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O Leviatã e o Nascimento do Estado Moderno

  • carlospessegatti
  • 11 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

COLEÇÃO: SÉRIE FILOSÓFICA



Entre o medo e a razão: Hobbes e a fundação política da autoridade soberana

"O homem é o lobo do homem."— Thomas Hobbes, Leviatã (1651)


No limiar do século XVII, em meio às guerras civis inglesas, à instabilidade política e ao colapso das antigas ordens feudais e religiosas, surge uma das obras fundadoras da filosofia política moderna: Leviatã, de Thomas Hobbes (1588–1679).




Escrita em 1651, essa obra monumental marca o início de uma nova era: a concepção racional, secular e centralizada do Estado. Hobbes é um dos primeiros pensadores a sistematizar a ideia de um contrato social que funda a autoridade legítima sobre bases humanas — não divinas.


Para Hobbes, antes da existência do Estado, os homens viviam em uma condição chamada de “estado de natureza”. Nessa situação primitiva, não havia leis nem justiça — apenas liberdade absoluta e medo. Segundo ele, nessa condição todos os homens têm os mesmos desejos e as mesmas capacidades, o que inevitavelmente leva à competição, à desconfiança e à glória — três causas fundamentais de conflito.


A consequência?

A vida do homem era solitária, pobre, sórdida, brutal e curta.


Homo homini lupus: o lobo do lobo

A célebre frase “O homem é o lobo do homem” — originalmente de Plauto e retomada por Hobbes — sintetiza o diagnóstico sombrio da natureza humana em seu estado original. O homem, movido por seus apetites e aversões, pela autopreservação e pelo medo da morte violenta, precisa encontrar uma forma de sair desse ciclo de violência e insegurança. Surge, então, a razão política.


O Contrato e a criação do Leviatã

Para escapar do estado de guerra permanente, os indivíduos abrem mão de parte de sua liberdade natural e transferem seu poder a um soberano comum, em um contrato mútuo entre homens livres e iguais. Este soberano, chamado por Hobbes de Leviatã, é a personificação do poder político absoluto, cuja função é garantir a paz, a ordem e a segurança.


O nome "Leviatã" vem de uma criatura bíblica marinha, mencionada no Livro de Jó, símbolo do poder imenso, quase monstruoso, diante do qual o homem é impotente. Hobbes utiliza essa imagem para representar o poder quase divino do Estado soberano: não como tirania, mas como necessidade racional para impedir a anarquia.


Na famosa imagem da capa da primeira edição do livro, o Leviatã é retratado como um gigante formado pelos corpos dos cidadãos, com coroa e espada, simbolizando o contrato e a autoridade.


Hobbes sustenta que qualquer forma de governo pode ser legítima — monarquia, aristocracia ou democracia — desde que o soberano tenha poder absoluto e seja aceito como tal pelos cidadãos. Não há direito de rebelião, mesmo diante de injustiças, pois a alternativa é o retorno ao caos do estado de natureza.


O diálogo com os outros contratualistas: Locke e Rousseau

A teoria hobbesiana do contrato social inaugura uma linhagem de pensadores que, mesmo partindo do mesmo ponto — o estado de natureza — chegaram a conclusões bastante distintas.


John Locke (1632–1704): o contrato como garantia de direitos

Locke, considerado o pai do liberalismo político, também fala em estado de natureza, mas o descreve de modo mais otimista. Nele, os homens são livres e iguais e vivem com base na lei natural, que orienta a convivência pacífica. No entanto, por não haver autoridade para garantir a aplicação das leis, surgem conflitos.


Para Locke, o contrato social tem como objetivo proteger a vida, a liberdade e a propriedade — os chamados direitos naturais. O poder político é delegado aos governantes, mas permanece nos indivíduos. Caso o governo viole esses direitos, o povo tem o direito de resistir e depor o governante. Assim, Locke inaugura o ideal do Estado liberal, baseado na limitação do poder e na defesa das liberdades individuais.


Jean-Jacques Rousseau (1712–1778): da liberdade à vontade geral

Rousseau vai além. Para ele, o homem no estado de natureza era livre, bom e feliz, vivendo de forma simples e harmônica com a natureza. É a sociedade — e sobretudo a propriedade privada — que corrompe o homem e cria desigualdades.


O contrato social, para Rousseau, não cria um poder sobre os homens, mas entre os homens. Através dele, cada indivíduo abdica de sua liberdade natural para ganhar a liberdade civil, ao obedecer à vontade geral, expressão coletiva do interesse comum. Seu ideal é o da democracia direta, em que o povo é soberano e legislador de si mesmo.


A originalidade e o impacto de Hobbes

A originalidade de Hobbes está em sua construção racional e mecânica da política. Ele foi influenciado por Galileu e pelo pensamento científico de sua época, e aplicou uma lógica quase geométrica à sociedade: paixões humanas + razão = necessidade de autoridade soberana.


Com isso, Hobbes seculariza o poder político, retira-o do domínio da teologia e o inscreve na ordem da razão e da natureza humana. Ele é, sem dúvida, um dos fundadores do Estado moderno: centralizado, forte, racional, laico e baseado em uma engenharia do consentimento.


Seu pensamento influenciou diretamente o absolutismo e, ao mesmo tempo, abriu caminho para o debate moderno sobre os limites e fundamentos do poder político.


Entre o medo e a liberdade

O Leviatã é uma obra que ainda nos inquieta. Em tempos de crise das democracias, insegurança global, medo e violência, Hobbes retorna com força, questionando se a liberdade sem segurança vale o risco. Seu projeto não é o da emancipação, mas o da sobrevivência.


Como pensar o contrato social hoje, em tempos de plataformas, algoritmos e biopolítica? Será que já não vivemos sob novos Leviatãs invisíveis?


Hobbes nos obriga a lembrar que a política nasce do medo — mas que, talvez, a esperança ainda pertença àqueles que ousam reinventar o contrato.


 
 
 

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