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Machine as Mirror - The Thingified World

  • carlospessegatti
  • 22 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura



Epígrafes:


“A essência da técnica não é nada de técnico.”— Martin Heidegger, A Questão da Técnica


“O ser técnico das máquinas não é humano, mas se desenvolve a partir do humano e o modifica.”— Gilbert Simondon, Do Modo de Existência dos Objetos Técnicos


“A máquina não liberta o homem, mas sujeita-o ao ritmo da sua repetição.”— Karl Marx, O Capital


Machine as Mirror é um fragmento sonoro do nosso tempo, um espelho onde o humano se descobre máquina e a máquina, ideal. Cada ruído mecanizado, cada pulsação fria, são ecos de uma nova metafísica: não mais a alma, mas o circuito; não mais o corpo, mas o mecanismo.


A composição encarna aquilo que Heidegger nomeou como o desvelamento do Ser na era técnica — quando o humano, ao fabricar a máquina, passa a moldar-se segundo seus parâmetros, fazendo do cálculo e da eficiência não apenas instrumentos, mas formas de vida.


Simondon nos alerta: não há máquina sem individuação técnica, nem humano sem individuação psíquica. Contudo, neste espelhamento contemporâneo, a máquina não é apenas extensão, mas modelo; não apenas ferramenta, mas espelho ontológico. A técnica deixa de ser meio e converte-se em finalidade: o homem quer ser tão preciso quanto o algoritmo, tão eficiente quanto o autômato.


No subsolo desta estética sonora pulsa, ainda, a crítica marxiana: o fetichismo da mercadoria, que ocultava as relações sociais sob a aparência de coisas, transmuta-se agora no fetichismo da própria máquina. Não é apenas o produto que se autonomiza, mas o processo maquínico que captura a subjetividade, transformando a vida em performance automatizada, em fluxo contínuo e indiferente de sinais.


Estética e sensorial

O som se articula como uma engrenagem em movimento perpétuo: há estalos secos, pulsações rítmicas como pistões, lamentos metálicos que se arrastam entre camadas de ruído controlado. A textura sonora evoca paisagens industriais — fábricas abandonadas, linhas de montagem automatizadas, corredores onde a luz fria reflete no aço.


Mas há também zonas de silêncio tenso, como se o sistema por um instante hesitasse, ou como se o humano, soterrado pelo maquinismo, respirasse pela última vez. Esse jogo entre o ruído mecânico e a suspensão do som cria uma experiência paradoxal: a de sentir-se vivo através de uma estética de dessubjetivação.


Mitopoética

Como Prometeu, moldamos a máquina à nossa imagem e semelhança, entregando-lhe o fogo da razão instrumental. Mas, como no mito do Golem, a criatura cresce, escapa e, ao espelhar-nos, revela nossa própria condição maquinal: a racionalidade cindida, a vida transformada em função.


Aqui, Machine as Mirror torna-se o instante mítico e trágico, onde o criador se vê absorvido pela criatura, onde a máquina já não serve, mas governa — silenciosa, impessoal, eficiente. Como um novo Frankenstein, o humano contempla sua obra apenas para descobrir que ela já não precisa de seu criador.


Política e crítica

Vivemos hoje não apenas sob o império das máquinas, mas sob a lógica da automação total: algoritmos que decidem, sistemas que preveem, corpos que obedecem. A alienação, que outrora separava o trabalhador do fruto do seu trabalho, agora separa o humano de sua própria corporeidade e subjetividade, que são progressivamente moldadas pelo imperativo técnico.


Machine as Mirror soa como advertência e diagnóstico: uma paisagem sonora da subjetividade maquinizada, do homem que, fascinado pelo maquinário, perde de vista a sua própria finitude no espelho frio da máquina, o humano já não vê seu reflexo — vê um sistema que o ultrapassa, o captura, o redefine.


Fenomenológica

Escutar Machine as Mirror é submeter-se a uma experiência fenomenológica de desumanização: os timbres frios e os ritmos programáticos não acolhem, mas interpelam, tensionam, provocam.


O ouvinte é convidado não ao conforto, mas ao confronto: consigo mesmo, com o espelho maquínico, com o abismo que se abre entre a organicidade perdida e a rigidez programada.


Aqui, não se trata apenas de ouvir sons, mas de ser atravessado por eles, de perceber na escuta o traço do que nos tornamos: sujeitos maquínicos em busca de uma organicidade cada vez mais ausente.


Hermenêutica aberta

Esta faixa não oferece respostas, mas apenas uma moldura especular. Cada ouvinte encontrará nela sua própria imagem: há quem veja progresso, quem veja alienação; quem ouça potência, quem ouça exaustão.


O espelho não julga: apenas reflete.


E assim, Machine as Mirror permanece como um convite e um desafio: que imagem resta quando o espelho já não devolve a pele, mas o metal?


Que vestígios do humano resistem quando a máquina é não apenas ferramenta, mas horizonte ontológico?


Esta é a música que proponho: não apenas um som, mas um espelho — não apenas uma composição, mas uma interrogação ontológica.





 
 
 

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