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Governamentalidade Algorítmica: Da Biopolítica à Modulação Digital - Capítulo 6

  • carlospessegatti
  • 16 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura


Capítulo 6 — Resistências Algorítmicas: Hackeando a Governamentalidade Digital


“O código é lei.”— Lawrence Lessig

“O poder não é apenas aquilo que se exerce, mas também aquilo que se infiltra.”— Michel Foucault

“Toda tecnologia traz em si as sementes de sua subversão.”— Donna Haraway, adaptada


1. A Malha Invisível: da Vigilância à Modulação

No mundo das plataformas e dos fluxos contínuos, o algoritmo se tornou o novo Leviatã invisível. Mais do que simplesmente disciplinar ou vigiar, ele modula — no sentido proposto por Gilles Deleuze em seu Post-scriptum sobre as sociedades de controle (1990). A governamentalidade algorítmica não age impondo regras, mas ajustando probabilidades, afinando comportamentos como quem afina cordas de um instrumento coletivo.


Se o panóptico foucaultiano definia a era disciplinar, agora o que temos é um algopticon: uma arquitetura distribuída em que somos sujeitos e objetos da captura de dados em tempo real. A vigilância não é mais exceção; é a norma, disfarçada de recomendação personalizada, conveniência e interatividade.

Mas — e é aqui que este capítulo pulsa — toda forma de poder abre espaço para sua resistência.



2. Hacktivismo: a Subversão do Código

O hacktivismo emerge como um dos primeiros movimentos de resistência algorítmica. Distinto do cibercrime vulgar, o hacktivismo opera sob uma lógica ética: sua ação é simbólica, tática e política. Ele reencena, no plano digital, as guerrilhas conceituais que atravessaram o século XX, mas agora em rede.


Grupos como o Anonymous, por exemplo, tornaram-se paradigmas dessa insurgência. Seus ataques de negação de serviço (DDoS), defaces e vazamentos funcionam como “táticas de ruído”, interferências temporárias na ordem digital que expõem as fragilidades das infraestruturas de controle.


Estudo de caso: Operação Payback (2010)Em resposta ao bloqueio de doações ao WikiLeaks por parte de empresas como PayPal, Visa e Mastercard, o Anonymous lançou ataques coordenados que derrubaram temporariamente os sites dessas corporações. A ação, embora tecnicamente simples, revelou o poder simbólico e midiático do hacktivismo.


Lawrence Lessig propôs que o “código é lei”. O hacktivismo, por sua vez, responde: “o código pode ser reescrito.”


3. Software Livre: o Comum Algorítmico

A filosofia do software livre constitui talvez a mais profunda resistência estrutural à lógica algorítmica proprietária. Longe de ser apenas uma alternativa técnica, trata-se de uma insurgência onto-política: o direito de ver, modificar e redistribuir o código.


O projeto GNU, liderado por Richard Stallman, é um marco nessa trajetória. Sua ética se opõe frontalmente à obsolescência programada, ao sigilo corporativo e ao controle centralizado das tecnologias. A ideia de um “commons digital” é, nesse sentido, uma forma de autonomia coletiva no coração da máquina.


Há, aqui, um paralelo com a teoria marxista do valor: o conhecimento coletivo produzido pelos desenvolvedores de software livre é apropriado privadamente pelas grandes corporações, num processo contínuo de cercamento do comum.


A luta pelo código aberto é, portanto, uma reapropriação das forças produtivas digitais.


4. Arte Generativa Crítica: Estética contra a Regulação

A arte generativa, especialmente em sua vertente crítica, atua como estética da insubordinação algorítmica. Ao utilizar os mesmos mecanismos de automação, dados e códigos, ela os desnaturaliza, revela seus processos e mostra sua artificialidade. Artistas como Rafael Lozano-Hemmer e James Bridle constroem experiências que subvertem os dispositivos de visibilidade e controle.


Exemplo: “The New Aesthetic” (Bridle) - Uma corrente estética que revela a presença da computação no mundo físico, criando uma poética da vigilância e da alienação digital. O drone, o glitch, o QR code — todos se tornam materiais da crítica sensível ao presente.


A arte, nesses casos, não é “decorativa”. Ela interrompe. Ela expõe. Ela hackeia afetos. Se o algoritmo tende à padronização, a arte generativa crítica propõe estéticas não conformes — formas que se desviam, ruídos que escapam, imagens que não podem ser otimizadas.


5. Modulação do Cotidiano e o Corpo Cifrado

A governamentalidade algorítmica não apenas regula, mas se infiltra nos micromovimentos da vida. O quantified self — práticas como o uso de relógios inteligentes, contadores de passos, apps de humor e produtividade — transforma o corpo em objeto de autogestão neoliberal, cifrado em métricas e metas.


A resistência, aqui, passa por desprogramações sutis: a recusa ao rastreamento; o uso de plataformas descentralizadas; a produção de ruído digital; o cultivo da lentidão num ambiente otimizado pela aceleração.


Inspirando-se em Byung-Chul Han, podemos dizer: “a resistência não é o grito, mas o silêncio.” Uma resistência à hipercomunicação, à hipervisibilidade, à compulsão pelo desempenho.


6. Notas para uma Contra-Governamentalidade Digital

Em vez de imaginar um fora da tecnologia, o desafio contemporâneo talvez seja o de hackear por dentro. Apropriar-se dos meios técnicos com fins outros — solidários, coletivos, insurgentes.


Inspirado por Jacques Rancière, podemos falar em uma redistribuição do sensível digital: novas maneiras de perceber, sentir e agir no mundo tecnológico. Não basta denunciar o algoritmo — é preciso imaginar novas formas de viver com e contra ele.


Notas de Rodapé

  1. Deleuze, G. (1990). Post-scriptum sur les sociétés de contrôle.

  2. Lessig, L. (1999). Code and Other Laws of Cyberspace.

  3. Stallman, R. (2002). Free Software, Free Society.

  4. Bridle, J. (2011). The New Aesthetic (manifesto online).

  5. Rancière, J. (2000). Le Partage du Sensible.

  6. Han, B.-C. (2015). A Sociedade da Transparência.


Bibliografia Recomendada

  • COLEMAN, Gabriella. Coding Freedom: The Ethics and Aesthetics of Hacking. Princeton University Press, 2013.

  • TERRANOVA, Tiziana. Network Culture: Politics for the Information Age. Pluto Press, 2004.

  • MANOVICH, Lev. Software Takes Command. Bloomsbury, 2013.

  • LOVINK, Geert. Sad by Design: On Platform Nihilism. Pluto Press, 2019.

  • HARAWAY, Donna. Manifesto Ciborgue e Outros Ensaios.

  • PARISER, Eli. The Filter Bubble: What the Internet Is Hiding from You. Penguin, 2011.


 
 
 

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