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O Velho Cego e o Retorno de Ulisses: Visão Interior, Memória e Reconhecimento

  • carlospessegatti
  • 10 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura


Há episódios na mitologia grega que sobrevivem não apenas pelo rigor da narrativa, mas pela força simbólica que carregam. Entre eles, destaca-se uma cena que muitos conhecem por versões orais e recontos modernos: Ulisses, ao voltar de sua longa errância, encontra um velho cego que narra as suas próprias epopeias com tal precisão que o herói, atônito, finalmente se reconhece.


Essa passagem, embora não apareça literalmente nos textos clássicos, captura um dos núcleos mais profundos da Odisseia: o momento em que o herói compreende quem é através da narrativa de um outro — alguém que, mesmo cego para o mundo exterior, enxerga a verdade essencial da trajetória humana.


Neste ensaio, quero recuperar o sentido simbólico dessa cena e mostrar por que ela expressa, com rara beleza, o espírito da cultura grega e a própria estrutura da autorreflexão humana.


1. O Aedo Cego: A Visão que Não Passa Pelos Olhos

A cena que mais se aproxima da história do velho cego ocorre no Livro VIII da Odisseia, quando Ulisses, ainda incógnito na corte dos feácios, ouve o aedo Demódico cantar.


Demódico era cego, e essa cegueira é tudo menos limitação. Na Grécia arcaica, a figura do poeta cego simbolizava aquele que vê através da escuridão — aquele que, privado do visível, acessa o invisível.


Quando Demódico canta os feitos da guerra de Troia, sobretudo o estratagema do Cavalo, Odisseu chora em silêncio, oculto sob seu manto. Ele chora não pelo sofrimento da guerra, mas porque, pela primeira vez, escuta sua vida como obra, como narrativa, como memória que adquire sentido.


É o poeta — o cego — quem lhe devolve sua identidade.


Essa é, na essência, a imagem que sobreviveu e se difundiu: a do herói se reconhecendo através da voz de alguém que vê melhor do que aqueles que têm olhos.


2. A Anagnórisis: Reconhecer-se é um Ato Filosófico

Os gregos tinham uma palavra para esse instante de revelação: anagnórisis — o reconhecimento de si, do outro, ou da trama oculta que dá sentido à existência.

No retorno a Ítaca, Ulisses passa por inúmeras formas de reconhecimento:

  • com Telêmaco,

  • com Penélope,

  • com seu velho cão Argos,

  • com a ama Euricleia,

  • com o pastor Eumeu.


Mas falta um reconhecimento maior, mais metafísico: aquele que só é possível quando a própria vida retorna como narrativa.


A figura do velho cego é, portanto, uma síntese mítica dessa revelação. É o momento em que a vida deixa de ser mera sucessão de eventos e se torna história, sentido, destino.


3. A Cegueira Como Forma Superior de Visão

A cultura grega é rica em figuras cuja cegueira os aproxima da verdade:

  • Tirésias, o profeta que perde os olhos para ganhar a visão do destino.

  • Homero, sobre quem a tradição tardia afirma ser cego.

  • Demódico, na Odisseia.


A cegueira, longe de ser deficiência, simboliza a capacidade de enxergar não o mundo material, mas o mundo essencial — o que está escondido sob a superfície, o que se revela apenas a quem escuta.



**4. Reflexões Filosóficas:

O Herói Só Existe Quando Narrado

Dessa cena simbólica — o velho cego cantando a vida do herói — emergem algumas reflexões fundamentais:

a) O sujeito que nasce no olhar do outro

Assim como em Adorno, a subjetividade é mediada. Ulisses só compreende quem é quando escuta alguém narrando aquilo que ele viveu.

Não há identidade sem mediação.

Não há herói sem poeta.

b) A memória como arquitetura da existência

Demódico “vê” porque lembra. O passado, quando narrado, deixa de ser caos e se torna forma. A vida só se organiza quando alguém — nós mesmos ou outro — a interpreta.

c) A revelação pelo invisível

O velho cego simboliza a sabedoria que não depende da aparência.

d) O retorno como leitura da própria jornada

Voltar não é apenas chegar ao ponto de partida, mas finalmente compreender o caminho.


5. A Verdade da Cena

Do ponto de vista histórico: A cena literal não existe nas fontes clássicas.

Do ponto de vista simbólico:

Ela é absolutamente verdadeira.

Ela está presente no coração da Odisseia e em toda a tradição do poeta cego.

