top of page
Buscar

Governamentalidade Algorítmica: Da Biopolítica à Modulação Digital - Capítulo 5

  • carlospessegatti
  • 12 de jun. de 2025
  • 6 min de leitura


Capítulo 5 — O Capitalismo de Vigilância: Dados, Poder e Lucro


Epígrafes“A nova ordem mundial será fundada na lógica da extração de dados — não mais na exploração da força de trabalho.”— Shoshana Zuboff

“A vigilância é o modo de produção do século XXI.”— Evgeny Morozov

“A liberdade se torna uma variável estatística.”— Antoinette Rouvroy


Nos capítulos anteriores, percorremos a genealogia do poder moderno, da sociedade disciplinar descrita por Foucault à biopolítica como técnica de gestão da vida. Examinamos também como a governamentalidade neoliberal reconfigura o sujeito como empresa de si mesmo, e como a modulação digital — discutida à luz de Gilles Deleuze — inaugura um novo regime em que o controle se dá pela imersão contínua em redes, algoritmos e interfaces. É nesta trajetória que se insere o capitalismo de vigilância, não como ruptura, mas como inflexão radical da racionalidade neoliberal, onde o valor não está mais na produção, mas na predição.


A Mercantilização dos Dados e o Excedente Comportamental

A formulação central de Shoshana Zuboff é contundente: o capitalismo de vigilância não é apenas mais um capítulo da lógica de acumulação, mas um novo regime de extração que transforma dados pessoais em mercadoria. A captura contínua da experiência humana — muitas vezes sem consentimento — alimenta sistemas de aprendizado de máquina que extraem o que ela denomina excedente comportamental, ou seja, tudo aquilo que pode ser inferido, previsto e monetizado¹.


Tal processo, inscrito nas práticas cotidianas, representa uma mutação estrutural da economia política: o comportamento se torna recurso. E aqui, a extração não opera sobre matérias-primas, mas sobre padrões de ação, desejo, emoção.


Nota 1: Cf. ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. New York: PublicAffairs, 2019.


Como já sugeria Marx nos Grundrisse, a tecnologia não é neutra: ela encarna formas de relação social e de dominação. O capitalismo de vigilância encarna um novo tipo de fetichismo — não mais o da mercadoria tangível, mas o da predição algorítmica, que promete ao capital não apenas antecipar comportamentos, mas produzi-los sob medida.


Do Panoptismo à Modulação Preditiva

Retomando a crítica foucaultiana, podemos dizer que o panóptico já não basta como modelo de vigilância. O olhar do vigia, ainda centrado em estruturas visíveis, cede lugar a um sistema distribuído, invisível, preditivo, que age não pela ameaça da punição, mas pela sugestão adaptativa. Como vimos no Capítulo 3, a modulação digital, em Deleuze, substitui a disciplina: não mais moldar um sujeito, mas ajustá-lo constantemente ao fluxo do capital informacional.


Aqui, entra a governamentalidade algorítmica de Rouvroy e Berns: um modelo de poder que governa por dados, estatísticas e inferências, em que a subjetividade é desconsiderada em sua opacidade, reduzida a correlações estatísticas².


Nota 2: Cf. ROUVROY, Antoinette; BERNS, Thomas. Gouvernementalité algorithmique et perspectives d’émancipation. Lechappee, 2013.


A Subjetividade Reduzida à Previsibilidade

Do ponto de vista marxista, esta nova forma de acumulação opera como subsunção real da subjetividade à lógica algorítmica. O sujeito é atravessado por plataformas que o “leem” em tempo real, transformando seus dados em predição de consumo, voto, deslocamento ou comportamento sexual. Não há mais espaço para o erro ou o desvio: o imprevisível se torna um ruído a ser eliminado.


Como diz Zuboff, esse capitalismo não visa apenas a eficiência: ele visa o controle futuro — uma forma de totalitarismo suavizado por interfaces amigáveis. O indivíduo se torna uma função estatística dentro de modelos de machine learning: não há outro além do dado.


Neste ponto, o neoliberalismo encontra sua realização plena: uma sociedade onde os sujeitos são livres para escolher, mas suas escolhas são continuamente guiadas por sistemas de previsão. Como afirmou Deleuze, "o marketing tornou-se a ferramenta principal do controle social".


A Arquitetura Invisível do Controle

A vigilância contemporânea se dá por imersão: recompensas, alertas, nudges, interfaces responsivas — tudo configurado para gerar micro-adesões. O controle se apresenta como cuidado personalizado. A modulação digital atua nos afetos, nos hábitos, nas intuições: não somos vigiados, somos moldados.


Se na biopolítica o corpo era gerido, aqui ele é mapeado e parametrizado. Se na governamentalidade liberal o sujeito devia escolher, agora ele apenas responde a sugestões probabilísticas. É o governo sem governo, a política sem política — a automatização da conduta.


Resistência e Contra-Governamentalidade

Mas onde residem as fissuras? A crítica marxista pode apontar que, se a base do lucro está agora na extração de dados, a luta de classes migra para o campo da desobediência algorítmica: sabotar perfis, subverter padrões, hackear modelos.


