O Apanhador de Miudezas: A Poesia Descalça de Manoel de Barros
- carlospessegatti
- 16 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

Entre sapos, gravetos e inutilidades, a reinvenção da linguagem e da beleza nas mãos do poeta do Pantanal
“As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis.” É com essa sentença-manifesto que Manoel de Barros nos avisa: o mundo perdeu a graça para quem o olha com os olhos do costume. É preciso desver para ver. E Manoel, poeta nascido em Cuiabá, em 1916, passou uma vida inteira desaprendendo o óbvio, até fazer da linguagem um brinquedo de barro.
Seu território não era o das grandes epopeias. Era o das miudezas, do quase nada, do irrelevante. Enquanto muitos poetas buscavam o sublime nas estrelas, Manoel preferia as latas enferrujadas, os meninos com verruga, os sapos de brejo e as palavras tortas.
“Tudo que não invento é falso.”
Essa frase-síntese do seu pensamento é um convite à reinvenção radical do mundo. Manoel não escrevia sobre o que via. Ele via porque escrevia. Em sua poesia, o verbo não apenas cria: ele brinca. E nessa brincadeira, desorganiza a gramática e desobedece a lógica — tudo em nome de uma verdade mais funda, mais viva e mais orgânica.
🌱 O poeta das inutilidades essenciais
Manoel de Barros amava o que ninguém notava. Desprezava o importante. Seu lirismo era anárquico, quase infantil — não no sentido de imaturo, mas no de reencantar-se com as coisas, como uma criança que descobre que pedra tem nome e que nuvem pode ser prima de um bicho.
“Uso a palavra para compor meus silêncios.”
Esse uso silencioso da palavra o fez revolucionar a adjetivação. Em Manoel, árvore não é alta, é cansada. Passarinho não voa, comete pequenos delitos de azul. Ele adjetiva verbos e verbaliza pedras. Transforma gramática em assombro. E assim, a poesia deixa de ser apenas linguagem — vira acontecimento da natureza.
“O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo.”
🐦 Poeta do chão, do mato, do dentro
Manoel de Barros viveu boa parte de sua vida no Pantanal mato-grossense, onde aprendeu a ouvir os sons da terra, do vento, do inseto. Para ele, a natureza não era cenário, era personagem. E o próprio poeta se fazia parte dela — como se fosse uma árvore que escreve ou uma pedra com miolo de passarinho.
“Tenho apreço pelos seres desimportantes.”“ A maior riqueza do homem é sua incompletude.”
A poesia de Manoel nos ensina que a completude é paralisante. Ele preferia o quebrado, o torto, o que não serve para nada — porque é aí que brotam as coisas vivas.
Ele mesmo dizia:
“Sou o primitivo das palavras. Me alegro mais com o som do que com o sentido.”
E é assim que sua obra vai além do conteúdo: ela reinventa o som da língua portuguesa. Lê-lo é quase ouvir um riacho de fonemas, um passarinho gritando sílabas, um silêncio feito de palavras molhadas.
✨ Um legado de desimportância luminosa
Manoel de Barros publicou dezenas de livros, mas sempre manteve o espírito de alguém que não queria ser importante. Sua grandeza estava justamente em celebrar o que o mundo desprezava. Por isso, hoje, sua obra é cultuada como um santuário da delicadeza, da escuta e do avesso.
“O poeta é um ente que lambe as palavras. Por isso suas palavras às vezes pegam doenças de boca.”
No tempo em que vivemos — de urgências, gritos, algoritmos e grandiloquências —, ler Manoel é um ato de resistência sensível. Ele nos lembra que a poesia ainda mora nas coisas que não se vendem: um cheiro, uma lembrança, uma pedra com musgo.
Talvez seu maior legado seja esse: ensinar-nos a desaprender, a ver como os passarinhos veem, a sentir como se fôssemos o vento passando entre os galhos.





Senti uma certa lisergia nas frases do Manoel de Barros. Gostei.