Michel Foucault – A Vontade de Saber
- carlospessegatti
- 22 de jun. de 2025
- 4 min de leitura

COLEÇÃO: SÉRIE FILOSÓFICA
O Corpo, o Sexo e o Saber: Subjetividade, Biopolítica e Governamentalidade na Era Algorítmica
“A crítica seria a arte da inserção do saber nos jogos de poder e da problematização da verdade.”— Michel Foucault
“O poder está em toda parte, não porque tudo abranja, mas porque vem de todo lugar.”— Michel Foucault
“A sexualidade não é uma coisa oculta que um saber libertador viria finalmente desvendar; ela é o próprio efeito de uma rede múltipla de discursos, saberes e poderes.”— Michel Foucault, A Vontade de Saber
🧭 Introdução – Foucault e a Arqueologia do Presente
No limiar de uma época em que algoritmos vasculham afetos, dados performam sujeitos e plataformas capturam condutas, o pensamento de Michel Foucault permanece crucial. Sua obra A Vontade de Saber (1976), primeiro volume da História da Sexualidade, desmonta os mitos da modernidade sobre o poder, o saber e a verdade — sobretudo no que se refere à sexualidade.
Contra a ideia iluminista de que mais conhecimento gera mais liberdade, Foucault afirma: quanto mais discursos são produzidos sobre o sexo, mais ele se torna objeto de regulação e normalização. O que parece libertação é, muitas vezes, apenas outro modo de sujeição. A sexualidade, diz ele, não foi silenciada: ela foi produzida como saber, e sua função foi essencial para a construção do sujeito moderno.
📖 I. Genealogia e Crítica: O Saber como Poder
Foucault substitui a filosofia da essência por uma arqueologia do presente. Em vez de buscar o que é o sexo, ele pergunta: como fomos levados a interrogar o sexo dessa maneira?
Esse gesto dá forma à genealogia, método inspirado em Nietzsche, que recusa as narrativas lineares e investiga as rupturas, descontinuidades e acidentes pelos quais os discursos emergem.A genealogia serve não para encontrar uma origem pura, mas para revelar os regimes de poder que sustentam a produção da verdade.
Com isso, Foucault desestabiliza a confiança no saber como instância neutra e objetiva. O saber, diz ele, é uma tecnologia de poder — e todo discurso que pretende descrever o mundo participa da produção das normas que nos moldam.
📚 II. O Dispositivo da Sexualidade e o Nascimento da Biopolítica
A modernidade é atravessada por um novo modo de operar o poder: não pela proibição direta, mas pela produção incessante de discursos e normas.
Foucault rejeita a chamada “hipótese repressiva”, segundo a qual o sexo foi silenciado pelas instituições burguesas. Ao contrário: o sexo se torna objeto de investigação, medicalização, pedagogia, psicologia e estatística.
Esse arranjo técnico-discursivo é o que Foucault chama de dispositivo da sexualidade — um conjunto de práticas e saberes que produz o sexo como objeto de verdade, de intervenção e de normalização. Não se trata mais de reprimir, mas de investigar, classificar, corrigir, tratar, curar.
Esse novo regime inscreve-se nos corpos. É o início de uma virada biopolítica: a vida — antes deixada aos ciclos naturais — torna-se agora objeto político central.
Surge então o biopoder, o poder que atua sobre populações inteiras, regulando natalidade, epidemias, higiene, moral, prazer.
🔬 III. A Microfísica do Poder e os Regimes de Verdade
Para Foucault, o poder moderno não é centralizado nem vertical, mas disperso e reticular. Essa teoria, chamada microfísica do poder, afirma que ele opera nas escolas, hospitais, prisões, famílias, universidades — em todos os espaços onde há normatização de condutas.
O poder não se possui, se exerce. Ele está em toda parte porque vem de todas as partes.
Paralelamente, o saber não é mais concebido como algo puro. Ao contrário, saber e poder formam uma relação indissociável. Todo discurso verdadeiro é efeito de um regime de verdade, ou seja, um conjunto de regras que define:
O que pode ser dito;
Quem pode falar;
Com que autoridade;
Em quais condições.
O corpo, nesse contexto, torna-se superfície de inscrição do poder. Ele é vigiado, educado, higienizado, classificado, erotizado e, finalmente, tornado legível.
🧠 IV. Biopolítica, Racismo de Estado e o Governo da Vida
No século XIX, o biopoder assume um papel central na organização das sociedades industriais. Deixa de atuar sobre os súditos para governar a vida, antecipar riscos e calcular probabilidades. As populações passam a ser geridas como recursos. O nascimento da estatística, das campanhas sanitárias, das políticas eugênicas e do discurso científico sobre “raças” são elementos desse novo modo de governar.
Mas governar a vida significa também decidir quem deve morrer. Foucault identifica aí a emergência do racismo de Estado:
A distinção entre os “que devem viver” e os “que podem morrer”;
A legitimação da exclusão, marginalização ou eliminação de grupos inteiros em nome da saúde social, da pureza, do progresso.
Isso marca a entrada da tanatopolítica (política da morte) no coração da biopolítica. A gestão da vida implica o poder de matar — não como exceção, mas como racionalidade técnica.
🌐 V. Atualização Contemporânea – Algoritmos, Dados e Modulação
Hoje, a biopolítica se prolonga no interior do que podemos chamar de governamentalidade algorítmica. O que era dispositivo disciplinar agora se transforma em plataforma. A vigilância panóptica foi substituída pela modulação contínua: comportamentos são previstos, decisões antecipadas, afetos classificados.
Os algoritmos não apenas coletam dados — eles performam sujeitos, fabricam identidades a partir de rastros digitais, preferências, interações. O poder já não precisa vigiar; ele se tornou preditivo.
Neste novo regime:
A sexualidade é traduzida em dados de consumo;
A saúde é mediada por aplicativos que monitoram corpo e mente;
O desejo é capturado por interfaces de engajamento;
A subjetividade é retroalimentada por sistemas de recomendação.
O indivíduo é, ao mesmo tempo, produto e operador do sistema.
🎯 Resistência e Desvinculação
Foucault não propõe uma libertação final, nem acredita num sujeito soberano capaz de se erguer acima dos dispositivos. Sua ética é mais sutil: resistir é desvincular-se, romper com as formas normativas de subjetivação, inventar outras maneiras de ser, de habitar o corpo, o tempo, o prazer e o pensamento.
Na era digital, resistir pode significar:
Reaprender o silêncio frente à sobre-exposição;
Criar zonas de opacidade diante do rastreamento;
Compor outras temporalidades que escapem ao cálculo;
Escutar o corpo como vibração, não como dado.
A crítica, como arte da desconexão, se torna um ato de liberdade sensível, poética e política.



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