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Michel de Montaigne — O Ensaio, a Dúvida e o Nascimento do Sujeito Moderno

  • carlospessegatti
  • 17 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura


O presente ensaio tem como objetivo revisitar a obra de Michel de Montaigne (1533–1592) a partir de uma perspectiva histórico-filosófica e crítico-contemporânea, destacando sua centralidade na constituição da subjetividade moderna, na invenção do ensaio como forma de pensamento e na elaboração de uma ética da dúvida. Ao invés de ler Montaigne apenas como um humanista tardio do Renascimento, propõe-se aqui compreendê-lo como um autor de transição decisiva, cujas reflexões antecipam problemas centrais da filosofia moderna e contemporânea, tais como a crítica ao dogmatismo, a instabilidade do sujeito, a recusa de sistemas totalizantes e a dimensão ética da experiência.

Nesse sentido, o texto articula os Ensaios de Montaigne com pensadores modernos e contemporâneos — como Descartes, Nietzsche, Adorno, Foucault e Derrida — evidenciando a atualidade de sua obra diante das crises epistêmicas, políticas e subjetivas do século XXI.


1. Montaigne no contexto do humanismo e das guerras de religião

Michel de Montaigne nasce em 1533, em uma França profundamente marcada pelas tensões religiosas entre católicos e protestantes. Educado segundo os princípios do humanismo renascentista, recebeu uma formação clássica rigorosa, com o latim aprendido desde a infância como língua cotidiana. Essa imersão precoce nos autores antigos — especialmente Sêneca, Plutarco, Cícero e Lucrécio — estruturou sua relação singular com a tradição filosófica.


Sua atuação como magistrado no Parlamento de Bordeaux e como agente político o colocou em contato direto com os conflitos civis e com a violência produzida pelo fanatismo ideológico. Esse contexto histórico é decisivo para compreender sua recusa das certezas absolutas e sua desconfiança em relação às doutrinas que se pretendem universais. A retirada de Montaigne da vida pública, longe de significar escapismo, inaugura uma nova forma de engajamento: a reflexão crítica sobre a condição humana a partir da experiência vivida.


2. Os Ensaios e a ruptura com o modelo sistemático de filosofia

Publicada inicialmente em 1580 e ampliada até a morte do autor, a obra Ensaios (Essais) constitui uma ruptura radical com o modelo filosófico dominante até então. Ao contrário dos tratados sistemáticos da escolástica ou das arquiteturas racionais que emergiriam com o racionalismo moderno, Montaigne propõe uma escrita fragmentária, experimental e aberta.


O ensaio, enquanto forma, recusa a pretensão de totalidade. Ele se constrói como tentativa, aproximação e exercício. Nesse ponto, Montaigne antecipa uma crítica que será retomada séculos depois por pensadores como Theodor W. Adorno, para quem o ensaio representa uma forma de pensamento não subordinada ao princípio da identidade e resistente à reificação conceitual.


A filosofia, em Montaigne, deixa de ser um sistema fechado e torna-se uma prática reflexiva situada, marcada pela contingência e pela historicidade do sujeito que pensa.


3. “Que sais-je?”: ceticismo, limite do saber e ética da dúvida

A fórmula “Que sais-je?” sintetiza a posição epistemológica de Montaigne. Influenciado pelo ceticismo pirrônico, ele questiona a capacidade humana de alcançar verdades últimas e universais. Contudo, seu ceticismo não é destrutivo: trata-se de uma suspensão prudente do juízo, orientada pela consciência dos limites da razão.


Essa atitude antecipa, de forma notável, debates modernos sobre o fundamento do conhecimento. Se Descartes responderá à dúvida com a busca de uma certeza indubitável, Montaigne seguirá outro caminho: aceitar a instabilidade do saber como condição permanente da existência humana.


Do ponto de vista ético e político, essa postura implica uma crítica contundente ao fanatismo. A certeza absoluta, para Montaigne, é uma das principais fontes da violência. Assim, a dúvida converte-se em virtude moral e em princípio de convivência.


4. Subjetividade, experiência e escrita de si

A afirmação de que “eu sou a matéria do meu livro” inaugura uma concepção inédita de subjetividade filosófica. O sujeito não aparece como fundamento transcendental do conhecimento, mas como realidade empírica, histórica e mutável. Montaigne transforma a própria experiência em objeto legítimo de reflexão, sem convertê-la em norma universal.


Essa concepção antecipa elementos que serão centrais tanto na genealogia nietzschiana quanto nas análises foucaultianas das práticas de si. Em Montaigne, o sujeito não é substância, mas processo; não é identidade fixa, mas variação contínua.


A escrita dos Ensaios acompanha essa lógica: revisões constantes, contradições assumidas e acréscimos sucessivos tornam o texto um espaço de experimentação do pensamento em tempo real.


5. Crítica do fanatismo e recusa da razão totalitária

Montaigne identifica no apego dogmático às ideias uma das formas mais perigosas de alienação. A crença de possuir a verdade autoriza, historicamente, a supressão do outro. Essa crítica será retomada, em chave distinta, pela Teoria Crítica do século XX, especialmente por Adorno e Horkheimer, ao analisarem a transformação da razão em instrumento de dominação.


