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O que Adorno chama de “doutrina da moderação”

  • carlospessegatti
  • 12 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura


"A doutrina da moderação como uma virtude conforme à razão, inculcada desde Aristóteles, é, entre outras coisas, uma tentativa de fundamentar de uma maneira tão sólida a divisão socialmente necessária do home em funções independentes umas das outras que nenhuma delas consiga mais transformar-se em outra e lembrar o ser humano. Mas seria tão difícil imaginar Nietzsche trabalhando ate cinco horas num escritório, com uma secretária atendendo na ante-sala o telefone, quanto concebê-lo jogando golfe após um dia de trabalho. Só o astucioso entrelaçamento de trabalho e felicidade deixa aberta, debaixo do pressão da sociedade, a possibilidade de uma experiência propriamente dita. Ela é cada vez menos tolerada. Mesmo as profissões ditas intelectuais alienam-se por completo do prazer, através de sua crescente assimilação aos negócios. A atomização não está em progresso apenas entre os seres humanos, mas também no indivíduo, entre as esferas da sua vida.”



O que Adorno chama de “doutrina da moderação”

A referência a Aristóteles não é casual. A phronesis (prudência) e o mesotes (justo meio) são o coração da ética aristotélica:nem excesso, nem falta — a virtude está no ponto médio.


Adorno lê isso de forma crítica:essa “doutrina da moderação” não é neutra. Ela funciona historicamente como:

→ um dispositivo moral para estabilizar a ordem social,

restringindo movimentos, impulsos e transformações individuais.

Ao exigir moderação e equilíbrio, a sociedade reforça:

  • adaptação,

  • autocontenção,

  • funcionalidade,

  • conformismo produtivo.


A moderação se torna uma norma para garantir previsibilidade: um sujeito moderado é um sujeito que ocupa seu lugar— e não o ultrapassa.


Para Adorno, essa moderação cria zonas estanques da vida:

  • o trabalho não deve misturar-se com prazer;

  • o prazer deve ser "administrado";

  • a criação deve caber dentro da funcionalidade;

  • o indivíduo deve caber nas categorias sociais.


É o contrário da integridade humana.


Adorno vê nisso um mecanismo de cassação da experiência autêntica — aquela que integra, que atravessa fronteiras, que não cabe em recortes funcionais.


Daí a ironia: Nietzsche no escritório ou no golfe é impensável porque esses modelos de vida “moderada” são precisamente o que desativa o sujeito criador.


2. A divisão social do trabalho e a amputação do indivíduo

Aqui Adorno retoma um tema clássico do marxismo, mas o radicaliza:

→ a divisão social do trabalho não desagrega apenas a sociedade — ela desagrega o indivíduo por dentro.


No capitalismo tardio:

  • cada função é tão especializada

  • cada atividade tão recortada

  • cada papel tão isolado

que as dimensões da vida deixam de dialogar entre si.


O indivíduo se torna uma coleção de caixinhas:

  • o eu produtivo,

  • o eu afetivo,

  • o eu criativo,

  • o eu familiar,

  • o eu desejante,

  • o eu cansado…


Todos desconectados.

Adorno chama isso de atomização interna: não apenas as pessoas são isoladas entre si, mas cada parte da pessoa é isolada da outra.


Essa atomização tem efeitos devastadores:

  • impede o fluxo da experiência;

  • impede o fazer que é também pensar;

  • impede o pensar que é também sentir;

  • impede a criatividade como forma de vida plena.


É por isso que ele ironiza a imagem do "intelectual corporativo":

“profissões ditas intelectuais se alienam por completo do prazer, através de sua crescente assimilação aos negócios.”


A vida intelectual vira administração da vida intelectual. O pensamento vira expediente.


E a experiência — aquilo que une, atravessa, integra — torna-se intolerável para a sociedade.


3. O entrelaçamento de trabalho e felicidade

A frase-chave do trecho é esta:

“Só o astucioso entrelaçamento de trabalho e felicidade deixa aberta [...] a possibilidade de uma experiência propriamente dita.”


O que Adorno quer dizer?

Que só quando:

  • o trabalho contém prazer,

  • a criação contém liberdade,

  • o pensamento contém eros,

  • a atividade contém vida,

o indivíduo se salva da cisão.


Esse é o ponto em que Adorno dialoga diretamente com sua própria biografia e com sua visão de arte:a experiência estética é uma das poucas regiões onde esse entrelaçamento sobrevive — embora sob ataque.

E sob ataque crescente, como ele adverte.


4. O ataque social à experiência

Para Adorno:

A experiência verdadeira é perigosa para a ordem social. Por quê?

Porque ela produz:

  • consciência crítica,

  • autonomia,

  • sensibilidade à contradição,

  • desejo de transformação,

  • recusa ao papel funcional.

Daí a necessidade social — no capitalismo avançado — de:

  • entreter,

  • dispersar,

  • administrar,

  • controlar,

  • “moderar”.


Adorno vê a sociedade como uma máquina de amputar a experiência para conservar a ordem.


A divisão do trabalho funciona como técnica dessa amputação.


5. O recado filosófico-político do trecho

O que Adorno está denunciando é:

a conversão do ser humano em engrenagem funcional,

com a moral da moderação como justificativa, e a divisão do trabalho como estrutura objetiva.


Nietzsche é o contraexemplo perfeito porque representa a figura cuja vida não cabe em funções estanques.


Nietzsche é o sujeito que não pode ser moderado.


Por isso é impensável colocá-lo como funcionário ou como executivo de classe média — essas figuras moldadas pela racionalidade funcional do capitalismo.


Mas é exatamente isso que a sociedade tenta fazer com todos nós: moldar, moderar, encaixar, compartimentalizar.


Adorno aponta que o resultado é:

  • sujeito dividido,

  • sujeito esvaziado,

  • sujeito sem experiência,

  • sujeito não reconciliado consigo mesmo.


6. E por que isso me interessa?

Porque a minha obra — musical, filosófica, blogal…rss — sempre luta contra:

  • a divisão da vida em compartimentos,

  • a separação entre sentir e pensar,

  • a amputação da estética pelo utilitarismo,

  • a moderação como anestesia,

  • a atomização da subjetividade.


Minha busca por integrar ciência, mito, música, filosofia e cosmologia é o contrário da “moderação” aristotélica que Adorno critica. Minha obra combate justamente essa divisão da vida em funções isoladas.


O que Adorno descreve é tudo aquilo que a minha criação tensiona, denuncia e procura recompor. Estou conseguindo? Não sei ao certo, mas tento responder.

 
 
 

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