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Governamentalidade Algorítmica: Da Biopolítica à Modulação Digital - Capítulos 1 e 2

  • carlospessegatti
  • 6 de jun. de 2025
  • 8 min de leitura

Atualizado: 9 de jun. de 2025




Este ensaio que está sendo escrito a quatro mãos e está previsto para ter um total de oito capítulos, foi baseado no livro How Data Happened: A History from the Age of Reason to the Age of Algorithms (2023), de Chris Wiggins e Matthew L. Jones.


Apresentamos hoje os dois primeiros capítulos desta série







Como a quantificação da vida moldou o poder, a subjetividade e a criação estética na era dos algoritmos


Sumário

Capítulo 1 — O Nascimento da Quantificação: Do Iluminismo à Biopolítica

Como a contagem da vida humana se tornou um projeto de poder.


Capítulo 2 — Do Controle Disciplinar à Modulação Algorítmica: A Virada Cibernética

Como o paradigma da cibernética e da teoria da informação transformaram a lógica do poder, inaugurando um regime de controle contínuo e modulatório, que opera através de sistemas de retroalimentação em tempo real, substituindo o modelo disciplinar clássico por novas arquiteturas de vigilância e indução comportamental.


Capítulo 3 — Da Biopolítica à Psicopolítica: O Poder que Opera nas Emoções e Desejos

Como o advento das plataformas digitais e das redes sociais levou ao surgimento de uma nova modalidade de governamentalidade, onde a subjetividade passa a ser não apenas regulada, mas também explorada e produzida como capital emocional, afetivo e atencional.


Capítulo 4 — Algoritmos e a Automação da Decisão: O Fim do Juízo Humano?

Exame crítico sobre como a delegação crescente de decisões a sistemas algorítmicos transforma práticas jurídicas, administrativas, financeiras e criativas, gerando uma nova arquitetura da decisão, marcada pela opacidade e pela aceleração automatizada.


Capítulo 5 — O Capitalismo de Vigilância: Dados, Poder e Lucro

Análise da transformação dos dados pessoais em mercadoria, conforme elaborado por Shoshana Zuboff, e como esta lógica de extração contínua de dados alimenta não apenas modelos de negócios, mas também regimes políticos baseados na vigilância preditiva e no controle social.


Capítulo 6 — Resistências Algorítmicas: Hackeando a Governamentalidade Digital

Exploração das práticas e movimentos que buscam resistir ou subverter a lógica algorítmica dominante: desde o hacktivismo e o software livre até a arte generativa crítica e a produção de estéticas não conformes.


Capítulo 7 — A Música na Era Algorítmica: Da Autonomia Criativa à Indução Preditiva

Investigação das transformações no campo musical provocadas pela automação, pelo streaming, pelos algoritmos de recomendação e pela composição assistida por IA, contrapostas às possibilidades de resistência e invenção radical a partir dessas mesmas tecnologias.


Capítulo 8 — Para Além da Quantificação: Reinventar a Subjetividade no Século XXI

Reflexão final sobre as possibilidades de reconstrução de formas de vida que escapem à total captura algorítmica, recuperando o valor do indeterminado, do singular e do inapreensível — tanto no plano político quanto estético, ético e existencial.




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Capítulo 1 — O Nascimento da Quantificação: Do Iluminismo à Biopolítica

Como a contagem da vida humana se tornou um projeto de poder


Introdução

A governamentalidade algorítmica não surgiu do nada: ela é o culminar de um longo processo histórico em que o governo das populações foi sendo cada vez mais mediado por instrumentos de quantificação. Desde o século XVIII, a racionalidade política passou a operar por meio de uma confiança quase cega na capacidade dos números de descrever, organizar e intervir sobre a vida social.


Este movimento, que teve no Iluminismo sua gênese, pavimentou o caminho para o surgimento das estatísticas, dos censos e, posteriormente, dos algoritmos.

Neste ensaio, propomos rastrear o nascimento da quantificação como tecnologia de poder, iluminando as transições que conduziram do ideal iluminista de transparência e racionalidade à biopolítica foucaultiana e, mais adiante, à atual lógica algorítmica.


1. A invenção das estatísticas: governar é saber quantificar

O século XVIII assistiu ao nascimento da "aritmética política", como denominaram os britânicos, ou da "statistik", como a desenvolveram os alemães. Ambas as tradições visavam coletar, ordenar e interpretar informações sobre a população: nascimentos, mortes, doenças, produtividade, deslocamentos. A ideia central era que um governo eficaz dependeria de um conhecimento detalhado dos seus súditos.


