Herbert Marcuse: Estética, Liberdade e a Luta Contra a Sociedade Unidimensional
- carlospessegatti
- 1 de ago. de 2025
- 4 min de leitura

A crítica radical de Marcuse à civilização industrial avançada e a potência da arte como abertura utópica para novas formas de existência.
I. Introdução: O Filósofo da Liberdade Estética
Herbert Marcuse (1898–1979), filósofo alemão da Escola de Frankfurt, foi um dos pensadores marxistas mais influentes do século XX, especialmente nos anos 1960 e 70. Exilado do nazismo, viveu e ensinou nos Estados Unidos, onde formulou sua crítica à sociedade industrial avançada. Suas obras dialogam com Marx, Freud, Hegel e Heidegger, mas também antecipam e inspiram movimentos como o Maio de 68, a contracultura psicodélica e o experimentalismo musical.
Marcuse denunciou o conformismo das sociedades capitalistas desenvolvidas, que ele chamou de "sociedade unidimensional", na qual todas as dimensões de crítica, negatividade e imaginação foram domesticadas pelo sistema técnico e consumista.
II. A Sociedade Unidimensional e a Repressão Sublimada
Em seu livro mais conhecido, "O Homem Unidimensional" (1964), Marcuse argumenta que a racionalidade técnica e a lógica do progresso servem à manutenção da dominação. Mesmo os avanços científicos e tecnológicos, longe de libertarem o ser humano, são usados para moldar desejos, controlar pensamentos e reduzir a diversidade da experiência humana.
“A liberdade de escolha entre uma ampla variedade de bens e serviços não significa liberdade se esses bens e serviços perpetuam o trabalho sujo, a agressão e a miséria.”
A repressão não é mais violenta como no século XIX — ela é sublimada. Através da publicidade, da indústria cultural e da linguagem técnica, as sociedades desenvolvem uma forma de consenso que anestesia o pensamento crítico. É o triunfo da razão instrumental sobre a razão dialética e libertadora.
III. Arte, Erotismo e Estética como Potência Utopista
Contra esse conformismo, Marcuse propõe a estética como resistência. Inspirado por Freud, ele vê no erotismo, no prazer e na arte uma energia libidinal que pode romper com a lógica produtivista e opressora do capital. Para ele, a arte não deve reproduzir o real, mas abrir brechas no real, criar fissuras e anunciar outras possibilidades de vida.
“A arte não muda o mundo, mas pode mudar a consciência das pessoas que podem mudar o mundo.”
Marcuse via na arte moderna, no surrealismo, no atonalismo, e posteriormente nas manifestações artísticas da contracultura, uma potência disruptiva. A música, nesse contexto, torna-se meio de expressão sensorial de mundos possíveis, um convite à transcendência das formas reificadas do cotidiano.
IV. A Contracultura e a Recusa: Marcuse e os Anos 60
Nos anos 60, Marcuse se torna uma referência para os movimentos estudantis e para a contracultura. Seus livros "Eros e Civilização" e "O Homem Unidimensional" são lidos nas ocupações, nas ruas e nos encontros underground. Ele dialoga com os hippies, os ativistas do Black Panther Party, os músicos experimentais, e até mesmo com os movimentos psicodélicos.
“A recusa é a mais radical forma de afirmação.”
Para Marcuse, o grito da juventude, o psicodelismo, os corpos livres e as experiências sensoriais não são alienação — são tentativas de romper com a repressão cultural e criar novos modos de existência.
V. Marcuse e a Música: Do Ruído à Utopia Sonora
Aqui entramos diretamente no meu território. A música progressiva, os drones espaciais, os experimentos eletrônicos e o som como vibração cósmica podem ser lidos, à luz de Marcuse, como tentativas de escapar da linguagem colonizada pelo capital. Sons que não servem à lógica do mercado, que não obedecem à fórmula pop, são gestos de negação, de resistência estética.
A música como experiência multissensorial e libertadora cria o que Marcuse chama de “imagens sensoriais do possível” — vislumbres de um mundo não dominado pela eficiência, mas regido pela harmonia entre Eros e civilização.
VI. A Estética como Abertura para o Futuro
Herbert Marcuse nos lembra que a liberdade não será fruto de mais progresso técnico, mas de uma reconfiguração sensível e imaginativa do mundo. Sua crítica segue atual diante do novo unidimensionalismo digital e algorítmico do século XXI.
A arte, a música, a filosofia e o pensamento crítico ainda podem ser as chaves da libertação — não como soluções prontas, mas como campos de força que nos deslocam do lugar comum e nos fazem desejar outros mundos possíveis.
O Som como Subversão da Realidade Técnica — Leituras Estéticas a partir de Marcuse
Na era do algoritmo, da música por demanda e da compressão afetiva do streaming, a arte sonora corre o risco de se tornar mais um apêndice da lógica técnica da eficiência. Porém, à luz de Herbert Marcuse, a música — sobretudo aquela que rompe com a forma canônica, linear e previsível — ainda é um espaço privilegiado de resistência.
Marcuse via na arte a capacidade de negar o presente, não no sentido de recusa cínica ou evasão, mas como negação dialética: aquilo que rompe com o dado e anuncia o possível. A música não figurativa, os drones abstratos, os silêncios carregados de intenção, os timbres inclassificáveis — tudo isso são recursos que nos retiram da lógica funcional do mundo e nos reconectam com o sensível, com o imaginário, com o erótico.
Contra a Redução Técnica da Vida
A sociedade unidimensional é aquela que absorve até mesmo a crítica, tornando-a inofensiva, estética de consumo. A música pop serializada, os algoritmos que “recomendam” e formatam o gosto, são manifestações desse processo.
Contudo, ao explorar frequências não utilitárias, estruturas sonoras abertas, texturas não narrativas, o artista subverte essa realidade técnica. A arte sonora torna-se uma ruptura do fluxo temporal, criando intervalos de consciência que escapam ao controle do sistema.
A Liberdade Começa na Sensibilidade
Marcuse acreditava que uma revolução efetiva precisaria não apenas de novas estruturas políticas, mas de novas formas de sentir o mundo. A música — quando desvinculada da funcionalidade — é um laboratório desse sensível emancipado.
“A libertação do homem começa na libertação da sensibilidade.” (Herbert Marcuse, Eros e Civilização)
Essa epígrafe pode acompanhar um disco que eu possa vir a compor algum dia em que ele venha a atuar como um manifesto sonoro da minha própria recusa ao unidimensionalismo estético contemporâneo. Um disco que, como meu trabalho já demonstra, evoque os ritmos de outras dimensões, os silêncios do vácuo cósmico, a dissonância que anuncia a emergência de uma nova forma de existência.
Resistência através do Som
Assim o meu percurso como músico — entre o New Age cósmico e o experimentalismo progressivo — pode ser visto como um projeto marcusiano involuntário ou consciente: não para ilustrar o mundo, mas para torná-lo sensível às suas outras possibilidades.
O som, nesse contexto, não é mais um produto, mas um campo de força — vibracional, imaginativo, político.



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