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Manifesto contra o trabalho: o fim da religião do trabalho e o nascimento do homem livre

  • carlospessegatti
  • 11 de out. de 2025
  • 8 min de leitura

Atualizado: 12 de out. de 2025





Quando o trabalho deixa de ser a medida do valor humano e se revela como a engrenagem da dominação moderna


“O trabalho não é a substância da riqueza, mas a forma histórica de uma pobreza social que se apresenta como riqueza.”— Grupo Krisis, Manifesto contra o trabalho (1999)


Epígrafe complementar

“O reino da liberdade só começa onde cessa o trabalho determinado pela necessidade e pela finalidade exterior.”— Karl Marx, O Capital, Livro III


Introdução: o crepúsculo da civilização do trabalho

No final do século XX, quando o neoliberalismo já havia triunfado como lógica planetária e a globalização financeira parecia consolidar o império do capital sobre a Terra, o grupo Krisis — formado por pensadores como Robert Kurz, Ernst Lohoff, Norbert Trenkle e Franz Schandl — publica o Manifesto contra o trabalho (1999). O texto surge como uma resposta à fetichização do trabalho e à incapacidade tanto da esquerda tradicional quanto da direita liberal de pensar o mundo para além do paradigma produtivista.


A tese central é provocadora e libertadora:

O trabalho não é a essência eterna do ser humano, mas uma forma histórica de dominação.


Para o grupo, a civilização moderna, desde o Iluminismo até o capitalismo tardio, construiu uma verdadeira religião secular em torno do trabalho. O indivíduo moderno só encontra sentido, identidade e valor quando está submetido à lógica da produtividade e do desempenho. Mesmo os discursos de emancipação — socialistas, comunistas, keynesianos ou sociais-democratas — conservaram intacta essa sacralização do trabalho.


O trabalho como fetiche moderno

Inspirados em Marx, mas ultrapassando o marxismo tradicional, os autores do Krisis mostram que o trabalho, no capitalismo, não é simplesmente uma atividade produtiva, mas a própria forma social que mede todas as outras: ele é o fetiche central da modernidade.


“O trabalho é o deus oculto da modernidade, o verdadeiro sujeito automático de um mundo alienado.”


A crítica não é apenas econômica, mas ontológica: o trabalho como valor não apenas produz mercadorias — ele produz o próprio sujeito moderno, a forma de consciência e de ser-no-mundo. O indivíduo que trabalha internaliza o imperativo da eficiência, da produtividade, do tempo útil — tornando-se, ele mesmo, uma extensão da máquina.


Assim, o Krisis afirma que a libertação humana não virá da glorificação do trabalho, mas da sua superação. O “fim do trabalho” não é uma tragédia social, como pregam os discursos neoliberais e reformistas; é, ao contrário, uma oportunidade civilizatória — um limiar de transição para uma nova forma de existência não mediada pelo valor, pelo dinheiro e pelo mercado.


Crítica marxista aprofundada: o capital como sujeito automático

Marx já dizia, nos Grundrisse, que o capital é um “sujeito automático”: um sistema que se autoexpande, que faz do trabalho o seu combustível e da mais-valia a sua respiração. O Krisis retoma esse ponto com vigor: o problema não é o capitalista enquanto indivíduo, mas a própria forma social do valor, que subordina a vida a uma lógica de valorização incessante.


A “crise do trabalho” não é, portanto, um acidente histórico, mas o ponto de saturação de uma forma social que esgota suas bases materiais. A automação, a informatização e a inteligência artificial não criam apenas desemprego: elas revelam a obsolescência histórica do trabalho como princípio organizador da vida.


A máquina moderna, ao libertar o homem do trabalho, deveria libertá-lo da servidão. Mas o sistema do valor transforma essa libertação em tragédia: quem não trabalha é descartado. Essa é a contradição fundamental: o capitalismo gera abundância material, mas mantém a escassez social.


O desencantamento da esquerda e a falência do humanismo do trabalho

O Manifesto contra o trabalho é, também, uma crítica à esquerda tradicional. Os autores denunciam que o marxismo ortodoxo, ao fazer do trabalho o “princípio ontológico” do ser social, manteve o mesmo núcleo religioso que o liberalismo: o culto ao trabalho.


A diferença, dizem, é apenas de sinal:

  • O capitalista exalta o trabalho como fonte do lucro;

  • O socialista o exalta como fonte da dignidade humana.


