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O Discurso do Método: A Razão como Fundamento do Saber

  • carlospessegatti
  • 2 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura


Coleção: Série Filosófica



Como René Descartes inaugurou uma nova era do pensamento humano e preparou o caminho para o avanço da ciência, mas também lançou a sombra de uma razão solitária


Publicado em 1637, O Discurso do Método, de René Descartes, é um dos marcos inaugurais da filosofia moderna e do pensamento científico racionalista. Escrito originalmente em francês – uma inovação para a época, que privilegiava o latim nos tratados eruditos – o livro propõe uma reforma radical do modo como os seres humanos deveriam buscar a verdade. Descartes, ali, ergue os pilares de um novo método que influenciaria profundamente não apenas a filosofia, mas também as ciências, as técnicas e a cultura ocidental nos séculos seguintes.


Na aurora da modernidade, em pleno século XVII, a Europa fervilhava em descobertas astronômicas, revoluções científicas e inovações técnicas. Era o tempo de Galileu, Kepler e Newton, e a racionalidade começava a despontar como uma ferramenta poderosa para desvendar os enigmas do mundo natural.


O Discurso do Método inscreve-se nesse momento histórico como uma tentativa de fornecer à razão humana um caminho seguro, isento de enganos e ilusões, para alcançar o conhecimento verdadeiro.


A Dúvida como Ponto de Partida

O ponto de partida cartesiano é a dúvida metódica. Descartes propõe que se duvide de tudo aquilo que não possa ser considerado absolutamente certo. Ele desconstrói, assim, os saberes herdados da tradição, da religião e até das experiências sensíveis. O mundo sensível, para ele, pode nos enganar; os sentidos, muitas vezes, são falhos; até mesmo os raciocínios mais convincentes podem conter erros.


Dessa radicalização da dúvida nasce a célebre afirmação: "Cogito, ergo sum" — Penso, logo existo. Esta é a primeira certeza indubitável a que Descartes chega: mesmo que eu duvide de tudo, o simples fato de estar duvidando comprova que existo enquanto ser pensante. A partir daí, ele vai construir todo um edifício racional do conhecimento.


Os Quatro Preceitos do Método

No centro da obra estão os quatro preceitos que compõem o método cartesiano:

  1. Evidência – não aceitar nada como verdadeiro que não seja clara e distintamente percebido pela razão.

  2. Análise – dividir cada problema em tantas partes quantas forem necessárias para resolvê-lo melhor.

  3. Síntese – conduzir ordenadamente os pensamentos, dos mais simples aos mais complexos.

  4. Enumeração – revisar de forma tão completa que se tenha certeza de não ter omitido nada.


Este método teve impacto profundo no desenvolvimento da ciência moderna. A análise, em particular, tornou-se prática recorrente nos campos da física, da biologia, da matemática, e mais tarde da engenharia. A lógica cartesiana permitiu que se criasse um modelo de racionalidade instrumental, preciso e eficaz para controlar, prever e dominar a natureza — abrindo as portas, inclusive, para a Revolução Industrial.


O Racionalismo e a Intuição Intelectual

Descartes propõe ainda uma noção particular de intuição: ela não se refere à intuição sensível ou emocional, mas a uma intuição intelectual, pura e racional.


O conhecimento não viria das experiências do mundo, mas da clareza e distinção das ideias pensadas. Em oposição ao empirismo nascente na Inglaterra com Locke e Hume, Descartes afirma que a razão é a única via legítima para se alcançar o conhecimento seguro. As sensações, para ele, não têm lugar no processo do saber confiável.


Neste sentido, Descartes acaba por edificar uma imagem do homem como res cogitans, isto é, uma “coisa pensante”, separada do corpo e do mundo sensível – uma mente pura, que raciocina isolada de tudo aquilo que é passível de erro.


Um Legado Ambíguo: Razão e Fragmentação

Se, por um lado, O Discurso do Método foi decisivo para a construção da ciência moderna, para o avanço das técnicas, da medicina, da engenharia e do pensamento lógico-dedutivo, por outro, ele também suscitou importantes críticas nos séculos seguintes.


A maior delas talvez seja a redução da experiência humana à razão pura, desqualificando as emoções, a sensibilidade, a corporeidade e até os aspectos espirituais e intuitivos da existência. Muitos pensadores contemporâneos — como Michel Foucault, Edgar Morin, Humberto Maturana e Maurice Merleau-Ponty — apontam que essa "amputação" da subjetividade e do sensível resultou em um sujeito desintegrado, fragmentado, incapaz de compreender a complexidade da vida em sua totalidade.


A Teoria da Complexidade, formulada por Edgar Morin, rebate diretamente o modelo cartesiano de análise. Para Morin, o todo não pode ser compreendido pelas partes isoladas. A realidade é um sistema interconectado, e qualquer tentativa de dividi-la em pedaços para entendê-la destrói justamente a teia de relações que a constitui. A fragmentação, tão característica da racionalidade ocidental, é apontada como um dos fatores que conduzem à crise ecológica, à desumanização do trabalho e à perda de sentido existencial nas sociedades contemporâneas.


Além disso, o modelo cartesiano foi apropriado por sistemas tecnocráticos e industriais que passaram a ver o ser humano como uma máquina — lógica, previsível e manipulável. Essa concepção mecanicista foi uma das molas propulsoras das fábricas e da organização racional do trabalho, mas também contribuiu para o sofrimento psíquico e a alienação do sujeito na modernidade tardia.


Entre o Gênio e o Corte

O Discurso do Método é, sem dúvida, uma das grandes obras da filosofia ocidental. Descartes nos ofereceu uma poderosa ferramenta de análise e um caminho novo para a busca da verdade. Seu legado é inegável: foi ele que acendeu a tocha da razão que iluminou o caminho do progresso científico e tecnológico.


Mas, ao apostar todas as fichas na razão abstrata e na separação entre sujeito e mundo, entre corpo e mente, entre emoção e pensamento, Descartes também pode ter iniciado um processo de esvaziamento da experiência humana integral. Uma razão sem alma, sem corpo e sem mistério.


Hoje, cabe à filosofia recuperar o que foi deixado à margem: a sensibilidade, a emoção, o simbólico, o intuitivo, o espiritual e o coletivo. Talvez, só assim, possamos superar o paradigma cartesiano sem rejeitar suas conquistas — e construir um novo saber que una, ao invés de dividir.


 
 
 

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