Let It Be e Abbey Road: A Sublime Despedida dos Beatles
- carlospessegatti
- 30 de mai. de 2025
- 6 min de leitura

Entre a ruína e a transcendência: dois álbuns que sintetizam o ápice criativo e humano da maior banda de todos os tempos
Poucos momentos na história da música popular carregam a densidade simbólica e estética dos dois últimos álbuns gravados pelos Beatles: Let It Be e Abbey Road. Embora Let It Be tenha sido lançado após Abbey Road, em maio de 1970, foi este último que, na cronologia afetiva e criativa da banda, encerrou definitivamente sua trajetória nos estúdios.
Para além da ordem dos lançamentos, ambos os discos constituem, para mim, os pontos mais altos da carreira do quarteto de Liverpool — não apenas por sua excelência musical, mas, sobretudo, pelo que representam enquanto documentos humanos, registros de um fim inevitável que, paradoxalmente, gerou obras tão cheias de vida.
Enquanto muitos críticos e historiadores da música consagram Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) e o White Album (1968) como os discos mais revolucionários dos Beatles — e talvez o sejam, do ponto de vista da inovação formal e da ruptura estética —, vejo em Let It Be e Abbey Road uma expressão mais densa e tocante: a síntese de toda a trajetória da banda, condensada numa despedida grandiosa, marcada por melancolia, maturidade e, acima de tudo, uma beleza que transcende o tempo.
Let It Be: o caos transformado em beleza
Gravado entre conflitos internos e crescente desintegração pessoal e profissional, Let It Be é, ironicamente, um álbum que propõe justamente o gesto do "deixar ser". É uma obra marcada pela tentativa frustrada de retornar à simplicidade das origens, mas que, nesse processo, acaba expondo as fissuras irreparáveis do grupo.
Canções como “Across the Universe” e “Let It Be” ressoam como preces cósmicas e íntimas, enquanto “The Long and Winding Road” soa como uma confissão melancólica, um adeus velado. Mesmo que o projeto inicial (Get Back) tenha sido abandonado e entregue, posteriormente, às mãos de Phil Spector — que acrescentou seu controverso "wall of sound" —, o disco permanece como um documento honesto e cru, onde as emoções não foram filtradas nem suavizadas.
Let It Be é o som da ruína, mas também da aceitação: não há mais como manter a ilusão da unidade, resta apenas a música como último elo entre aqueles quatro jovens que, juntos, haviam mudado o mundo.
Abbey Road: o réquiem perfeito
Se Let It Be é o álbum da dissolução, Abbey Road é o da transcendência. Gravado após as tensões das sessões de Let It Be, mas antes de sua publicação, Abbey Road representa uma espécie de pacto final: um acordo silencioso para, mais uma vez, priorizar a música em detrimento das desavenças pessoais.
O resultado é um disco impecável, onde técnica, inovação e sensibilidade atingem um raro equilíbrio. O lado B do álbum, com sua sequência de pequenas peças interligadas — de “You Never Give Me Your Money” até “The End” — constitui um dos momentos mais sublimes de toda a história do rock, quase como um réquiem coletivo, um épico que celebra e encerra, ao mesmo tempo, uma das maiores aventuras artísticas do século XX.
Faixas como “Come Together”, “Something” e “Here Comes the Sun” não apenas sintetizam a maestria composicional de Lennon, McCartney e Harrison, mas também evidenciam a maturidade sonora e emocional que o grupo havia alcançado. O disco termina com “The End”, e sua frase icônica — “And in the end, the love you take is equal to the love you make” — soa como o epitáfio definitivo dos Beatles, uma lição que ultrapassa o contexto musical e se inscreve como filosofia de vida.
Entre o humano e o mítico
Minha preferência pessoal por Let It Be e Abbey Road não se explica apenas por critérios técnicos ou históricos. Trata-se de uma escolha afetiva, estética e filosófica: vejo nesses álbuns a potência máxima do que a arte pode expressar quando confrontada com seus próprios limites — sejam eles pessoais, criativos ou históricos.
Enquanto o mundo apontava para a ruptura, os Beatles responderam com canções que abraçavam tanto a dor quanto a beleza, compondo uma despedida que, paradoxalmente, soa como um recomeço eterno. Não é à toa que essas obras continuam, década após década, tocando novas gerações, oferecendo abrigo, reflexão e inspiração.
Em um tempo como o nosso, marcado por crises e transformações incessantes, revisitá-las é também um convite a compreender como, mesmo nos momentos finais, a criação artística pode florescer com intensidade incomparável.