Embora separado por séculos, Montaigne antecipa essa suspeita ao demonstrar que a barbárie não é externa à civilização, mas pode emergir precisamente de seus excessos racionais. Sua defesa da moderação não deve ser confundida com conformismo, mas entendida como resistência ética à absolutização do pensamento.


6. Atualidade de Montaigne: subjetividade, poder e resistência

No século XXI, a obra de Montaigne revela uma atualidade notável. Em um contexto marcado pela polarização ideológica, pela produção incessante de identidades fixas e pela governamentalização das subjetividades, sua recusa das verdades totais adquire novo significado.


A aproximação com Michel Foucault é particularmente fecunda: ambos concebem o cuidado de si como prática ética e crítica, não como técnica de adaptação ao poder. Montaigne oferece uma forma de subjetivação que escapa tanto ao individualismo liberal quanto à submissão normativa.


Além disso, sua escrita aberta e não conclusiva dialoga com a crítica derridiana da metafísica da presença, ao expor a instabilidade do sentido e a impossibilidade de um fechamento definitivo do texto.


7. Considerações finais: Montaigne como pensador de transição

Montaigne ocupa um lugar singular na história da filosofia: não é plenamente moderno, nem simplesmente antigo. Sua obra situa-se no limiar, abrindo caminho para uma concepção de pensamento que reconhece seus próprios limites.


Ao recusar sistemas fechados e ao transformar a experiência em laboratório filosófico, Montaigne inaugura uma tradição crítica que atravessa a modernidade e permanece ativa no pensamento contemporâneo. Ler os Ensaios hoje é reencontrar uma filosofia que não promete salvação nem certezas, mas oferece algo talvez mais raro: lucidez, prudência e responsabilidade diante do mundo.


Anexo — Análise sistemática dos Ensaios de Montaigne (Livro I, II e III)

"Je suis moi-même la matière de mon livre."(Ensaios, Livro II)


O que segue não é uma paráfrase exaustiva dos Ensaios, mas uma leitura analítica estruturada, capítulo a capítulo em sentido conceitual, destacando núcleos temáticos, epígrafes representativas e comentários críticos. A divisão respeita os três livros da obra, compreendidos como momentos distintos de maturação filosófica.


I. Ensaios — Livro I (1580)

Ceticismo prático, moral antiga e crítica das certezas

O Livro I apresenta Montaigne em diálogo intenso com a tradição clássica. Aqui, o ensaio funciona como laboratório moral: cada capítulo interroga hábitos, virtudes, paixões e costumes.


Capítulos centrais e eixos temáticos

1. Da inconstância de nossas ações

"As ações humanas são todas cheias de contradições."


Montaigne inaugura sua antropologia filosófica: o humano é instável, mutável, incoerente. Essa percepção dissolve qualquer ética baseada em essências fixas. Antecipam-se aqui concepções modernas da subjetividade como fluxo.


2. Da tristeza / Do medo / Da coragem

"Cada homem carrega em si a forma inteira da condição humana."


As paixões são tratadas não como vícios morais abstratos, mas como experiências concretas. Montaigne rejeita o estoicismo rígido e propõe uma ética da aceitação dos afetos.


3. Dos costumes e da não fácil mudança de uma lei aceita

"A lei é respeitada não porque é justa, mas porque é lei."


Aqui emerge uma crítica radical ao fundamento do direito e da autoridade.


Montaigne antecipa uma visão histórico-contingente das normas, posteriormente desenvolvida por pensadores como Pascal e Foucault.


Análise geral do Livro I - O primeiro livro estabelece a atitude filosófica fundamental: desconfiar das abstrações e observar o humano em sua concretude. A dúvida não é teórica, mas existencial.


II. Ensaios — Livro II (1580)

O eu como campo filosófico e a crítica da razão soberana

O Livro II aprofunda o movimento reflexivo: Montaigne volta-se mais explicitamente para si, transformando a experiência individual em instrumento de conhecimento.


Capítulos centrais e eixos temáticos


1. Da presunção

"É a presunção que nos faz acreditar que compreendemos tudo."


Este capítulo constitui uma crítica frontal à soberba intelectual. Montaigne desmonta a ilusão de superioridade do humano, abrindo caminho para uma ética da humildade cognitiva.


2. Da educação das crianças

"Mais vale uma cabeça bem-feita do que uma cabeça bem-cheia."


Texto fundamental para a pedagogia moderna. Montaigne defende uma educação baseada no julgamento, na experiência e na formação do caráter — não na acumulação de conteúdos.


3. Da semelhança dos filhos com os pais

"Não somos tão semelhantes a nós mesmos quanto imaginamos."


A identidade aparece como instável e atravessada por forças que escapam à vontade consciente. Antecipação notável de críticas modernas ao sujeito soberano.


4. Da experiência

"Não descrevo o ser, descrevo o passar."


Este é um dos textos mais filosóficos da obra. Montaigne formula explicitamente sua ontologia do devir: o humano não é substância, mas acontecimento.


Análise geral do Livro IIO segundo livro consolida Montaigne como pensador da imanência. O saber nasce da vida, não de princípios transcendentes. Aqui se delineia uma crítica pré-moderna à metafísica do sujeito.


III. Ensaios — Livro III (1588)

**Sabedoria, finit


 
 
 

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