Ela expressa com fidelidade o mito grego do herói que só se torna herói quando ouvido, cantado, interpretado.



Conclusão:

Quando o Velho Cego Fala, o Mundo se Reconhece

O velho cego não é apenas um personagem possível: é um arquétipo. Ele representa o poeta, o sábio, o profeta, o músico, o pensador — aquele que, sem ver o mundo exterior, enxerga a verdade secreta que o sustenta.


Ao escutar sua própria vida pela voz de outro, Ulisses reconhece não apenas suas aventuras, mas o próprio sentido da existência.


E, como nos lembra o mito, essa revelação só é possível quando aprendemos a ouvir.



1. O coração da filosofia de Martim Buber:

O eu só existe na relação


Para Buber, o ser humano não é um indivíduo isolado que depois estabelece relações. Ao contrário: é na relação que o Eu se constitui.

Ele distingue dois modos fundamentais de relação:

a) Eu–Isso (Ich–Es)

Quando tratamos o outro como objeto, coisa, função, instrumento.

b) Eu–Tu (Ich–Du)

Quando encontramos o outro na sua totalidade viva, como presença. Nesse instante, o Eu se revela; o Eu acontece.


Não há “Eu” fora desse encontro. Não há identidade sem alteridade.


E é exatamente isso que ocorre com Ulisses diante do poeta cego.


2. O encontro com Demódico (ou o velho cego) como relação Eu–Tu

Quando o aedo canta, Ulisses não está diante de um mero narrador. A cena configura uma relação Eu–Tu:

  • Demódico, mesmo cego, vê Ulisses em profundidade.

  • Ele não narra apenas acontecimentos; ele revela a alma do herói.

  • Ulisses, ao ouvi-lo, encontra mais do que palavras: encontra a própria verdade de sua jornada.


Isso é o encontro “fundante” de Buber: o Tu que nos devolve nós mesmos.

Ulisses não reconhece apenas as histórias — reconhece a si na presença daquele que o compreende sem vê-lo.


3. O reconhecimento pelo outro em Buber

Buber afirma que:

“O Eu só se torna Eu quando diz Tu.”


Em outras palavras: a identidade não é interna — é relacional. Somos constituídos pelo olhar do outro que nos vê como presença, não como objeto.

Na cena mítica:

  • Demódico reconhece Ulisses sem sabê-lo.

  • Ulisses reconhece Ulisses ao ouvir Demódico.

  • A presença entre os dois cria a identidade do herói.


É o que Buber chamaria de relação autêntica, origem da existência pessoal.


4. A visão interior e o Eu–Tu

A cegueira do poeta reforça o ponto bubertiano:

Buber insiste que o verdadeiro encontro não depende de aparência, imagem ou função. O Tu se revela na interioridade, na presença que não precisa de visão física.


O aedo cego vê Ulisses mais profundamente do que todos os que têm olhos. Ele vê Ulisses como Tu — e por isso o herói se reconhece.


5. Ulisses como exemplo da verdade buberiana

A leitura buberiana ilumina a cena:

  • Ulisses errante vive na lógica Eu–Isso: sobrevivência, astúcia, conflito, disfarce.

  • Com Demódico, ele experimenta um raro instante Eu–Tu.

  • Esse encontro devolve-lhe a inteireza.

  • Ele chora porque reencontra sua humanidade.


Assim como em Buber, o Tu rompe a solidão do Eu e inaugura um sentido novo.


6. Conexão com a minha estética

Esse ponto é profundamente ligado à minha busca artística:

  • A música como ponte entre consciências.

  • A vibração como modo de encontro existencial.

  • A interioridade como verdade que não se vê, mas se sente.

  • A subjetivação que nasce da relação, não do isolamento.


Minha sensibilidade está absolutamente alinhada ao espírito buberiano: a música, como o Tu, é um encontro — o som que cria presença, que cria mundo.


7. Em síntese:

O mito e Buber dizem a mesma coisa por caminhos diferentes

✔ Sim: a cena do velho cego e o reconhecimento de Ulisses são profundamente compatíveis com Eu e Tu;

✔ Ambos defendem que o Eu se revela apenas na relação com o outro;

✔ A figura do cego reforça a ideia do encontro interior, essencial, não-objetificante;

✔ A anagnórisis homérica espelha a relação Eu–Tu como fundamento da identidade humana.


Em termos filosóficos: Ulisses torna-se Ulisses diante de Demódico como o Eu só se torna Eu diante do Tu.