Let It Be e Abbey Road: a beleza de um fim que nunca termina
Reflexões sobre dois álbuns que, para mim, são a mais alta expressão dos Beatles — não pela ruptura, mas pela transcendência
Há muito tempo penso nisso: enquanto muitos colocam Sgt. Pepper's ou o White Album no topo da obra dos Beatles — e, de fato, são álbuns fundamentais, revolucionários, históricos —, eu sempre volto aos dois últimos discos gravados por eles: Let It Be e Abbey Road.
Não sei ao certo quando essa preferência se firmou em mim. Talvez tenha sido aos poucos, como acontece com as coisas que realmente nos tocam. Porque há nesses dois álbuns algo que vai além da inovação, além do virtuosismo e do impacto cultural. Neles, percebo a beleza rara de quem, mesmo diante da certeza do fim, ainda escolhe criar — e criar com uma força que transcende a própria ruína.
Let It Be, para mim, soa como um diário íntimo, às vezes quase um registro involuntário, cru, repleto de silêncios, falhas e hesitações. É um álbum que carrega a marca do desgaste, mas também da aceitação. Gosto de pensar que o título — esse convite sereno, quase resignado, de “deixar ser” — não foi apenas uma escolha estética, mas um gesto existencial.
Ouço “The Long and Winding Road” e sinto, mais do que a melodia impecável, um cansaço doce, uma espécie de saudade de algo que ainda está ali, mas já começou a se despedir. E quando chega “Across the Universe”, tenho a impressão de que a própria ideia de banda, de coesão, se dissolve, e sobra apenas a canção flutuando pelo cosmos, indiferente a tudo o que é humano, demasiado humano.
E então vem Abbey Road. Gravado depois de Let It Be, mas lançado antes. É curioso pensar nisso: como se, mesmo no adeus, houvesse uma tentativa de organizar o caos, de construir uma obra que soasse como o fechamento ideal, o réquiem perfeito.
E, de fato, é.
Abbey Road é, para mim, a comprovação de que o fim não precisa ser trágico; pode ser simplesmente belo. Há uma harmonia quase etérea em como aquelas músicas se encadeiam, especialmente na segunda metade do disco, naquela sequência que começa com “You Never Give Me Your Money” e termina com “The End” — e, depois, com aquele epílogo sutil, “Her Majesty”, como quem ainda quer rir, mesmo após dizer adeus.
Quando ouço “Something” ou “Here Comes the Sun”, percebo que não há mais espaço para competições internas, para vaidades juvenis ou disputas de egos. O que resta é pura música, pura entrega. Um sopro final, que paradoxalmente ecoa como eternidade.
Talvez seja isso que me faz preferir esses dois discos a qualquer outro dos Beatles.
Não é só uma questão estética, embora eles sejam impecáveis nesse aspecto. É, acima de tudo, uma questão existencial: vejo neles a representação mais honesta do que significa criar, mesmo quando tudo ao redor desaba. E é isso que parece estar acontecendo comigo neste exato momento da minha vida.
Criar é Preciso (se bem que por vezes nem tanto. Às vezes o ruído, o acaso e o aleatório se instalam); Viver não é Preciso.
E aqui faço uma pausa pois não tenho como deixar de lembrar da Cecília Meireles quando ela diz: “Quanto ao meu Destino, não sei se o determino ou apenas o acompanho.” De ‘Preciso', verdadeiramente a vida não tem nada, muito embora eu ainda continue fazendo planos numa tentativa desesperada de poder colocar rédeas em meu destino.
Não posso deixar de pensar no quanto isso se conecta com a própria arte, com a própria vida — que, tantas vezes, nos coloca diante do esgotamento, da separação, do fim, e ainda assim nos pede para continuar criando, amando, dizendo e cantando.
Let It Be e Abbey Road não são, para mim, apenas discos de uma banda que chegou ao fim. São, antes, lições silenciosas sobre como lidar com o fim — com dignidade, com beleza, e, talvez, com uma certa serenidade.
E, ao mesmo tempo, mostram que os finais são sempre também começos, porque sigo voltando a eles, ouvindo, redescobrindo, aprendendo.
Na última faixa, os Beatles dizem: “And in the end, the love you take is equal to the love you make”. E talvez, no fim, seja só isso mesmo: a única medida que importa.
E sigo aqui, voltando sempre a esses dois discos, como quem visita um lugar onde o fim e a eternidade se abraçam.
Come Together - Abbey Road
Let it Be - Let it Be - By Callera




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