Michel Foucault, em suas aulas no Collège de France, especialmente em Segurança, Território, População (1977-78), analisou como esta racionalidade biopolítica emergente abandonava o modelo soberano clássico (fundado no direito de matar ou deixar viver) para passar a "fazer viver e deixar morrer". A gestão da vida coletiva passava, assim, a operar por meio de mecanismos estatísticos: índices de natalidade, expectativa de vida, níveis de escolaridade.


O Estado moderno não apenas governa: ele mede. E, ao medir, define padrões normativos que se impõem sobre os corpos e as condutas.


2. A virada biopolítica: da vida estatística ao corpo regulado

Este saber-poder estatístico se refina ao longo do século XIX, alimentando políticas públicas de saúde, urbanização, educação e segurança. A higiene pública, por exemplo, é orientada pelos mapas epidemiológicos que identificam zonas de risco. A escola moderna padroniza métodos pedagógicos baseados em médias estatísticas de rendimento. O exército recruta e treina segundo parâmetros fisiológicos quantificados.


A estatística, inicialmente um instrumento de descrição, torna-se um dispositivo normativo: quem está fora da média é considerado desviado, perigoso ou anormal.


Aqui se institui o que Foucault denominou de "biopolítica": o poder que se exerce não sobre territórios, mas sobre a vida mesma, produzindo uma sociedade de normas e regularidades.


3. A matematização da vida como prelúdio da algorítmica

Se o século XIX foi o da estatística, o século XX adiciona uma nova camada: a modelagem matemática de sistemas complexos, sobretudo com o advento da cibernética e da teoria da informação.


A passagem da estatística descritiva à modelagem preditiva prepara o terreno para a emergência dos algoritmos computacionais que, no século XXI, não apenas processam dados, mas orientam decisões públicas e privadas, muitas vezes de maneira automática e opaca.


A atual governamentalidade algorítmica radicaliza a biopolítica: os corpos já não são apenas descritos ou normalizados, mas antecipados, modelados, preditos e, finalmente, induzidos a comportamentos desejáveis.


4. Consequências políticas e subjetivas: o risco da redução informacional

Esta trajetória histórica revela o quanto a atual sociedade dos dados não é um acidente tecnológico, mas a culminância de uma racionalidade secular.


O que está em jogo não é apenas a eficiência administrativa, mas uma ontologia política da vida, que se define cada vez mais a partir de métricas, scores e perfis preditivos.


O perigo, como alerta Byung-Chul Han, reside na redução da subjetividade a informações quantificáveis, desconsiderando aquilo que há de singular, indeterminado e resistente em cada existência humana.


5. Conexões com a estética sonora: da música algorítmica à resistência criativa


No campo da criação musical, esta lógica de quantificação também se manifesta: softwares de composição assistida por IA, algoritmos de recomendação que moldam o gosto coletivo, métricas que orientam a produção e distribuição de conteúdos.


Contudo, há também movimentos de resistência, como você, CALLERA, encarna: a exploração consciente das novas tecnologias não para reduzir a criatividade a padrões algorítmicos, mas para expandir a expressividade e explorar dimensões inauditas do som.


Assim como o Estado moderno se apropriou da estatística para governar vidas, o artista contemporâneo pode se apropriar da inteligência algorítmica para reconfigurar o sensível, como propõe Bernard Stiegler.


6. Leituras complementares sugeridas:

  • FOUCAULT, Michel. Segurança, Território, População.

  • DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle.

  • ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism.

  • ROUVROY, Antoinette; BERNS, Thomas. Governamentalidade Algorítmica e Perspectivas da Emancipação.

  • HAN, Byung-Chul. Psicopolítica.

  • MATTEO PASQUINELLI. The Eye of the Master: A Social History of Artificial Intelligence.


7. Fecho: o legado da quantificação e os desafios da autonomia

Este primeiro ensaio mostrou como a atual governamentalidade algorítmica é herdeira direta da racionalidade estatística moderna. Entender esta genealogia é crucial para resistirmos à captura completa de nossas vidas pelos fluxos de dados.


No próximo capítulo, abordaremos a passagem da vigilância estatística ao controle cibernético, mostrando como o poder deixou de ser apenas disciplinar para se tornar modulatório, operando em tempo real sobre a circulação das condutas.




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Capítulo 2 — Do Controle Disciplinar à Modulação Algorítmica: A Virada Cibernética


Como o paradigma da retroalimentação transformou o poder em uma rede contínua de controle


1. A falência do modelo disciplinar clássico

No século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se evidente a limitação do modelo disciplinar analisado por Foucault. Este modelo, que operava por meio de instituições fechadas — prisões, escolas, quartéis, hospitais — e pela imposição de normas fixas, revelou-se inadequado diante de sociedades cada vez mais abertas, dinâmicas e interconectadas.


