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O Som do Sol Nascente: Strauss, Nietzsche e Kubrick em “Also Sprach Zarathustra”

  • carlospessegatti
  • 10 de jul. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: 11 de jul. de 2025



Da grandiosidade orquestral ao mistério cósmico, a abertura “Sonnenaufgang” — com seu Pipe Organ retumbante — une filosofia, música e cinema. Uma travessia sonora que vai de Nietzsche a Stanley Kubrick, entre o homem e o além-do-homem.


Quando o Sol nasce em som

A abertura da obra "Also Sprach Zarathustra" (Assim Falou Zaratustra), composta por Richard Strauss em 1896, tornou-se um dos momentos mais reconhecíveis da história da música sinfônica — não apenas por seu impacto musical, mas pelo que ela representa: a aurora de uma consciência superior, o nascimento simbólico de uma nova era humana.


Baseada na obra filosófica homônima de Friedrich Nietzsche, essa peça ganhou imortalidade popular ao ser utilizada por Stanley Kubrick na abertura de seu filme 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968). O que poucos sabem, no entanto, é que aquele som retumbante e quase litúrgico, que parece emergir do próprio universo, é um Pipe Organ (órgão de tubos), cuidadosamente escrito por Strauss em sua partitura original.


🎼 “Sonnenaufgang”: O Nascimento do Sol

O primeiro movimento da obra — chamado "Sonnenaufgang", ou "Nascimento do Sol" — é uma construção sonora monumental. Inicia com três notas em uníssono que vão se expandindo em um poderoso crescendo em dó maior, conduzindo a orquestra a um clímax de ressonância cósmica.


Nesse momento, o órgão de tubos entra como um elemento estrutural da massa sonora, não como um adorno. Sua presença amplia as frequências graves, fazendo vibrar a terra, o corpo e o espírito, como se uma entidade maior estivesse prestes a se revelar. É som de revelação, som de gênese.


🎹 O Pipe Organ na obra de Strauss

Sim, o órgão que ouvimos foi previsto desde a composição original. Strauss escreveu essa parte para Pipe Organ, e ela é interpretada ao vivo nas execuções orquestrais completas, desde que o local possua um órgão de tubos funcional.


Em gravações, quando não há órgão físico disponível, substitui-se por órgãos eletrônicos ou se reforçam os registros graves por meio da mixagem. No entanto, é importante afirmar que o órgão está presente na partitura integral de 1896 e foi executado desde as primeiras apresentações da obra.


A intenção de Strauss era clara: transformar a orquestra em um organismo cósmico, onde o órgão funcionasse como a espinha dorsal da grandiosidade espiritual da obra, evocando não apenas a natureza, mas também o transcendente.


🎬 Kubrick e o nascimento do super-homem

A genialidade de Stanley Kubrick, ao escolher "Also Sprach Zarathustra" para abrir seu filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, está em perceber que esse som não é apenas música — é símbolo.


Kubrick utilizou a gravação da Filarmônica de Viena, conduzida por Herbert von Karajan (1959), na qual o órgão foi gravado junto à orquestra. O diretor intuiu o poder filosófico e simbólico da peça: assim como Nietzsche descrevia a evolução espiritual do homem rumo ao Übermensch (além-do-homem), o filme retrata a jornada da humanidade da condição animal ao salto quântico da consciência, marcada pela aparição do monólito.


O som do órgão e da orquestra, então, torna-se o som do nascimento de uma nova espécie, de uma nova consciência, de um novo mundo. Não é coincidência que a primeira cena do filme — o nascer do Sol por trás da Terra e da Lua — seja acompanhada pelo movimento Sonnenaufgang. Ali, o universo mesmo parece ouvir sua própria criação.


🌌 Música, filosofia e o cósmico

Richard Strauss, embora não fosse um filósofo no sentido acadêmico, teve sensibilidade suficiente para captar a força conceitual da obra de Nietzsche e traduzi-la numa linguagem musical universal. Composta no final do século XIX, às vésperas das grandes rupturas da modernidade, Also Sprach Zarathustra carrega uma mensagem: a transfiguração do humano pela luz da superação, pelo confronto com o abismo e pela reinvenção do sentido.


O uso do Pipe Organ nesse contexto não é gratuito. Ele evoca a dimensão litúrgica, cósmica, sagrada da experiência. O órgão não está ali apenas para aumentar o volume: ele convoca o inefável, como uma voz que vem do centro da Terra ou das entranhas da galáxia.


Considerações Finais

Also Sprach Zarathustra não é apenas uma peça musical. É um poema sinfônico filosófico, um manifesto existencial. E sua abertura, com o Pipe Organ ressoando como um eco de divindade ou de destino, mostra como som, imagem e ideiapodem se fundir em uma única vibração cósmica.


Richard Strauss, Friedrich Nietzsche e Stanley Kubrick, cada um em sua linguagem, trabalharam para construir um nascimento: do sol, do pensamento e da consciência.


E nesse nascimento, o som foi a primeira luz.




