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Pierre Schaeffer: O Alquimista do Som

  • carlospessegatti
  • 9 de jul. de 2025
  • 7 min de leitura


A vida e a obra do criador da Música Concreta e sua revolução na escuta, no pensamento e na composição do século XX



Num século marcado por rupturas radicais nas linguagens artísticas, Pierre Schaeffer (1910–1995) emerge como uma das figuras mais transformadoras da música moderna. Engenheiro, compositor, pensador e filósofo da escuta, foi ele quem deu início a uma nova forma de entender o som como matéria viva, manipulável e emancipada da tradição notacional. Sua maior invenção — a musique concrète — não apenas desafiou a noção clássica de composição, como lançou as bases do que hoje conhecemos como música eletrônica, experimental, eletroacústica e até mesmo ambiental.


Schaeffer, ao captar sons do mundo real com um gravador e reorganizá-los em formas poéticas, criou uma nova ontologia do som, onde a escuta se torna o centro da criação. Mais do que um compositor, ele foi um teórico da percepção auditiva, um profeta da escuta acusmática, e um precursor das práticas que hoje se entrelaçam com a arte sonora, a música ambiente, o noise e o design sonoro.


1. A Formação de um Híbrido: Engenharia, Arte e Filosofia

Pierre Schaeffer formou-se engenheiro pela École Polytechnique e pela École Supérieure d’Électricité — uma formação que já indicava seu futuro hibridismo entre ciência e arte. No entanto, foi na Radiodiffusion Française (RDF), a rádio estatal francesa, que ele encontrou o campo fértil para suas explorações sonoras.


Schaeffer começou a trabalhar com gravações de sons do cotidiano — trens, batidas, motores, vozes — que ele manipulava com discos de acetato, tocadores e outros dispositivos rudimentares. Era o início daquilo que, em 1948, ele batizaria como musique concrète: música feita a partir de sons "concretos", não abstrações notadas em partituras, mas registros sonoros reais, tangíveis, manipuláveis. Era a antítese da tradição ocidental que vinha desde Pitágoras e sua busca pela música ideal e matemática.


2. A Invenção da Música Concreta

A musique concrète não foi apenas uma técnica composicional, mas uma mudança de paradigma na forma como se pensava o som. Em vez de compor com notas, Schaeffer compunha com objetos sonoros — fragmentos de som cuja origem era muitas vezes irreconhecível, convidando o ouvinte a escutar sem a interferência da imagem.


Sua primeira obra emblemática foi o Étude aux chemins de fer (1948), feita exclusivamente com sons de trens. Ela marca o nascimento da música concreta e abre caminho para os experimentos que viriam a seguir, como os Cinq études de bruitse as colaborações com Pierre Henry — especialmente a ópera eletrônica Orphée 53 e a obra seminal Symphonie pour un homme seul (1950), que já colocava o corpo humano, suas vozes, respirações e passos, como elementos centrais da composição.


3. Teoria da Escuta: O Ouvido Acusmático

A contribuição de Schaeffer não se limitou à prática composicional. Ele foi um profundo teórico da escuta. Seu livro "Tratado dos Objetos Musicais”* (Traité des objets musicaux, 1966) é uma obra fundamental que propõe uma nova fenomenologia do som. Inspirado por Husserl e Merleau-Ponty, Schaeffer redefine o ato de escutar como um fenômeno perceptivo autônomo, não subordinado à origem do som, mas à sua escuta reduzida.


A escuta acusmática — ouvir um som sem ver sua fonte — é um conceito central nesse pensamento. Ela liberta o som de sua função narrativa, simbólica ou funcional, e o devolve à sua pura existência vibratória. É aqui que Schaeffer se aproxima não apenas da filosofia, mas de uma ontologia sonora que antecipa debates contemporâneos sobre a materialidade do som.


4. Legado e Influência

Schaeffer fundou o GRM (Groupe de Recherches Musicales) em 1958, um dos primeiros estúdios dedicados à pesquisa sonora e à experimentação eletroacústica. Lá, influenciou nomes como Iannis Xenakis, François Bayle, Karlheinz Stockhausen, Luc Ferrari, e, de forma indireta, toda uma geração que viria a trabalhar com sintetizadores, samplers, drones, soundscapes e arte sonora.


A musique concrète foi também o embrião para o surgimento da música eletrônica popular: sem ela, não teríamos Kraftwerk, Brian Eno, Aphex Twin ou mesmo o uso atual de field recordings na ambient music e na paisagem sonora de trilhas para filmes e jogos. Schaeffer plantou as sementes do futuro — um futuro onde qualquer som pode ser música.


5. Pierre Schaeffer e a Música Contemporânea: Ecos no Tempo

Hoje, quando falamos em música espacializada, inteligência artificial compondo sons, sintetizadores modulares que replicam padrões naturais, ou plugins que recriam o som do universo, estamos de certa forma trilhando os caminhos abertos por Schaeffer. Sua escuta revolucionária encontra ecos na música ambiental, no design sonoro de filmes como Arrival, nos pads cósmicos da new age contemporânea, e nas reflexões sobre o silêncio, o ruído e o tempo.


Para artistas como eu, que operam entre a ciência, a música e a teorização do contemporâneo, Schaeffer é uma espécie de antepassado espiritual — um alquimista do som que enxergou no ruído da máquina, no tremor da matéria e na vibração do real a mais pura expressão musical.



Pierre Schaeffer não apenas fundou uma nova estética: ele redefiniu o que é compor, o que é ouvir, o que é som. Sua obra nos ensina que escutar é um ato filosófico, que o som é matéria de pensamento, e que a tecnologia, longe de ser inimiga da sensibilidade, pode ser sua aliada na construção de mundos sonoros inéditos.