A opacidade, a complexidade e o erro passam a ser formas de resistência.

Autores como Byung-Chul Han, Morozov, Rouvroy, Zuboff e Paolo Virno sugerem que a emancipação exige novas gramáticas de crítica, capazes de reconectar política, desejo e tecnologia.


Mais que nunca, a liberdade será uma questão de arquitetura — e de linguagem.


Exemplos contemporâneos da modulação digital


📌 Estudo de Caso 1: Google e a origem do excedente comportamental


Resumo: Zuboff identifica o Google como o laboratório originário do capitalismo de vigilância. A empresa foi pioneira ao perceber que os dados residuais deixados pelos usuários ao interagir com a busca poderiam ser explorados para prever e modificar comportamentos — não para melhorar o serviço, mas para vendê-los como previsões a anunciantes.


Ponto-chave: A lógica da plataforma baseia-se na extração silenciosa da experiência humana, seguida por um processo de refinamento e venda desse excedente. Isso inaugura o que Zuboff chama de “divisão da aprendizagem”: as máquinas aprendem com os humanos, mas esse aprendizado não retorna à sociedade — apenas ao capital.


Conexão teórica: Este caso exemplifica a transição do panoptismo à modulação: o usuário não é vigiado para ser punido, mas para ser continuamente calibrado. O Google é, portanto, um operador algorítmico de governamentalidade.


📌 Estudo de Caso 2: Facebook / Meta — Engenharia da afetividade e psicopolítica


Resumo: O Facebook vai além da coleta de dados: ele modula afetos e percepções. Em 2014, a empresa realizou um experimento com 700 mil usuários para manipular o humor a partir da curadoria de conteúdos no feed, sem o conhecimento dos participantes.


Ponto-chave: Esse caso demonstra a transição da vigilância para o controle emocional e simbólico. A plataforma não apenas coleta dados, mas os utiliza para interferir no campo afetivo — antecipando e produzindo comportamentos desejáveis.


Conexão teórica: Byung-Chul Han descreve isso como psicopolítica digital. A modulação emocional substitui a coerção disciplinar. O sujeito neoliberal não resiste — ele deseja o controle, acreditando estar livre.


📌 Estudo de Caso 3: Sistema de Crédito Social na China


Resumo: Inspirado em princípios confucionistas e em técnicas algorítmicas ocidentais, o governo chinês desenvolveu um sistema de “crédito social” que atribui pontuações aos cidadãos com base em comportamentos online e offline — compras, amizades, opiniões políticas.


Ponto-chave: A lógica algorítmica é aqui explicitamente governamental: o Estado usa dados como ferramenta de conformação de condutas. Cidadãos com baixa pontuação enfrentam restrições de acesso a serviços e transportes.


Conexão teórica: Este é um caso exemplar de biopolítica algorítmica estatal, onde o poder soberano se atualiza por meio de tecnologias digitais. A subjetividade é normalizada via gamificação e recompensa. A liberdade se converte em estatística.



📌 Estudo de Caso 4: Amazon e o Modelo Logístico da Vida


Resumo: A Amazon é uma das empresas que mais investem em inteligência preditiva. Seu sistema logístico prevê o que os clientes comprarão antes mesmo que decidam fazê-lo. Isso alimenta um modelo de controle da demanda via predição comportamental.


Ponto-chave: Não se trata apenas de satisfazer desejos — mas de produzi-los previamente, orientando o consumo para manter o fluxo de acumulação. O tempo e o desejo são reduzidos à equação logística.


Conexão teórica: Marx já dizia que o capital tende a suprimir as “barreiras naturais” do tempo e do espaço. Com a Amazon, o tempo de espera é eliminado, e o futuro é precificado. Trata-se de uma forma extrema de subsunção da vida à lógica logística.




Bibliografia Essencial

  • ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Intrínseca, 2021.


    Obra fundacional sobre como os dados se tornam mercadoria e base de poder.

  • ROUVROY, Antoinette; BERNS, Thomas. Gouvernementalité algorithmique et perspectives d’émancipation. 2013.


    Introdução à governamentalidade algorítmica como forma de poder sem sujeito.

  • FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica. Martins Fontes, 2008.


    Base da análise foucaultiana do neoliberalismo e das formas de governo.

  • DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle.


    Texto seminal sobre a modulação e o fim das formas disciplinares.

  • HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: Neoliberalismo e novas técnicas de poder. Vozes, 2015.


    Uma leitura contemporânea sobre o sujeito neoliberal e o controle emocional.

  • MARX, Karl. Grundrisse. Boitempo, 2011.


    Referência à análise da subsunção real e da integração da subjetividade ao capital.


  • MOROZOV, Evgeny. Big Tech: A ascensão dos dados e a queda da democracia.


    Crítica à ideologia tecnocrática que sustenta o capitalismo de dados.



 
 
 

Comentários


Site de música

callerajarrelis electronic progressive music

callerajarrelis Electronic  Progressive Music

bottom of page