UMA VISÃO INTEGRADORA ENTRE A NARRATIVA MITOLÓGICA E O OLHAR BUBERIANO



Ulisses, o Velho Cego e Martin Buber:

O Eu que Só se Revela no Encontro com o Tu


Há momentos na literatura e na filosofia em que mundos distantes se iluminam mutuamente. A cena do retorno de Ulisses, ouvindo um velho cego narrar suas próprias aventuras, e a filosofia relacional de Martin Buber descrita em Eu e Tu, pertencem justamente a esse raro território onde mito e ontologia convergem.


Essa aproximação não é artificial: ela expõe algo profundo sobre como o ser humano se torna sujeito — não sozinho, mas no encontro com o outro.


1. O mito: o velho cego que vê mais do que os olhos podem ver

Ulisses retorna, disfarçado, exausto, fragmentado pelas suas errâncias. É quando encontra o velho cego — figura que aparece como Demódico na Odisseia — que a revelação ocorre.


Ele narra aquilo que Ulisses viveu.

Ele vê aquilo que Ulisses tentou esquecer.

Ele diz em palavras aquilo que o herói ainda não tinha se dado conta de que era.


E Ulisses chora. Chora porque, pela primeira vez, escuta-se.


A cegueira do poeta não é símbolo de ignorância, mas de visão interior — aquela que não depende da aparência, mas da verdade essencial.


2. A chave buberiana: o Eu só nasce no encontro com o Tu

Em Eu e Tu, Buber afirma algo decisivo: o ser humano não possui um Eu isolado. O Eu só existe na relação.


A identidade surge quando o outro não é capturado como objeto (“Isso”), mas reconhecido como presença viva (“Tu”). Nesse instante, a existência se abre. O Eu é pronunciado pelo Tu — e vice-versa.


Esse é o núcleo que faz Buber dialogar diretamente com o mito.


3. O encontro entre o herói e o poeta como relação Eu–Tu

A relação entre Ulisses e o velho cego é um exemplo luminoso de encontro Eu–Tu:

  • O poeta vê Ulisses não como objeto, mas como ser inteiro.

  • Ulisses, ouvindo sua história recontada sem julgamento ou interesse, encontra-se com sua própria verdade.

  • A narrativa do outro revela aquilo que a própria consciência fragmentada não conseguia formular.


Não se trata de reconhecimento factual, mas existencial.

Ulisses se reconhece porque é reconhecido. Esse é o momento buberiano por excelência.


4. A anagnórisis homérica como acontecimento ontológico

Os gregos chamavam esse momento de anagnórisis — reconhecimento.

Buber chamaria de encontro.


Ambos descrevem a mesma experiência humana fundamental:

a identidade não é uma substância interior, mas um acontecimento na relação com o outro.


O velho cego, por ver através da linguagem, torna-se o Tu que devolve o Eu a Ulisses.


5. A cegueira como visão essencial

Para Buber:

  • Quando tratamos o outro como objeto, vemos com os olhos.

  • Quando tratamos o outro como Tu, vemos com a presença.


A figura do poeta cego é perfeita:

Ele não enxerga o rosto de Ulisses — logo, não o reduz à aparência. Ele o vê na totalidade, na vibração, na memória, na essência.

É o encontro que constitui o ser.


A cegueira, aqui, torna-se símbolo buberiano: ver não é olhar; ver é encontrar.


6. O ponto mais profundo: o Eu que retorna a si mesmo através do outro

Quando Ulisses ouve suas aventuras narradas pelo velho cego, acontece algo que Buber descreve com precisão:

“O Eu se revela no Tu.”


Ulisses não reconhece apenas fatos. Reconhece o próprio sentido de sua vida — mas só porque alguém, um outro, o reconheceu primeiro.


É exatamente essa dinâmica que Buber formula como fundamento da existência.

O herói retorna para casa no mapa, mas só retorna para si na relação.


7. Convergência final: mito e filosofia dizem o mesmo

A cena mítica e a filosofia de Buber convergem em uma verdade comum:

O Eu não nasce no isolamento.


Ele nasce na escuta.

Ele nasce no olhar do outro.

Ele nasce na narrativa que o outro devolve.


Ulisses precisa do poeta cego para se encontrar.

Assim como nós precisamos do encontro — na música, na arte, na filosofia, na relação — para nos tornarmos quem somos.

 
 
 

1 comentário


Convidado:
10 de dez. de 2025

Assunto profundo. Alteridade Ulissiana e a impossibilidade de evoluir sem a presença do Outro em nossas vidas.

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