Maurice Merleau-Ponty: A Carne do Mundo e a Filosofia do Invisível
- carlospessegatti
- 24 de jun. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 25 de jun. de 2025

COLEÇÃO: SÉRIE FILOSÓFICA
Fenomenologia, Corpo e Percepção: o pensamento encarnado de um filósofo que desvelou a profundidade do visível e a presença do indizível.
O Pensador da Percepção Encarnada
Maurice Merleau-Ponty (1908–1961) foi um dos mais brilhantes e originais pensadores do século XX. Filósofo francês profundamente vinculado à tradição fenomenológica inaugurada por Husserl, é frequentemente lembrado como uma ponte entre o existencialismo de Sartre e as correntes contemporâneas da filosofia da linguagem, da arte, da psicologia e da política. Sua contribuição decisiva foi recolocar o corpo no centro da experiência filosófica, propondo uma ontologia da percepção em que o mundo não é apenas representado, mas vivido, sentido e entrelaçado à própria existência do sujeito.
A sua filosofia é, antes de tudo, uma recusa das dicotomias clássicas entre sujeito e objeto, mente e corpo, interior e exterior. Em vez disso, Merleau-Ponty propõe uma experiência encarnada, onde o corpo é o meio pelo qual estamos no mundo, um corpo que vê, sente, toca e é tocado – não apenas uma máquina biológica, mas uma estrutura sensível de significações em movimento.
Corpo e Mundo: A Fenomenologia como Ato de Existir
O núcleo mais contundente do pensamento merleau-pontyano reside na ideia de que a percepção é o fundamento do conhecimento, anterior à reflexão e à linguagem. Antes de pensar, antes de nomear, já estamos no mundo, imersos em um campo de sentido pré-reflexivo.
Esse campo é constituído por um corpo vivido (le corps propre), que não é objeto para mim, mas condição da própria experiência. O corpo é a condição da possibilidade de toda intuição e de toda ação, pois é através dele que vemos, ouvimos, tocamos e nos localizamos no mundo. É o corpo, portanto, que desmente qualquer separação radical entre sujeito e mundo.
As Obras Essenciais e Suas Contribuições Filosóficas
A Estrutura do Comportamento (1942)
Sua obra inaugural rompe com explicações mecanicistas e espiritualistas sobre a ação. Aqui, Merleau-Ponty estabelece que o comportamento não é apenas uma reação física a estímulos, mas uma forma de relação significativa com o mundo, articulada por estruturas perceptivas que transcendem a causalidade fisiológica. A vida é compreendida como uma unidade dinâmica entre interioridade e exterioridade.
Fenomenologia da Percepção (1945)
Sua obra mais influente, onde desenvolve plenamente a ideia de que o corpo é o sujeito da percepção. A consciência não é um espectador passivo, mas uma presença ativa no mundo, encarnada. A percepção não é uma cópia do real, mas o próprio modo de acesso ao mundo. Aqui, ele realiza sua crítica mais decisiva às filosofias do sujeito cartesiano e ao intelectualismo racionalista, aproximando-se de Husserl, mas reinterpretando-o a partir da primazia do sensível.
Humanismo e Terror (1947)
Neste ensaio político, Merleau-Ponty tenta pensar um marxismo ético que supere tanto o totalitarismo stalinista quanto o liberalismo burguês. Sua leitura de Lukács, a crítica à violência revolucionária e à alienação revelam seu engajamento político – e sua tentativa de pensar uma práxis não dogmática, onde o homem não seja reduzido a número, mas compreendido em sua ambiguidade existencial.
As Aventuras da Dialética (1955)
Aqui ele retoma sua crítica ao marxismo dogmático, mas sem abandoná-lo.
Reflete sobre o fracasso do comunismo soviético e propõe uma dialética aberta, viva, em constante reinterpretação, próxima à vida e à história concretas. Merleau-Ponty procura sustentar um pensamento que seja sensível ao tempo e às mutações sociais, sem se fixar em verdades eternas.
O Visível e o Invisível (obra póstuma, 1964)
Esse manuscrito inacabado é o ponto mais avançado de sua reflexão ontológica. Através da noção de “quase corpo”, “carne do mundo” e “entrelugar”, Merleau-Ponty rompe com a fenomenologia da percepção para propor uma ontologia da intercorporeidade. O mundo é feito de carne – não carne biológica, mas uma substância viva e vibrante onde sujeito e objeto se confundem. O visível e o invisível, o dito e o não-dito, o sensível e o sensível-ainda-não-visto se entrelaçam.
