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Nietzsche e a arqueologia do ressentimento: o desmascaramento dos valores morais que nos aprisionam

  • carlospessegatti
  • 13 de jun. de 2025
  • 8 min de leitura

Atualizado: 15 de jun. de 2025


COLEÇÃO: SÉRIE FILOSÓFICA



GENEALOGIA DA MORAL - Friedrich Nietzache



Nietzsche e a arqueologia do ressentimento: o desmascaramento dos valores morais que nos aprisionam


“O que significa o ideal ascético? Um sistema de interpretação... mas no qual o sofrimento é posto como sentido.”— Friedrich Nietzsche, Genealogia da Moral


Friedrich Nietzsche, em A Genealogia da Moral (1887), conduz uma crítica implacável aos fundamentos da moralidade ocidental. Não se trata de negar a moral por completo, mas de questionar radicalmente suas origens, de desenterrar suas raízes históricas e afetivas. Trata-se de realizar o que ele chama de uma arqueologia dos valores, uma verdadeira “genealogia” — em contraste com uma simples história ou narrativa — que visa compreender como se constituíram os valores que moldam, reprimem e orientam o comportamento humano.


Nietzsche parte de uma pergunta central: de onde vêm nossos valores morais? Como se originaram os conceitos de “bem” e “mal”? Será que foram sempre os mesmos ou passaram por um processo de transformação histórica vinculado a conflitos de poder, sentimentos de impotência e mecanismos de dominação simbólica?


I. O Nascimento dos Valores: Moral do Senhor e Moral do Escravo

No primeiro tratado da obra, intitulado “Bom e Mau”, “Bom e Ruim”, Nietzsche traça uma linha divisória entre dois modos fundamentais de avaliar o mundo: a moral dos senhores e a moral dos escravos.


A moral do senhor nasce de um espírito afirmativo, de potência e de afirmação da vida. O senhor diz “bom” a si mesmo, à sua força, à sua liberdade, à sua saúde, à sua nobreza. O “mau” é simplesmente aquilo que é fraco, que não tem valor, que não é nobre. Essa moral é marcada por uma valorização do instinto, da vitalidade, da autoafirmação.


“O nobre tipo de homem sente a si mesmo como valorador; ele não precisa de aprovação; ele julga que ‘o que me é nocivo é nocivo em si’; ele sabe ser ele mesmo aquele que confere honra às coisas; ele é criador de valores.”— Nietzsche, Genealogia da Moral, I, §2


Em oposição, a moral do escravo nasce do ressentimento. O escravo, o fraco, o impotente, não podendo afirmar-se, inverte os valores e passa a chamar de “mau” aquele que antes era considerado “bom”. Assim, surge o “bem” como aquilo que é humilde, sofredor, obediente, piedoso. Essa moral é reativa: não cria valores, mas os nega; ela é fruto da negação da vida.


“A moral dos escravos nasce do ressentimento e faz da fraqueza uma virtude.”— Nietzsche, Genealogia da Moral, I, §10


Este ressentimento é uma força poderosa. Ele inverte a estrutura dos valores e começa a impor sua lógica de negação da vida em nome de uma moral universal. Assim, a fraqueza torna-se bondade, a submissão torna-se virtude, e a impotência torna-se santidade.


II. A Culpa, a Consciência e o Surgimento da Alma

No segundo tratado — “Culpa”, “Má Consciência” e Afins — Nietzsche investiga como o sentimento de culpa e a má consciência foram incorporados ao sujeito.


Aqui, ele sugere que esses sentimentos não são inatos, mas resultado de processos históricos e sociais, ligados à transformação da violência externa em violência interna.


Com a constituição da sociedade, o homem deixou de poder expressar sua agressividade no exterior (a caça, a guerra, o saque) e passou a voltar essa agressividade contra si mesmo. Nasce então a má consciência, uma espécie de tortura interior. É nesse processo que surge a noção de “alma”, entendida como o campo de batalha entre os impulsos naturais e as exigências da moral.


“Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro — é isso que eu chamo de interiorização do homem.”— Nietzsche, Genealogia da Moral, II, §16


Essa interiorização violenta gera o sentimento de culpa, que está intimamente ligado à ideia de dívida. A palavra alemã Schuld (culpa) também significa “dívida”.


Assim, o homem passa a ver-se como devedor diante da sociedade, de Deus, ou de um ideal de pureza impossível de alcançar.


