“Ninguém é Normal” — Roy Richard Grinker e o Estigma como Construção Cultural
- carlospessegatti
- 11 de jun. de 2025
- 4 min de leitura

Por CALLERA
Ao longo da história, aquilo que chamamos de “normalidade” foi menos uma evidência médica e mais uma construção cultural, moldada por interesses, moralidades e estruturas de poder. É essa a provocação central que atravessa o livro Ninguém é normal: como a cultura criou o estigma do transtorno mental, do antropólogo norte-americano Roy Richard Grinker. Em um gesto ao mesmo tempo intelectual e profundamente humano, Grinker desconstrói a noção de desvio e nos convida a repensar, sob a luz da neurodiversidade, os modos como classificamos o sofrimento psíquico.

Professor de Antropologia na George Washington University e colaborador assíduo nas intersecções entre cultura e saúde mental, Grinker constrói sua obra a partir de múltiplas camadas: há a análise histórica — com passagens marcantes sobre os manicômios do século XVIII e as violências institucionais do Ocidente —, há o olhar para outras culturas, que muitas vezes tratam o sofrimento psíquico com mais acolhimento do que patologização, e há também o testemunho pessoal, onde o autor compartilha suas vivências familiares marcadas pela presença de transtornos mentais ao longo de quatro gerações, incluindo sua filha autista.
É significativo que Grinker não escreva a partir de um lugar de distanciamento acadêmico, mas como alguém implicado, afetado, transformado. Seu avô foi analisado por Sigmund Freud, e sua própria trajetória familiar é entrelaçada à evolução do discurso psiquiátrico ocidental — das práticas punitivas às atuais abordagens de inclusão. Essa costura entre o pessoal e o coletivo dá ao livro uma densidade rara: ele não apenas informa, mas comove e convoca à ação.
O que Ninguém é normal evidencia com clareza é que a cultura tem papel central na definição do que é considerado doença ou saúde. Em sociedades onde a performance, a produtividade e a adaptação ao “mundo real” são as medidas do valor humano, qualquer expressão de vulnerabilidade emocional pode ser rapidamente patologizada. Assim, transtornos como a depressão, o autismo, a ansiedade ou a esquizofrenia tornam-se marcadores de exclusão — não por seu conteúdo clínico, mas por ameaçarem a ficção da normalidade.
Grinker propõe, ao contrário, que vejamos a neurodiversidade como parte da vasta tapeçaria da experiência humana. Não há um padrão único para a mente. E mais: o estigma, tal como o racismo ou a homofobia, é um mecanismo de poder, não uma consequência inevitável da diferença. Ao compreendermos isso, podemos começar a desmontar os dispositivos que produzem dor e exclusão em nome da suposta "cura".
Em tempos em que o sofrimento psíquico emerge com mais visibilidade — especialmente após os abalos sociais e existenciais da pandemia —, obras como a de Grinker são faróis. Elas não oferecem receitas fáceis, mas deslocam o olhar. Não prometem soluções mágicas, mas nos devolvem a pergunta fundamental: que tipo de sociedade queremos construir? Uma que acolha a diferença ou que continue a expulsá-la para os porões da invisibilidade?
Ninguém é normal é, portanto, mais que um livro. É um manifesto ético e estético por uma nova compreensão da mente humana. Uma leitura essencial para quem acredita que a cultura não é apenas reflexo, mas ferramenta de transformação.
“A normalidade é uma invenção perigosa. Toda mente humana é uma variação singular do que a cultura ousou chamar de desvio.”— Roy Richard Grinker, livre interpretação.
Durante séculos, aquilo que chamamos de “normal” serviu mais como ferramenta de exclusão do que como parâmetro de saúde. Essa é a tese provocadora e profundamente necessária que atravessa Ninguém é normal: como a cultura criou o estigma do transtorno mental, do antropólogo Roy Richard Grinker.
Com sensibilidade incomum e rigor antropológico, Grinker traça um amplo panorama da construção histórica do estigma em torno dos transtornos mentais. Ele percorre os caminhos tortuosos da psiquiatria institucional, a influência da psicanálise, os horrores e aprendizados legados pelas guerras, e as distintas formas como culturas não ocidentais acolhem a neurodiversidade.
Mas o que torna este livro ainda mais pungente é o entrelaçamento entre o pessoal e o político. Grinker compartilha as histórias da própria família — quatro gerações atravessadas pela saúde mental — desde seu avô, que foi analisado por Sigmund Freud, até sua filha, diagnosticada com autismo. É uma narrativa que, além de nos informar, também nos toca profundamente.
Através dessa abordagem híbrida — entre a etnografia e a memória, entre a crítica cultural e a autobiografia —, o autor afirma: ninguém é “normal”, porque a normalidade é uma ilusão criada para conformar corpos e mentes a padrões de funcionalidade social. Quando o sofrimento psíquico é medido com a régua da produtividade, o diferente vira doença. Mas há outros caminhos.
O livro propõe a neurodiversidade como um novo paradigma. Uma forma de entender o humano não como exceção patológica, mas como variedade natural da experiência. Ao fazer isso, Grinker retira os transtornos mentais da sombra da vergonha e os reinscreve no campo da dignidade.
🌱 Para refletir e compartilhar
Ninguém é normal é mais do que um ensaio sobre saúde mental. É uma crítica à normatividade que estrutura a vida social. Uma proposta de humanidade expandida, onde dor, diferença e sensibilidade possam finalmente ser acolhidas — não como falhas, mas como formas legítimas de existência.




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