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Momo: O Deus da Sátira e o Riso Proibido dos Deuses

  • carlospessegatti
  • 14 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura



Quando a ironia se tornou um ato de coragem no Olimpo — o mito de Momo e a eterna crítica à vaidade divina.


Entre as figuras enigmáticas do panteão grego, há uma que raramente recebe o reconhecimento merecido: Momo, o deus da sátira, do sarcasmo, da zombaria e da crítica lúcida.Filho da deusa primordial Nix, a Noite — aquela que engendra tanto o sonho quanto o caos —, Momo nasce como a consciência que emerge da escuridão: o olhar que ri, mas também que vê.


Ao contrário de outros deuses, que ostentavam poder, força ou beleza, Momo possuía o dom mais temido entre os imortais: o poder da palavra que desmascara. Sua língua era uma espada de riso. Ele via o ridículo nas vaidades divinas, nos excessos de Zeus, nas paixões caprichosas de Afrodite e nas guerras fúteis de Ares. Nenhum deus escapava à sua crítica. E foi justamente por isso que o Olimpo o exilou.


Diz o mito que Momo zombou de Atena, dizendo que sua sabedoria era gélida e desprovida de emoção; de Hefesto, afirmou que sua criação do homem foi imperfeita por não conter uma janela na alma; e de Afrodite, declarou que sua beleza era apenas aparência, uma casca oca de desejo. As risadas de Momo ecoavam como trovões — não porque insultavam, mas porque revelavam. E os deuses, acostumados a adoração e silêncio, não suportaram o som da verdade.


Foi assim que Momo foi expulso do Olimpo, condenado ao exílio entre os mortais — onde continuou rindo, desta vez, da tragédia humana. Entre os homens, encontrou campo fértil para sua ironia, pois viu que a humanidade, ao tentar imitar os deuses, herdara também seus vícios e pretensões.


O Riso como Forma de Lucidez

Em Momo, o riso não é mero escárnio. Ele é um instrumento filosófico. Seu riso é o mesmo que, séculos depois, ecoaria em Diógenes, o cínico que zombava das convenções sociais, ou em Erasmo, que no Elogio da Loucura transformou o ridículo em sabedoria. Rir é pensar em outro tom. É resistir ao dogma.


Momo, portanto, é o patrono dos que não aceitam o mundo como dado, mas como espetáculo. Ele antecipa o espírito do carnavalesco, do riso libertador que Bakhtin identificou como essência da cultura popular — o momento em que o povo inverte a ordem, coroa um bobo e faz do rei um bufão. O riso de Momo liberta porque desnuda.


A Ironia como Coragem

Desafiar o poder é sempre perigoso, e Momo foi o primeiro a pagar o preço por isso. Sua expulsão é uma metáfora do destino reservado a todo aquele que ousa dizer o que não se quer ouvir. O humor, a sátira e a ironia são armas sutis, mas devastadoras: corroem a máscara da autoridade, expõem a fragilidade das certezas.


Por isso, em toda época autoritária, o espírito de Momo é perseguido — pois rir do sagrado é uma forma de profanação libertadora. Rir de si mesmo é um ato de transcendência. O exílio de Momo é, assim, o exílio da crítica. E quando o mundo se torna sério demais, é sinal de que os deuses voltaram a dominar.


O Momo Contemporâneo

Hoje, o mito de Momo ressurge sob novas formas. Ele habita os artistas independentes, os poetas que não se curvam às fórmulas, os músicos que desafiam o padrão, os pensadores que rompem com as narrativas oficiais. Seu riso vibra nas margens, nos palcos alternativos, nas ruas durante o Carnaval — onde a ordem é suspensa e o corpo ri de si mesmo.


O Carnaval, herdeiro simbólico de Momo, é a celebração do efêmero e da crítica.


É o instante em que a máscara se revela mais verdadeira que o rosto.Momo é, portanto, a essência da criação livre — o deus que inspira a arte que não teme rir, a filosofia que não teme duvidar, a música que não teme o silêncio.


Momo e a Sombra da Noite

Filho da Noite, Momo recorda que toda lucidez nasce da escuridão. O riso é luz que corta o breu da ignorância. Mas essa luz é incômoda. Ao rir dos deuses, Momo revela que até o divino é imperfeito — e que a perfeição é um mito perigoso.


Assim como Prometeu trouxe o fogo e foi punido, Momo trouxe o fogo da consciência crítica, e também foi exilado. Ambos, cada um à sua maneira, revelam que o preço do saber e da liberdade é o sofrimento do desterrado.


Epílogo: O Riso como Revelação

O mito de Momo nos convida a uma reflexão profunda: o riso, quando autêntico, é ato filosófico e subversivo. Ele não é fuga da realidade, mas mergulho nela. Rir é compreender — e compreender é libertar-se.


Por isso, talvez, o mundo moderno precise mais do que nunca do retorno de Momo. Num tempo em que a vaidade tecnológica se confunde com sabedoria e a aparência se torna medida do valor, Momo seria aquele que, rindo, nos lembraria da falha essencial da humanidade: a incapacidade de rir de si mesma.


“Riam, ó deuses, pois o riso é o único som que ecoa até o abismo sem se perder.”— Fragmento atribuído a Momo, o Exilado do Olimpo


Hoje, na era das redes e das aparências, Momo ressurge nas entrelinhas da cultura digital como símbolo do pensamento insurgente e da arte que ainda resiste à homogeneização. Ele habita o sarcasmo inteligente que desmonta o espetáculo midiático, a ironia poética que desnuda o poder, a sátira que não teme o escárnio quando este serve à verdade. Nas músicas experimentais, nas performances urbanas, nas críticas sociais disfarçadas de humor, Momo continua rindo — não de deboche, mas de lucidez. Seu riso é um chamado à consciência e à liberdade: um lembrete de que, em tempos de simulacros, rimos para não nos tornarmos parte da ilusão que nos cerca.

 
 
 

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