III. O Ideal Ascético: A Morte do Instinto e a Espiritualização da Crueldade

O terceiro tratado — “O que significam os ideais ascéticos?” — investiga por que a humanidade foi seduzida por ideais que negam a vida: castidade, pobreza, negação dos desejos, autopunição. Nietzsche vê nesse ideal ascético o auge da moral do ressentimento, a sublimação da fraqueza em forma de espiritualidade.


O sacerdote ascético — figura central deste tratado — é aquele que transforma o sofrimento em sentido. Ele diz ao homem sofredor: “Você sofre, mas isso tem um valor. Você sofre porque é bom, puro, elevado. O sofrimento é o caminho para Deus.” Com isso, o ressentimento é canalizado para dentro, convertido em moral e idolatria.


“O ideal ascético é uma vontade de nada, um niilismo ativo.”— Nietzsche, Genealogia da Moral, III, §28


IV. Nietzsche como Destruidor e Criador

Nietzsche não faz apenas uma crítica, mas anuncia uma possibilidade: a transvaloração de todos os valores. A tarefa do filósofo do futuro, o “espírito livre”, será justamente esta: destruir os valores morais herdados e criar novos modos de existir, mais afirmativos, mais conectados com a vida e com os instintos.


“Temos necessidade de uma crítica dos valores morais. O valor desses valores deve ser, em primeiro lugar, colocado em questão.”— Nietzsche, Genealogia da Moral, Prefácio, §6


Essa crítica é dolorosa, pois exige romper com a tradição, com os hábitos de pensamento, com a segurança do rebanho. Mas é também libertadora, pois abre espaço para um novo tipo de homem: o além-do-homem, o criador de si mesmo, aquele que afirma a vida mesmo em sua dureza.


Ao mergulhar na Genealogia da Moral, mergulha-se também na crítica mais radical que o Ocidente já conheceu de si mesmo. Nietzsche desmascara os mecanismos psíquicos, históricos e religiosos que sustentam a moralidade. Ele mostra que nossos valores não são verdades eternas, mas construções forjadas na luta entre forças afirmativas e reativas.


O que está em jogo, no fundo, é a liberdade interior. A coragem de perguntar: quem está no comando da minha vida? Meus impulsos vitais ou os valores que me foram impostos? Esta obra nos ensina que o verdadeiro pensar é, antes de tudo, um ato de coragem. E o verdadeiro viver, uma arte de criar valores.



A origem dos valores que nos aprisionam — entre o instinto vital e o ideal ascético


“Temos necessidade de uma crítica dos valores morais. O valor desses valores deve ser, em primeiro lugar, colocado em questão.”— Friedrich Nietzsche


Com a força cortante de quem abre um abismo sob os pés da moral tradicional, Nietzsche escreve A Genealogia da Moral como quem realiza uma cirurgia sem anestesia no corpo da civilização ocidental. Não há concessões nem consolo.


O que o filósofo nos oferece aqui é uma profunda investigação sobre as origens dos valores que guiam nossas vidas, e mais ainda: sobre como esses valores foram forjados historicamente a partir de forças psíquicas como o ressentimento, a culpa e a repressão dos instintos.


Por trás da moral que nos diz o que é "bom" e "mau", "certo" e "errado", esconde-se uma longa história de inversões, dominação e dor. Esta obra é um convite — ou melhor, uma convocação — à arqueologia da moralidade. E ao atendê-lo, o que descobrimos é perturbador: que aquilo que chamamos de “virtude” pode ser, na verdade, uma forma sofisticada de escravidão interior.


Moral dos Senhores e Moral dos Escravos: uma disputa de forças

No primeiro tratado da obra, Nietzsche desmonta a ideia de que o “bem” seria uma essência universal. Para ele, o “bom” e o “mau” surgiram como expressões de diferentes tipos humanos e seus modos de afirmar ou reprimir a vida.


A moral do senhor é a moral dos fortes, dos que se sentem senhores de si mesmos e da existência. O “bom”, nesse contexto, é tudo o que expressa força, potência, liberdade, criatividade. O “mau” é o fraco, o doente, o sem brilho — não por julgamento moral, mas por contraste vital.