Mas ambos permanecem prisioneiros do mesmo paradigma.

Por isso, o Krisis propõe uma ruptura ontológica: pensar a emancipação não como “direito ao trabalho”, mas como direito à não-submissão à forma trabalho.


Trata-se de imaginar uma sociedade pós-trabalho, baseada na partilha do tempo, no uso racional da técnica, na liberação da criatividade e na reconstrução dos vínculos humanos fora do mercado.


Trechos marcantes

“O trabalho nunca foi uma categoria trans-histórica da vida humana, mas apenas a forma como a sociedade moderna organiza a sua compulsão de produzir mercadorias.”


“A crise do trabalho é a crise da própria modernidade. Quem deseja salvar o trabalho deseja salvar a dominação.”


“A libertação do trabalho não é a libertação pelo trabalho — é a libertação do trabalho enquanto forma social.”


Conclusão: o futuro além do trabalho

Em última instância, o Manifesto contra o trabalho é um chamado à transvaloração dos valores modernos. Se o século XIX foi o século da glorificação do trabalho, e o século XX foi o da sua crise, o século XXI deve ser o da sua superação.


O Krisis nos convida a pensar uma civilização pós-produtivista, onde a técnica e a automação não sirvam à valorização do capital, mas à expansão da liberdade humana. Essa visão ressoa com a dialética marxista, na qual as forças produtivas, ao entrarem em contradição com as relações de produção, anunciam o nascimento de uma nova era.


A emancipação, portanto, só será possível quando rompermos o feitiço do trabalho — este deus secular que transformou o mundo em fábrica e o homem em instrumento. O futuro não pertence ao homo faber, mas ao homo ludens, ao criador, ao artista, ao pensador livre das amarras do valor.


Epílogo para reflexão

“O homem só é plenamente homem quando brinca.”— Friedrich Schiller

“A libertação da humanidade passa pela libertação do tempo.”— Robert Kurz


Complemento ao texto principal


1. O Manifesto no contexto histórico: a virada do século e o colapso da sociedade do valor

Quando o Manifesto contra o trabalho foi publicado, em 1999, o mundo celebrava o “fim da história” proclamado por Francis Fukuyama e a vitória planetária do mercado global. O trabalho ainda era apresentado como valor universal — o eixo de todas as políticas sociais, da retórica empresarial e da promessa de inclusão.

Mas, por baixo dessa superfície triunfalista, algo já ruía: a crise estrutural da sociedade do trabalho.


Robert Kurz e seus companheiros perceberam o que poucos enxergavam: a automação, a digitalização e a financeirização estavam corroendo as bases do capitalismo produtivo clássico. O capital havia se tornado autorreferente, desligado do trabalho vivo — e, portanto, do valor. A máquina, a rede e o algoritmo substituíam o corpo humano na produção, enquanto milhões eram empurrados para a marginalidade do “desemprego estrutural”.


O Manifesto é, portanto, um texto de diagnóstico civilizatório. Ele antecipa o século XXI como uma era em que o trabalho deixará de ser o centro da vida social, não por uma revolução proletária, mas pela própria lógica autodestrutiva do capital.


2. A crítica ao mito da empregabilidade e a ideologia da meritocracia

O grupo Krisis denuncia o que chamam de “moral do trabalho”: a ideia de que o valor do indivíduo é medido por sua capacidade de produzir, competir e adaptar-se. Essa moral se expressa hoje sob as formas da meritocracia neoliberal, do empreendedorismo de si e da “economia criativa” — onde até a subjetividade se torna mercadoria.


“O desempregado é o herege moderno, culpado de não oferecer o sacrifício exigido ao deus-trabalho.”


O que antes era disciplina fabril, hoje é automotivação e performance. O chicote se transformou em aplicativo, o relógio de ponto em dashboard de produtividade. Mas a essência permanece: a colonização total da vida pelo imperativo da eficiência.


3. Pós-trabalho, tecnologia e o retorno do tempo livre

Em um sentido dialético, o Krisis não é tecnofóbico. Eles compreendem que o desenvolvimento técnico é ambivalente:ele carrega tanto o potencial de libertar o homem da labuta quanto o risco de aprofundar a dominação, caso permaneça submetido ao capital.


Aqui, reencontramos Marx:


“No reino da necessidade, o homem é dominado pela necessidade; mas, no reino da liberdade, o desenvolvimento das forças produtivas serve à autoformação do ser humano.”