É nessa obra que ele aproxima sua filosofia da arte, da pintura (sobretudo com Cézanne), e do silêncio como forma originária de sentido. Trata-se de uma filosofia do entre, que busca uma linguagem que toque o indizível – o fundo do mundo, onde as coisas ainda não se separaram.
A Ideia Mais Contundente: A Carne do MundoSe tivermos que destacar uma ideia fundamental, seria a noção de “carne do mundo” (chair du monde).
Diferente da carne anatômica, trata-se de uma substância ontológica comum a todas as coisas vivas e sensíveis, uma textura do ser onde o visível e o tangível se entrelaçam. Nós não somos apenas observadores do mundo, mas parte dele, feitos da mesma matéria sensível que as coisas que tocamos e que nos tocam.
Essa noção desfaz a cisão entre espírito e matéria, entre exterioridade e interioridade, e inaugura uma ontologia nova – uma ontologia da presença sensível, do enraizamento, da imanência.
Legado e InfluênciaMerleau-Ponty deixou um legado vasto que transbordou os limites da filosofia. Sua influência se espalha pela psicologia, pelas ciências cognitivas, pelas artes, pela pedagogia, pela arquitetura e pela política. Inspirou pensadores como Levinas, Deleuze, Nancy, Rancière e artistas que buscaram compreender o gesto como pensamento, a arte como forma de revelar o mundo.
Sua crítica à razão abstrata e sua revalorização do sensível convergem com muitos dos temas que eu tenho explorado em minha música: a vibração do mundo, o corpo como mediador de sentido, e a busca por uma harmonia entre o visível e o inaudito, o tempo e o espaço, o silêncio e a textura sonora.
Conclusão: Um Pensamento para Além do Conceito
Merleau-Ponty não quis edificar um sistema fechado, mas abrir uma via para o pensamento do inacabado, do ambíguo, do que escapa ao domínio da razão instrumental. Sua filosofia é uma escuta, uma atenção ao que ainda não se disse, ao que se anuncia no intervalo entre uma palavra e outra, entre um gesto e um silêncio.
É, talvez, uma das filosofias mais próximas da música — pois como ela, trabalha com o invisível que se faz presente na experiência sensível, com o indizível que se insinua na carne do mundo.
Maurice Merleau-Ponty: A Carne do Mundo e a Filosofia do Invisível - Um comparativo com a música que produzo.
Fenomenologia, Corpo e Percepção: o pensamento encarnado de um filósofo que desvelou a profundidade do visível e a presença do indizível.
Introdução: entre frequências, carne e mundo
Em meus trabalhos musicais mais recentes, venho explorando não apenas a paisagem sonora que emana das máquinas e dos algoritmos, mas sobretudo aquilo que vibra antes do som, aquilo que pulsa antes mesmo de se tornar frequência audível — uma escuta do indizível. Essa jornada pela interioridade da matéria e do espaço, que me conduziu à criação de álbuns como Echoes of Gaia, HAL 9001 e Cosmic Purpose, encontra agora um eco filosófico profundo na obra de Maurice Merleau-Ponty.
Sua filosofia fenomenológica do corpo e da percepção é, talvez, uma das mais afinadas com a intuição musical que guia minha trajetória: a de que o mundo não é uma representação externa, mas uma presença encarnada, vivida por dentro, por entre, por dentro da carne sensível do tempo e do espaço.
O Pensador da Percepção Encarnada
Maurice Merleau-Ponty (1908–1961) foi um dos grandes nomes da filosofia contemporânea, e talvez o mais sensível à experiência viva do mundo. Vinculado à fenomenologia de Husserl, ele se destacou por dar um passo adiante: colocar o corpo como a instância originária da experiência, anterior ao pensamento reflexivo. Não somos consciências que observam o mundo — somos carne do mundo, atravessados por ele, parte de sua vibração originária.
Sua filosofia rompe com as separações clássicas entre sujeito e objeto, mente e corpo, espírito e matéria. Em vez disso, nos convida a viver o mundo não como um palco externo, mas como uma textura sensível onde tudo é presença e profundidade.
