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O Grande Embuste da Inteligência Artificial

  • carlospessegatti
  • 22 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura



Como desmascarar as promessas vazias do Vale do Silício e construir o futuro que realmente queremos


Por Atena Cybele



A inteligência artificial se tornou a nova divindade do capitalismo de plataforma. No altar do Vale do Silício, seus apóstolos — executivos de Big Techs, evangelistas da inovação e engenheiros obcecados por escala — anunciam o advento de uma nova era. Uma era onde máquinas pensarão por nós, trabalharão por nós e, talvez, um dia, substituirão até o nosso próprio juízo. Mas… e se tudo isso for apenas um elaborado embuste?


Essa é a tese contundente do livro The AI Con: How to Fight Big Tech’s Hype and Create the Future We Want, lançado em 2025 por Emily M. Bender e Alex Hanna — duas das vozes mais lúcidas e corajosas no campo da crítica à tecnologia. A obra, ainda sem tradução para o português, denuncia o uso estratégico da “mitologia da IA” como ferramenta de dominação ideológica, econômica e política.


A construção do mito: o que a IA não é

Ao contrário da narrativa dominante, a IA atual não é inteligente, muito menos autônoma. Modelos como o ChatGPT, o Bard ou o Gemini não pensam: eles simplesmente preveem a próxima palavra com base em padrões estatísticos. E fazem isso com base em bancos de dados colossais — frequentemente alimentados com conteúdos plagiados, coletados sem consentimento ou rotulados por trabalhadores explorados no Sul Global.


Segundo Bender e Hanna, a propaganda da superinteligência artificial funciona como uma distração: enquanto o público se perde em debates filosóficos sobre “consciência das máquinas”, as empresas seguem extraindo dados, precarizando trabalho, moldando comportamentos e concentrando poder político.


IA como dispositivo de poder

O livro revela como a Inteligência Artificial se tornou um dispositivo de legitimação do poder das Big Techs. Sob o pretexto do “avanço tecnológico”, essas corporações:

  • Espionam comportamentos cotidianos em escala planetária;

  • Aplicam algoritmos enviesados que reproduzem racismo, misoginia e desigualdade social;

  • Justificam a demissão de milhares de trabalhadores em nome da “automação”;

  • Escapam da regulação democrática com o discurso de que o “Estado não entende de tecnologia”.


Estamos, segundo as autoras, diante de uma nova etapa do capitalismo de vigilância, que substitui a exploração tradicional por um extrativismo de dados e subjetividades. E o mais perigoso: agora, esse extrativismo é invisível, algorítmico, automatizado.


O colonialismo de dados e a crise ecológica invisível

Um dos conceitos mais potentes do livro é o de colonialismo de dados. Para alimentar seus algoritmos, as Big Techs recolhem, armazenam e utilizam informações oriundas de populações que jamais deram consentimento para isso — em especial no Sul Global.


É uma prática que ecoa as dinâmicas do colonialismo clássico: territórios explorados, corpos invisíveis, lucros concentrados no Norte. Para completar o quadro, o treinamento de modelos de IA consome quantidades imensas de energia elétrica, muitas vezes oriunda de fontes fósseis. A Inteligência Artificial polui. E muito.


A contra-narrativa: resistência, ética e tecnologia justa

Mas The AI Con não é apenas denúncia. É também manifesto por outro futuro possível. Bender e Hanna propõem:

  • Que se democratize a tecnologia, com IA desenvolvida por comunidades e universidades;

  • Que os dados sejam tratados como bem comum, e não como mercadoria privada;

  • Que se coloque fim à mitologia da “disrupção”, substituindo-a por uma ética do cuidado e da sustentabilidade.

Trata-se de retomar o controle social sobre o desenvolvimento tecnológico.


Colocar a IA a serviço da vida, e não do lucro.


O que está em jogo

Mais do que um livro sobre tecnologia, The AI Con é uma obra sobre poder, ideologia e futuro. Ela se encaixa perfeitamente entre os grandes textos da Teorização do Contemporâneo. Não se limita à crítica técnica — atinge o cerne político da questão: quem lucra com a IA? quem sofre? quem decide?


Se, como nos ensina Marx, toda tecnologia carrega consigo uma ideologia, este livro é um convite urgente a desmascarar a ideologia por trás da Inteligência Artificial. Um convite à lucidez, à resistência e à imaginação política.


Trecho destacado (traduzido livremente):

“A inteligência artificial não pensa, não sente e não entende. Ela prevê a próxima palavra com base em padrões estatísticos extraídos de grandes volumes de dados — muitas vezes obtidos sem consentimento. Ainda assim, nos vendem a fantasia de uma IA onisciente, enquanto as estruturas reais de poder seguem intocadas.”


Para seguir refletindo...

  • Que tipo de futuro queremos construir?

  • A quem servem as tecnologias que utilizamos diariamente?

  • Como criar uma cultura tecnológica pautada pela ética, justiça e sustentabilidade?


Em tempos de culto à eficiência algorítmica, The AI Con é um farol crítico que nos lembra: nem toda inovação é emancipadora. E a técnica, por si só, não substitui o pensamento.





 
 
 

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