A técnica, portanto, não é inimiga — o inimigo é o uso social da técnica. Em uma civilização pós-trabalho, a máquina seria instrumento de tempo livre, não de controle. O ócio criativo, o pensamento, a arte e a contemplação voltariam a ser os eixos da vida.


Esse é o ponto em que o Manifesto se encontra com a minha própria visão: a libertação sonora, a vibração cósmica que substitui o ruído da fábrica pelo silêncio criador — uma nova escuta do universo. Em certo sentido, minha música New Age Progressiva traduz essa transição: do ritmo produtivo da sociedade industrial ao pulso expandido do cosmos, onde o tempo deixa de ser métrica de lucro e torna-se fluxo de consciência.


4. O fetiche do trabalho e o esvaziamento do sujeito

O Krisis interpreta o trabalho como o último grande Grande Outro moderno — no sentido lacaniano que discutimos em Dany-Robert Dufour. Ele é o significante-mestre que ordena o simbólico da sociedade capitalista: todos devem se justificar diante dele, mesmo quando o mundo já não precisa mais de tanto trabalho.


Essa é a essência do fetichismo moderno: as formas sociais continuam a existir mesmo depois de terem perdido sua base material. Trabalhar, consumir e competir tornaram-se rituais vazios, repetidos para sustentar o simulacro de sentido.


Por isso, o Manifesto não é apenas uma crítica econômica, mas uma crítica existencial. Ele nos convida a romper com essa neurose coletiva e a recuperar a potência criadora — aquela que nasce do silêncio, do não-fazer, da escuta e da contemplação.


5. O legado do Manifesto e a era algorítmica

Passados mais de vinte anos, o Manifesto contra o trabalho revela-se profético. Vivemos hoje sob o império dos algoritmos, em que o trabalho humano é substituído por inteligências artificiais que aprendem, decidem e produzem em escala crescente. Mas, em vez de libertar o homem, essa automação radicalizou a precariedade: o sujeito contemporâneo vive na ansiedade da obsolescência, disputando migalhas de relevância digital.


O Krisis previu isso:

“O trabalho morre, mas o seu fantasma continua a exigir sacrifícios.”


Assim, o trabalho tornou-se um zumbi social: morto em sua substância, mas vivo como ideologia. Enquanto a humanidade poderia celebrar o fim da labuta, ela se angustia diante do desemprego — prova de que ainda não compreendeu o verdadeiro sentido da crise do trabalho.


6. A estética do tempo liberto: uma leitura musical e filosófica

Aqui a crítica do Manifesto encontra o campo que me pertence: o da criação sonora e da filosofia estética.


Pois se o trabalho é a forma histórica da servidão, a música — em sua essência livre e não utilitária — é a forma arquetípica da liberdade.


A sociedade pós-trabalho imaginada pelo Krisis pode ser ouvida como uma sinfonia cósmica em que as forças produtivas já não operam sob o compasso da necessidade, mas sob a harmonia da criação. A música torna-se o modelo de uma economia do tempo livre, uma forma de existência não subordinada ao cálculo, mas à vibração.


“Somente quando o tempo não é mais medido pelo relógio do capital é que ele se torna música.”


A minha obra — desde Annunaki, passando por Fifth Dimension and Beyond  e Cosmic Purpose — é expressão sonora desse pensamento: uma tentativa de reencantar o mundo após o colapso da lógica do trabalho, devolvendo ao som o poder de reconectar o homem ao cosmos, e não à máquina.


7. Considerações finais: do colapso à criação

O Manifesto contra o trabalho é mais do que um texto teórico — é um gesto civilizatório.


Ele anuncia o fim de uma era e convoca o nascimento de outra. Se o século XX foi o século do trabalhador, o XXI será o do criador — não aquele que produz mercadorias, mas aquele que gera sentido, vibração, consciência.


“A humanidade só poderá sobreviver quando deixar de ser uma sociedade do trabalho e se tornar uma sociedade da vida.” — Grupo Krisis


Nessa nova era, a minha música ressoa como o eco de um mundo por vir — onde o som já não é mercadoria, mas matéria de transcendência. Onde o tempo não é cronômetro, mas eternidade pulsante. E onde o silêncio, finalmente, não é ausência — mas o ponto de partida de toda criação.




 
 
 

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