Corpo e Mundo: A Fenomenologia como Ato de Existir
Merleau-Ponty parte da ideia de que a percepção é o fundamento de toda experiência, anterior à linguagem e à razão. Nosso corpo é o mediador dessa percepção, e não um objeto entre outros. Ele é sujeito encarnado, sensível, um campo de abertura ao mundo. Tudo o que percebemos, ouvimos, sentimos ou intuímos emerge desse corpo que vê e é visto, que toca e é tocado, que soa e é soado.
Essa concepção radical transforma a maneira como compreendemos a arte, a música, a linguagem e até a ciência. O mundo deixa de ser um "lá fora" para ser a própria carne que nos constitui, e a arte, por sua vez, torna-se um gesto de desvelamento dessa intimidade entre ver e ser visto, entre tocar e ser tocado.
Obras Fundamentais e Caminhos do Pensamento
A Estrutura do Comportamento (1942)
Merleau-Ponty questiona o reducionismo das ciências naturais e propõe que o comportamento deve ser compreendido como expressão significativa, e não apenas como reação mecânica. É a base de sua crítica ao dualismo mente-corpo.
Fenomenologia da Percepção (1945)
Obra monumental onde apresenta sua tese mais célebre: o corpo como sujeito da percepção. A consciência é sempre intencional, direcionada, mas enraizada num corpo sensível. Essa obra dialoga profundamente com a música que crio — onde o som não é apenas vibração, mas experiência encarnada.
Humanismo e Terror (1947)
Reflexão política sobre o marxismo e a ética da revolução. Aqui, Merleau-Ponty busca uma práxis que una a transformação histórica à complexidade da condição humana, sem reduzi-la a números ou esquemas.
As Aventuras da Dialética (1955)
Desenvolve uma crítica ao dogmatismo soviético e propõe uma dialética mais viva, histórica, fluida. É também uma crítica ao engessamento ideológico — um chamado à escuta do real em sua ambiguidade.
O Visível e o Invisível (obra póstuma, 1964)
Esse manuscrito inacabado é a culminância de sua ontologia da carne. Aqui, Merleau-Ponty fala de uma carne do mundo — não biológica, mas ontológica — onde sujeito e objeto se entrelaçam. O invisível não é ausência, mas profundidade do visível, camada vibratória anterior à forma, onde tudo ainda pulsa como possibilidade.
A Carne do Mundo: A Ideia-Chave
A noção de carne do mundo é, talvez, sua contribuição mais revolucionária. Trata-se de um conceito ontológico onde o mundo e o corpo não estão separados.
Tudo o que existe está mergulhado numa mesma substância sensível — uma espécie de vibração comum, onde o visível e o invisível, o dito e o não-dito, o som e o silêncio, se entrelaçam.
Essa noção toca diretamente a criação musical. Quando componho drones, pads ou atmosferas para os meus álbuns, não busco representar nada. Busco fazer vibrar essa carne sonora do mundo, provocar a escuta de algo que sempre esteve aí, mas que só se revela ao corpo atento, ao ouvido encarnado, à escuta dilatada pelo tempo e pela imaginação.
Legado Filosófico e Repercussões Artísticas
Merleau-Ponty influenciou não apenas filósofos como Emmanuel Levinas, Jean-Luc Nancy, Michel Foucault e Gilles Deleuze, mas também psicólogos, artistas visuais, músicos e coreógrafos, todos interessados na experiência encarnada do tempo e do espaço. Seu pensamento se desdobra na estética contemporânea, nas ciências cognitivas e até na neurociência pós-cartesiana.
Ele nos deixou uma filosofia aberta, inacabada, feita de interstícios, respirações e lacunas — uma filosofia que mais escuta do que afirma, mais tateia do que determina.
Música, Filosofia e o Invisível
Pensar com Merleau-Ponty é mergulhar na densidade sensível da existência, onde o corpo já sabe antes de sabermos, onde a escuta precede o conceito, onde a carne do mundo vibra em cada som. Sua filosofia não busca ordenar o mundo, mas senti-lo — não construir um sistema, mas habitar as dobras do sensível.
Assim como a música que produzo busca ressonar com os fluxos do universo, a filosofia de Merleau-Ponty nos convida a nos reconciliarmos com aquilo que está entre, com o que nos escapa, com a dobra invisível do tempo, com a textura silenciosa da presença.
Na carne do mundo, descobrimos que ver é ser visto, tocar é ser tocado, soar é ser vibrado — e que existir é estar sempre atravessado por algo que ainda não se disse.



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