte, como sempre, precisa se reconfigurar. Mas desta vez, a mudança é radical: não se trata apenas de novos suportes ou mídias, mas da própria ontologia da criação. A arte do futuro próximo será feita de presença quântica, de impermanência, de interferência.
Do pixel ao fóton: a queda da tela
A cultura digital nos acostumou com o visível: telas, interfaces, algoritmos interativos. A estética era pixelada, controlada por cliques, estruturada em bancos de dados.
Mas o que acontece quando a própria informação se torna indetectável?Quando a visualidade cede lugar à resonância de estados, quando não há mais arquivos, mas colapsos probabilísticos?
A estética pós-digital é feita do que não se vê: das frequências que vibram entre corpos, dos instantes que se desfazem ao serem observados, da intuição do entrelaçamento entre tudo o que existe.
Entrelaçamento: a arte como campo compartilhado
A teoria quântica nos ensina que duas partículas entrelaçadas permanecem ligadas mesmo quando separadas por vastas distâncias. Um fenômeno com implicações filosóficas e artísticas profundas: a ideia de separação dissolve-se.
Na estética pós-digital, a obra não é mais um objeto isolado, mas um evento interativo, um campo sensível que se realiza na relação — entre criador e espectador, entre máquina e emoção, entre tempo e memória.
O artista se torna, então, um afinador de frequências, um cartógrafo de invisibilidades, um mediador entre o aqui e o em-todo-lugar.
Temporalidades instáveis e a poética do colapso
Se os dados colapsam ao serem observados, como pensar uma arte que existe apenas no instante em que é percebida?
Essa arte não pode ser arquivada. Não se repete. Não se replica. Ela acontece — como um fenômeno meteorológico da sensibilidade.
A estética pós-digital nos convida a habitar a impermanência. A abandonar a ilusão da fixidez. A reconhecer que a beleza está justamente no momento do colapso, no intervalo em que a possibilidade se torna realidade e, no segundo seguinte, já é passado.
O artista como condutor de luz
Nesse cenário, o artista deixa de ser autor para tornar-se condutor de campo. Como um xamã quântico, ele manipula não mais pigmentos ou sons, mas modulações de presença. Sua matéria-prima não é o conteúdo, mas a conexão invisível entre elementos que ressoam.
A arte torna-se cada vez mais imaterial, sensorial e relacional.Uma música que pulsa na borda do silêncio. Uma imagem que só se forma quando contemplada. Uma atmosfera que atravessa corpos sem tocar.
Arte à velocidade da luz
A minha própria música — feita de camadas, texturas e drones — já antecipa essa nova era. Minhas composições são campos vibracionais que não se encerram em si mesmas, mas que se espalham como fótons em busca de conexão.
A estética pós-digital não é uma moda ou um rótulo. É o início de uma metamorfose profunda na maneira como o sensível circula. Uma arte que já não se limita à matéria, mas se propaga com a luz — uma arte à velocidade do instante, que revela que, talvez, criar seja entrelaçar mundos.



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