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Morton Feldman: O Espectro da Escuta e o Tempo Tornado Matéria

  • carlospessegatti
  • 27 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura





Entre tapeçarias sonoras, pintura abstrata e o som como vestígio do invisível


“Minha preocupação não é com o tempo, mas com o som. O tempo é apenas o lugar onde o som acontece.”— Morton Feldman


Em meio à cacofonia moderna, onde a música tornou-se produto e o som, mercadoria comprimida em algoritmos, a obra de Morton Feldman (1926–1987) emerge como uma anomalia — ou melhor, como uma epifania. Feldman não compunha para o tempo, mas dentro do tempo, como se sua música fosse um artefato sonoro suspenso entre o instante e o infinito.


Nascido no Brooklyn, de origem russa-judia, Feldman logo rompeu com os cânones do modernismo europeu, rejeitando tanto o rigor serialista quanto as soluções fáceis do tonalismo. Em 1950, ao conhecer John Cage, sua vida muda radicalmente: passa a integrar a chamada New York School ao lado de Christian Wolff e Earle Brown. Influenciado por Cage, mas também pelo expressionismo abstrato de Mark Rothko, Philip Guston, Barnett Newman e outros artistas com quem conviveu intimamente, Feldman não buscava forma, mas presença.


A música deixa de ser estrutura e passa a ser fenômeno puro, vibração mínima, quase ausente — um sussurro que exige escuta atenta e contemplativa.


Um novo paradigma sonoro

Feldman inaugura uma estética de desaceleração radical. Em vez de conduzir o ouvinte por narrativas ou desenvolvimentos temáticos, ele propõe uma imersão na textura.


Seu trabalho recusa a progressão e aposta na repetição com variação quase imperceptível, como o entrelaçamento dos fios de uma tapeçaria oriental — objeto que o fascinava profundamente.


Ele próprio dizia: “O que me interessa é como uma coisa se transforma quando é repetida. A repetição não é estrutura, é processo de escuta.”

Suas partituras se tornam territórios de transfiguração sonora, onde o tempo não avança: ele paira.


Obra e escuta expandida: algumas obras-chave


1. Rothko Chapel (1971)Talvez sua obra mais conhecida. Comissionada para a capela de Houston que abriga os quadros de Mark Rothko, a peça é escrita para soprano, coro, viola, celesta e percussão.Não é uma música religiosa, mas uma invocação silenciosa, que espelha o peso emocional e a espiritualidade densa das telas de Rothko.Os sons surgem como manchas de cor: tons, densidades, sobreposições flutuantes. Feldman traduz o espaço meditativo da capela em puro som.


2. For Philip Guston (1984)Um tributo de quase quatro horas ao amigo pintor Philip Guston. Escrita para flauta, percussão e piano/celesta, essa obra monumental parece abandonar qualquer noção de narrativa.É um mar de sons suaves e repetitivos que se transforma lentamente, como o movimento de nuvens em um céu estático.Aqui, a escuta se dilata ao extremo. O tempo perde a gravidade. A percepção comum é suspensa.


3. Piano and String Quartet (1985)Obra tardia, escrita dois anos antes de sua morte. Com duração de cerca de uma hora e vinte minutos, é considerada por muitos um de seus ápices estéticos.O piano surge com acordes lentos e espaçados, enquanto o quarteto de cordas sustenta sons longos, quase imutáveis.O resultado é de uma beleza tão tênue que chega a ser perturbadora.Nessa obra, Feldman testa os limites da escuta ativa, promovendo uma experiência quase metafísica.


4. String Quartet II (1983)Com aproximadamente seis horas de duração, esta peça é um colosso. Não há interrupções, não há clímax.É uma espécie de sonho acordado, onde o tempo deixa de existir como métrica e se torna pura sensação.Muitos ouvintes relatam experiências alteradas de consciência após escutar esta obra inteira.É música para rituais internos — não para entretenimento.


Influência da pintura e a negação da forma

Feldman estava mais interessado nos pintores do que nos músicos. A relação com Rothko, Pollock, Guston, Newman foi estética e espiritual.


Como os expressionistas abstratos, ele via sua arte como um campo, não como uma construção.Ele buscava o som como cor, o silêncio como espaço, e o tempo como um pano de fundo onde algo acontece sem jamais acontecer por completo.


Essa influência é evidente também em seus conceitos:

“Na pintura, há o instante da visão. Na música, há o instante da escuta. Mas e se a música também fosse um campo, uma presença contínua como uma tela?”

Sua música rejeita as formas herdadas da tradição ocidental. Não há desenvolvimento, clímax, resolução.Tudo o que há é presença — e o esmaecimento dessa presença.


Feldman hoje: uma escuta necessária

Em um mundo saturado de estímulos e tempo cronometrado, Feldman soa como um gesto político.Sua música exige tempo, silêncio, atenção, três elementos cada vez mais escassos.Escutá-lo hoje é praticar uma resistência contra o ruído: é afirmar que o invisível ainda importa, que o sutil ainda tem lugar, que o tempo não é uma prisão, mas uma matéria moldável.


Para criadores como eu, — que busca na fusão entre arte, ciência, filosofia e espiritualidade o motor da criação sonora — Feldman oferece não apenas uma referência estética, mas um modelo de mundo.


Um mundo onde cada som carrega a memória do silêncio, e onde a escuta é um modo de existir.



Rothko Chapel (1971)


 
 
 

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