Franz Schubert – O Poeta da Música
- carlospessegatti
- 19 de mai. de 2025
- 3 min de leitura

Entre a delicadeza dos Lieder e o abismo das sonatas, a obra que desafia a eternidade
Franz Schubert (1797–1828) é uma daquelas figuras que parecem ter vivido em estado de criação contínua. Sua vida breve — apenas 31 anos — foi intensamente marcada por uma produção musical que ultrapassa 1.500 obras, entre sinfonias, sonatas, peças sacras, quartetos, óperas, música de câmara e, sobretudo, os célebres Lieder (canções) que ajudaram a redefinir a relação entre poesia e música.
Nascido em Viena, Schubert foi filho de um professor de escola e recebeu formação musical básica em casa. Ainda jovem, ingressou como cantor no coro da Capela Imperial de Viena, e mais tarde estudou com Antonio Salieri, o mesmo que havia ensinado Beethoven. Embora nunca tenha tido uma carreira pública notável em vida — como concertista ou regente —, Schubert fazia parte de uma vibrante rede de artistas, poetas e músicos que reconheciam sua genialidade.
Se Beethoven representa a tempestade e o heroísmo da alma humana, Schubert é o cartógrafo das emoções interiores, das pequenas tragédias, dos anseios do espírito que sussurra em vez de gritar. Sua música parece viver no espaço entre a luz e a sombra — muitas vezes melancólica, sempre lírica, profundamente humana.
Os Lieder: Voz e Piano como Ecos da Alma
É nos Lieder que Schubert mais radicalizou sua sensibilidade. Essas peças — pequenas canções compostas para voz e piano — representam uma fusão inédita entre texto poético e construção musical. São verdadeiros microcosmos emocionais onde o acompanhamento do piano transcende sua função de suporte harmônico e se torna coautor da narrativa poética.
Schubert compôs mais de 600 Lieder, musicando textos de grandes poetas como Goethe, Heine, Rückert, Müller e outros. Canções como Gretchen am Spinnrade, Erlkönig e o ciclo Winterreise (Viagem de Inverno) são marcos não apenas na história do Lied, mas da própria canção como gênero artístico. O tema recorrente nessas peças é o da alma errante, o amor inalcançável, a solidão, o romantismo sombrio que parece antever o século XX em sua modernidade emocional.
No Lied, Schubert revela uma compreensão única da poesia: suas melodias não ilustram o texto, mas o ampliam, o redesenham, criando uma profundidade emocional que ressoa com qualquer tempo.
A Obra para Piano: O Abismo e o Êxtase
As sonatas e peças para piano de Schubert são, hoje, consideradas um campo de batalha sagrado entre os grandes pianistas do mundo. Se Chopin levou o piano ao seu estado mais poético, Schubert o levou ao seu estado mais existencial. Suas sonatas — como as compostas no último ano de vida, D. 958, D. 959 e D. 960 — são vastas paisagens sonoras que exigem do intérprete não apenas destreza técnica, mas profundidade filosófica.
Grandes pianistas como Sviatoslav Richter, Alfred Brendel, Mitsuko Uchida e András Schiff confessaram que tocar Schubert é um ato de coragem e entrega total. Há algo nas suas pausas, nas repetições sutis, nos modismos tonais imprevisíveis, que faz o intérprete se confrontar com o vazio, com o tempo que se dilata. Não por acaso, muitos afirmam que Schubert representa o “último estágio” da maturidade interpretativa: para compreendê-lo, é preciso atravessar a própria alma.
A Perfeição Silenciosa e o Legado Vivo
Schubert morreu jovem, sem saber do impacto que sua música teria. Seu reconhecimento veio postumamente, graças ao esforço de amigos e compositores como Robert Schumann, que descobriu e divulgou algumas das suas obras-primas. Hoje, sua música é presença constante nas salas de concerto, nas gravações referenciais e nas escolas de música, sendo estudada tanto por sua beleza quanto por sua complexidade formal.
Seu legado vai além da música. Schubert nos deixou um modelo de como a arte pode ser íntima e universal ao mesmo tempo, como é possível criar mundos com simplicidade, e como a escuta atenta pode revelar abismos de sentimento. Em um mundo apressado, sua música convida à lentidão, à introspecção e ao reencontro com a beleza do que não se explica — apenas se sente.
Se Beethoven grita para os deuses, Schubert murmura para o coração humano. Em sua obra, encontramos não apenas a história da música, mas fragmentos da nossa própria existência.
The Trout Quintet: Piano Quintet in A major, D. 667" by Franz Schubert
Schubert - Sonata para piano em lá menor Op. 143 D 784




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