“O nobre tipo de homem sente a si mesmo como valorador... ele é criador de valores.”— Nietzsche, GM I, §2


A moral do escravo, por sua vez, nasce do ressentimento. É a vingança silenciosa do fraco contra o forte. Como não pode agir, o fraco nega a ação. Como não pode afirmar-se, desvaloriza tudo aquilo que o ameaça. A astúcia do escravo está em inverter os signos: o forte passa a ser visto como “mau”, o humilde como “bom”, e a obediência como virtude. É a moral da negação da vida.


É essa inversão de valores que, segundo Nietzsche, deu origem à moral judaico-cristã que dominou o Ocidente por séculos. Uma moral fundada na culpa, na obediência, na idealização do sofrimento e na negação dos instintos vitais.


Culpa e Má Consciência: o nascimento da alma torturada

No segundo tratado, Nietzsche mergulha ainda mais fundo: como surgiu o sentimento de culpa? Como se formou a má consciência, essa angústia interna que nos corrói mesmo quando não há culpa real?


A resposta está na transformação histórica do homem. O ser humano primitivo descarregava seus impulsos agressivos no mundo — na caça, na guerra, na conquista. Mas, com a organização das sociedades e o surgimento do Estado, ele é forçado a reprimir esses impulsos. A violência que antes se voltava para fora agora se volta para dentro. Nasce o que Nietzsche chama de interiorização.


“Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro — é isso que eu chamo de interiorização do homem.”— Nietzsche, GM II, §16


Essa repressão gera dor, e essa dor se transforma em culpa. O sujeito passa a sentir-se em dívida — com os outros, com a sociedade, com Deus. A alma humana é, então, o produto de uma crueldade dirigida contra si mesma.


A palavra alemã para “culpa” (Schuld) também significa “dívida”, e isso não é casual: somos ensinados a viver como se devêssemos algo por simplesmente existir.


O Ideal Ascético: espiritualização da decadência

O terceiro tratado trata da figura do sacerdote ascético e da ascensão de uma cultura que glorifica o sofrimento como caminho para a salvação. Esse ideal transforma o sofrimento em virtude, como se quanto mais o corpo fosse negado, mais elevada fosse a alma.


O sacerdote ascético dirige o ressentimento para dentro da alma. Ele dá sentido ao sofrimento — mas um sentido que serve à negação da vida. Ele diz ao sofredor: “Você sofre porque é puro; aceite sua dor como prova de sua elevação.” A dor torna-se identidade. A culpa torna-se religião. O corpo torna-se prisão.


“O ideal ascético é uma vontade de nada. É o niilismo ativo.”— Nietzsche, GM III, §28


Assim, o ideal ascético transforma a impotência em doutrina, a negação em virtude, o enfraquecimento em moral. A vida torna-se um problema a ser vencido, ao invés de um fluxo a ser afirmado.



O Chamado à Transvaloração: criar novos valores


Mas Nietzsche não se limita a demolir. Ele anuncia também uma tarefa criativa: a transvaloração de todos os valores. Isto é, o surgimento de um novo tipo de ser humano — aquele que não se submete a valores herdados, mas que ousa criar seus próprios valores, afirmando a vida com tudo o que ela tem de trágico, de pulsante, de imprevisível.


“Devemos nos tornar aqueles que criam novos valores.”— Nietzsche, Assim Falou Zaratustra


Este novo homem, muitas vezes chamado de além-do-homem (Übermensch), será aquele que, livre da moral do rebanho, criará uma nova forma de existir — mais instintiva, mais solar, mais fiel à terra.


Em busca de uma vida não domesticada


Nietzsche escreve para aqueles que têm coragem de se perguntar: “estamos vivendo realmente, ou apenas obedecendo?” O que ele nos oferece não é uma resposta pronta, mas uma lâmina afiada para cortar os véus da convenção, da moralidade imposta, do conforto das certezas herdadas.


Em tempos em que a cultura de massa promove o adestramento do desejo e a diluição da subjetividade em algoritmos, retornar à Genealogia da Moral é um ato de resistência. É o início de uma jornada de reinvenção interior. Um chamado ao pensamento forte, que arrisca, que se contorce, que se nega a viver como rebanho.


Nietzsche não quer nos ensinar a sermos bons. Quer nos ensinar a sermos livres.


E, como todo libertador, ele nos mostra que a liberdade exige sacrifício: o de abandonar as mentiras reconfortantes pelas verdades inquietantes.

 
 
 

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