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Gonvernamentalidade Algorítimica: Da Biopolítica à Modulação Digital - Último Capítulo

  • carlospessegatti
  • 20 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 21 de jun. de 2025



Capítulo 8 — Para Além da Quantificação: Reinventar a Subjetividade no Século XXI


“Se tudo for visível, nada mais será verdadeiro. A verdade precisa da sombra.”— Byung-Chul Han


1. A Exaustão da Subjetividade Quantificada

No ocaso da primeira metade do século XXI, é perceptível um esgotamento da promessa algorítmica. O ser humano, antes centro das decisões morais, sociais e políticas, é hoje decifrado por padrões, reduzido a vetores de comportamento, traduzido em clusters de dados. A utopia do autoconhecimento via tecnologia revelou-se como mais um capítulo da modulação digital, no qual o sujeito deixa de ser sujeito para se tornar perfil operacional.


A antecipação substitui a reflexão. A modelagem comportamental suprime o acontecimento. Como denunciou Bernard Stiegler1, a subjetividade hoje é moldada por uma economia da atenção e por uma tecnologia da pré-ação, onde decisões são tomadas antes mesmo da consciência emergir.


Nesse regime de previsibilidade contínua, o indeterminado passa a ser visto como falha, o erro como ruído, o singular como exceção descartável. O que se perde é justamente o que há de mais humano: a potência da imprevisibilidade, o gesto ético imprevisível, o intervalo do pensamento não automatizado.


2. Governar pela Previsão: O Totalitarismo da Eficiência

A lógica da governamentalidade algorítmica, como discutimos ao longo deste ensaio, opera por modulação em tempo real2. Diferente das sociedades disciplinares, aqui o poder se exerce por indução contínua e não por interdição.


Não há mais cercas, há curvas de tendência. O controle não impede — ele redireciona.


Nesse cenário, a subjetividade torna-se um projeto técnico, permanentemente ajustável às metas de produtividade, consumo e performance. A liberdade se torna interface. O desejo, estatística.


Como lembrou Deleuze, “o essencial não é mais uma assinatura ou um número, mas um código”3. E esse código não define quem você é, mas o que você poderá fazer.


3. O Pensamento Complexo como Estratégia de Fuga

Contra esse paradigma de redução, Edgar Morin oferece uma alternativa crucial. Em sua Introdução ao Pensamento Complexo, ele defende que o conhecimento da realidade não pode ser alcançado por simplificações — mas por um entrelaçamento de ordem, desordem, acaso e organização4.


Morin propõe a ideia de que somos seres sistêmicos, abertos, imprevisíveis — não cabemos em estatísticas, nem podemos ser calculados como máquinas deterministas. A subjetividade é, por natureza, uma zona de tensão viva entre o racional e o emocional, entre o previsível e o emergente.


É nesse ponto que a complexidade se torna aliada da liberdade: ela não é o caos, mas a consciência de que há sempre mais do que o dado revela, mais do que o algoritmo consegue prever, mais do que a lógica pode captar.


4. O Indiscernível como Forma de Vida

A reinvenção da subjetividade, neste século, não virá pela negação da técnica, mas pelo seu desvio poético. Precisamos criar zonas onde a subjetividade possa emergir sem ser reduzida. Como afirmava Rancière, é no dissenso que se funda a política do sensível5.


A arte, a filosofia, a escuta, o silêncio — todos são modos de resistir ao império da quantificação. A subjetividade se reinventa nos interstícios do sistema, nos ruídos, nas falhas, nos lapsos.


5. Estudos de Caso: Formas de Vida Inapreensíveis

  • O movimento Solarpunk propõe um futuro ecotécnico onde a vida, a arte e a tecnologia convivem com autonomia e não com subserviência à eficiência.

  • O coletivo Disobedient Data manipula dados como forma de insurgência, criando desordens propositalmente para desestabilizar modelos preditivos.

  • Redes indígenas e quilombolas digitais criam suas próprias infraestruturas de comunicação e dados, subvertendo o modelo extrativista das big techs e ressignificando a tecnologia como bem comum.

  • O artista James Bridle, em New Dark Age, propõe não uma fuga para a clareza, mas uma imersão lúcida na escuridão dos sistemas complexos, para aprender a habitar a incerteza como potência6.


6. Conclusão: A Grieta* no Código

Talvez o gesto mais radical que se possa fazer hoje seja afirmar o inapreensível. Em tempos de total transparência, a sombra é resistência. Em tempos de modulação contínua, a pausa é rebelião. Em tempos de algoritmos, o acaso é poético.


O Pensamento Complexo nos ensina que a liberdade se encontra justamente no que não pode ser previsto. E é aí que a subjetividade ressurge como força de invenção, de relação, de cuidado.


“Se o mundo será completamente quantificável, só nos resta o grão de areia que emperra a máquina: esse sou eu, esse é você.”— Roland Barthes (epílogo inspirado)


Notas de Rodapé

  1. Stiegler, Bernard. A Sociedade Automática. Estação Liberdade, 2020. ↩

  2. Rouvroy, Antoinette & Berns, Thomas. Gouvernementalité algorithmique. 2013. ↩

  3. Deleuze, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: Conversações. Ed. 34, 1992. ↩

  4. Morin, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. Instituto Piaget, 1990. ↩

  5. Rancière, Jacques. O Desentendimento. Ed. 34, 1996. ↩

  6. Bridle, James. New Dark Age: Technology and the End of the Future. Verso, 2018. ↩



* Grieta como imagem poética e política


Na linguagem crítica contemporânea, especialmente nos escritos de pensadores latino-americanos como Ernesto Laclau, María Lugones ou nos discursos populares argentinos e chilenos, grieta designa:

  • Um espaço de ruptura dentro de um sistema fechado;

  • Uma brecha por onde o novo pode emergir;

  • Um interstício de resistência;

  • Um rasgo que denuncia a falência da totalidade.


Ou seja, a grieta é a abertura que permite respirar dentro do sufocamento sistêmico.




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