Do Êxtase ao Abismo: O Órgão em Strauss, Messiaen e Ligeti como Símbolo do Cósmico e do Inumano


Três compositores, três visões de transcendência e catástrofe. Do sol de Zaratustra à mística católica de Messiaen e aos gritos cósmicos de Ligeti, o órgão emerge como um portal sonoro entre mundos — entre o humano e o além-do-humano.


🌅 1. Strauss: O Órgão como Epifania Cósmica

Em Also Sprach Zarathustra (1896), como vimos, o órgão de tubos aparece na abertura Sonnenaufgang como símbolo do nascimento do Sol, metáfora da superação espiritual inspirada na filosofia de Nietzsche. Strauss não utiliza o órgão como centro da obra, mas como força fundacional, um chão vibrante e transcendental que sustenta a ascensão harmônica da orquestra.


O órgão em Strauss representa:

  • Luz: a revelação de um novo dia espiritual.

  • Afirmação: um grito afirmativo da existência (eco do "sim" nietzschiano).

  • Grandiosidade do Humano: uma técnica ainda centrada no homem moderno, mas voltada à sua superação.


 2. Messiaen: O Órgão como Instrumento da Eternidade

O compositor francês Olivier Messiaen (1908–1992) é talvez o maior sacerdote moderno do órgão. Organista da Igreja da Trindade em Paris por mais de 60 anos, Messiaen via o órgão como um instrumento teológico, capaz de tornar audível o invisível. Para ele, o som do órgão evocava anjos, galáxias, cristais, e o tempo divino.


Em obras como:

  • "La Nativité du Seigneur" (1935),

  • "Messe de la Pentecôte" (1950),

  • "Livre du Saint Sacrement" (1984),

...o órgão não apenas acompanha a liturgia, mas a incorpora e transcende. Ele explora modos gregorianos, escalas exóticas, ritmos hindus e paletas cromáticas que soam como mandalas sonoras.


O órgão em Messiaen representa:

  • Transcendência mística: música como oração cósmica.

  • Corpo glorificado: o som como epifania do eterno.

  • Tempo vertical: as harmonias não evoluem linearmente, mas se elevam ou permanecem suspensas — como se estivéssemos ouvindo o tempo de Deus.


Messiaen transforma o órgão em espaço litúrgico da escuta. Não se trata apenas de um instrumento: é uma janela para o invisível.


🪐 3. Ligeti: O Órgão como Força Inumana e Caótica

Em contraposição a Messiaen, György Ligeti (1923–2006) emprega o órgão como metáfora do insondável, do abissal, do inumano. Seu trabalho com o instrumento não é místico no sentido religioso, mas sim cosmológico e inquietante. A escuta de suas obras se assemelha a vislumbres do universo antes ou depois da forma.


Na peça "Volumina" (1961–62), por exemplo, o órgão é explorado como massa sonora, com clusters (aglomerados de notas) dissonantes, registros extremos, glissandi de registros e movimentos físicos do organista que criam um tecido sonoro denso, alienígena, quase monstruoso.


Outras peças como:

  • "Continuum" (1968) ou

  • "Atmosphères" (1961, para orquestra, mas com ethos semelhante),

...sugerem uma cosmologia sem Deus — ou melhor, um divino que não se comunica, apenas ressoa com mistério e indiferença.


O órgão em Ligeti representa:

  • Abismo sonoro: o inaudível tornado audível.

  • Tecnologia como estranhamento: o instrumento não é litúrgico, mas estranhamente vivo.

  • O som como fenômeno natural: quase uma simulação do cosmos em colapso, ou do nascimento de uma galáxia.


Kubrick percebeu isso com precisão ao utilizar Atmosphères e Lux Aeterna no mesmo filme em que usou Strauss — 2001: Uma Odisseia no Espaço. Enquanto Strauss anunciava a ascensão humana, Ligeti expunha o insondável do universo que desafia o humano.


🎹 Comparação Síntese

Compositor

Função do Órgão

Significado Filosófico

Estética Sonora

Strauss

Fundamento orquestral

Superação do humano (Nietzsche)

Grandioso, afirmativo

Messiaen

Centro teológico/estético

Eternidade, visão mística

Cores harmônicas, espiritualidade cósmica

Ligeti

Matéria sonora em fluxo

Caos, estranhamento, vazio cósmico

Clusters, texturas densas, som alienígena



🌌 Considerações Finais

Três visões do cosmos — e três formas de fazer o órgão vibrar como espelho do universo interior e exterior.


  • Strauss nos dá o nascer do sol sobre a humanidade.

  • Messiaen nos mostra o portal da luz eterna.

  • Ligeti nos arrasta ao abismo da matéria sonora, sem promessas.


Todos usam o órgão não apenas como instrumento musical, mas como máquina filosófica de ressonância cósmica. Ao estudá-los e escutá-los, compreendemos que o som, em sua plenitude, é também uma forma de pensar — um pensamento que vibra, ecoa, desintegra e se recria em timbre e silêncio.


O som do órgão entre os grandes compositores


Also Sprach Zarathustra - Richard Strauss (1896)



György Ligeti (1923-2006): Volumina



Olivier Messiaen - Livre du Saint-Sacrement






 
 
 

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Convidado:
10 de jul. de 2025

Remete a uma grandiosidade.

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