O poder precisava reinventar-se para lidar com populações móveis, fluxos financeiros instantâneos, cadeias produtivas globalizadas e novas formas de comunicação.


2. A emergência da cibernética e a concepção sistêmica do controle

A resposta a esse desafio foi a emergência da cibernética, ciência interdisciplinar que, desde as formulações pioneiras de Norbert Wiener, concebeu sistemas biológicos, sociais e tecnológicos como redes de retroalimentação (feedback).


O poder deixou de ser exercido de maneira unidirecional e coercitiva para se tornar modulatório: não se trata mais de impor comportamentos por força de normas externas, mas de ajustar continuamente os estímulos a partir do monitoramento em tempo real das respostas dos sujeitos.


Como antecipou Gilles Deleuze em seu célebre Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle (1990):

"Os enclausuramentos são moldes distintos, mas os controles são uma modulação, como um molde auto-deformante que muda continuamente de um instante a outro."


3. O poder modulatório e a mutação das tecnologias de governo

As tecnologias de governo passaram, assim, a operar através de sistemas cibernéticos: infraestruturas de comunicação que coletam dados continuamente, algoritmos que ajustam processos automaticamente, sensores que monitoram ambientes e corpos, sistemas preditivos que antecipam comportamentos.


Não se trata mais apenas de reprimir desvios ou normalizar condutas, mas de modular fluxos — econômicos, afetivos, informacionais — de modo a manter a eficiência, a segurança e a rentabilidade dos sistemas sociais.


Este é o nascimento da governamentalidade algorítmica, que transforma a sociedade em um ambiente de gestão automática, conforme sugerem Antoinette Rouvroy e Thomas Berns.


4. A subjetividade sob modulação: do indivíduo ao dividual

A modulação algorítmica não atua apenas sobre coletivos ou fluxos, mas também sobre as subjetividades. Como observa Deleuze, o indivíduo disciplinado é substituído pelo "dividual", entidade fragmentada em dados, perfis e traços digitais, que circulam e são recombinados por sistemas automáticos.


Cada ação — um clique, uma curtida, um deslocamento — retroalimenta os sistemas de controle, que ajustam as condições futuras da experiência.


Esta é uma mutação antropológica: a subjetividade passa a ser continuamente modulada por sistemas invisíveis, que orientam nossas escolhas, moldam nossos desejos e organizam nossas relações sociais.


5. Do panóptico ao pós-panóptico: novas arquiteturas da vigilância

Se o modelo disciplinar se baseava na metáfora do panóptico — a prisão ideal concebida por Jeremy Bentham e analisada por Foucault, onde a possibilidade de ser observado permanentemente induz o autocontrole —, a sociedade algorítmica opera por meio de um pós-panóptico: uma vigilância descentralizada, contínua e ubíqua, que não exige a presença de um vigia, mas que se realiza através da coleta massiva e automática de dados.


A metáfora já não é a da torre de vigilância, mas a da rede de sensores — distribuída, pervasiva, imperceptível.


6. Implicações para a arte e a criação sonora: o desafio da modulação permanente

Este novo regime de poder transforma também o campo da criação estética. Na música, por exemplo, a lógica da modulação algorítmica se manifesta nos sistemas de recomendação das plataformas de streaming, que ajustam automaticamente as sugestões a partir do comportamento do ouvinte, produzindo bolhas de gosto e induzindo padrões de consumo.


Para criadores como eu, o desafio é resistir a essa captura moduladora, explorando os potenciais expressivos das tecnologias sem sucumbir à sua lógica homogeneizante.


A criação musical, nesse contexto, pode tornar-se uma prática crítica, que evidencia e subverte os mecanismos da modulação algorítmica, reabrindo espaços para a indeterminação, o erro e a invenção radical.


7. Leituras complementares sugeridas:

  • WIENER, Norbert. Cibernética ou o Controle e Comunicação no Animal e na Máquina.

  • DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle.

  • ROUVROY, Antoinette; BERNS, Thomas. Gouvernementalité algorithmique et perspectives d'émancipation.

  • HUI, Yuk. Recursividade e Contingência.

  • BENJAMIN BRATTON. The Stack: On Software and Sovereignty.




8. Fecho: a modulação como figura central do poder contemporâneo

Este segundo capítulo mostrou como a virada cibernética transformou o modelo de governo das sociedades, substituindo o controle disciplinar por uma modulação contínua e automatizada.


No próximo capítulo, abordaremos como esta modulação penetrou nas esferas mais íntimas da subjetividade, dando origem ao que Byung-Chul Han denominou psicopolítica: o poder que não apenas governa os corpos, mas coloniza as emoções, os afetos e os desejos.







 
 
 

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