Schaeffer abriu nossos ouvidos. E uma vez abertos, eles jamais voltam a ouvir da mesma forma.



* TRATADO DOS OBJETOS MUSICAIS


O Ouvido Pensante: Um Estudo do Tratado dos Objetos Musicais, de Pierre Schaeffer


Um mergulho na fenomenologia sonora e na escuta reduzida que revolucionou a composição e o pensamento musical no século XX


1. Introdução ao Tratado

Publicado em 1966, Traité des Objets Musicaux (Tratado dos Objetos Musicais) é o resultado de quase duas décadas de pesquisa de Pierre Schaeffer sobre a escuta e o som como objeto. Longe de ser apenas uma reflexão estética, o livro é um verdadeiro sistema epistemológico — uma tentativa de fundar uma “ciência dos sons” que não se baseia em partitura, harmonia ou acústica tradicional, mas na experiência da escuta em si.


Neste tratado, Schaeffer busca responder: o que é um som, enquanto objeto de percepção? Como podemos compreendê-lo sem nos prender à sua fonte, ao seu contexto ou à sua representação escrita?


2. O Conceito Central: O Objeto Sonoro

O núcleo da obra é o conceito de objeto sonoro, que não deve ser confundido com o som físico ou com sua representação simbólica (como notas musicais). O objeto sonoro é uma entidade perceptiva captada pela escuta — uma totalidade que possui características próprias como forma, duração, timbre, ataque, textura, densidade, etc.


Para que ele emerja como tal, Schaeffer propõe um exercício fundamental: a escuta reduzida (écoute réduite). Inspirado em Husserl e na redução fenomenológica, esse tipo de escuta consiste em abandonar a preocupação com a causa do som e focar somente naquilo que se ouve — o som enquanto fenômeno puro.


3. A Tipologia e a Morfologia Sonora

Schaeffer desenvolve um sistema classificatório inovador que busca categorizar os sons conforme sua morfologia (forma interna) e tipologia (como são percebidos em relação ao tempo, densidade, ataque, etc.). Esses dois eixos geram uma verdadeira cartografia sonora.


Morfologia sonora abrange aspectos como:

  • Forma (contínua, impulsiva, granular...)

  • Dinâmica (crescendo, decrescendo, estática)

  • Timbre (estrutura interna espectral)

  • Texto (matéria e textura do som)


Tipologia sonora, por sua vez, lida com:

  • O gesto que produz o som (ato físico ou virtual)

  • O modo de variação (repetição, continuidade, ruptura)

  • A duração e sua percepção (instante, fluxo, espera)

Essa análise permite entender o som como um evento complexo, que tem estrutura, intenção implícita, textura e forma, mesmo fora do contexto tradicional da música tonal ou rítmica.


4. A Experiência Acusmática

No Traité, Schaeffer formaliza o conceito de experiência acusmática: escutar sons sem ver sua origem física. Ele remonta à prática dos acusmáticos de Pitágoras, que ouviam seu mestre atrás de um véu, focando somente na palavra e não na aparência.


Na experiência acusmática contemporânea, essa "cortina" é criada por meios técnicos — gravações, alto-falantes, manipulações eletrônicas. Isso permite uma escuta "pura", que se afasta das conotações visuais, simbólicas ou narrativas. Essa escuta se transforma, assim, em ato contemplativo e analítico.


5. Gesto, Intenção e Escuta Musical

Outro ponto fundamental do tratado é a relação entre gesto sonoro e escuta. Para Schaeffer, o som carrega uma intenção implícita, mesmo que sua fonte não seja visível. Cada som é uma “pegada” de um gesto — mesmo que esse gesto seja acidental, mecânico ou aleatório. Ou seja, há uma relação entre o corpo ausente e o som presente.


Esse pensamento antecipa abordagens contemporâneas como a sound art, a escultura sonora e os estudos de corporeidade na música.


6. Implicações Filosóficas e Artísticas

Schaeffer propõe que a música não seja mais entendida como um sistema harmônico ou melódico, mas como uma organização de objetos sonoros. Isso representa uma ruptura com mais de dois mil anos de tradição musical ocidental baseada na escrita e na harmonia pitagórica.


Ele convoca o compositor a ser, antes de tudo, um pesquisador de sons, um organizador de percepções. Nesse sentido, o tratado é também um manifesto para uma nova arte sonora — não mais serva das formas clássicas, mas aberta ao universo total do som.


7. O Tratado Hoje: Herança e Atualidade

O Traité des Objets Musicaux continua a ser uma referência incontornável para estudiosos de música eletroacústica, compositores experimentais, artistas sonoros e filósofos da percepção. Seu legado está presente no trabalho de Luc Ferrari, R. Murray Schafer, Pauline Oliveros, John Cage, no design sonoro contemporâneo, nas instalações imersivas e até nos algoritmos de escuta ativa usados por inteligências artificiais.


O livro também ecoa nos debates filosóficos sobre o som, como na obra de Don Ihde (Listening and Voice) ou nos estudos sobre fenomenologia acústica.



O Tratado dos Objetos Musicais é mais do que um livro: é um ato de escuta. Ele nos convida a recomeçar, a ouvir o mundo como se fosse a primeira vez. Na era da superprodução sonora, onde os sons se tornaram pano de fundo indistinto, Schaeffer nos ensina a resgatar a escuta ativa e consciente como ato de criação e de pensamento.


Para criadores sonoros como eu, essa obra é um mapa, uma bússola e uma provocação permanente. Ao lado de nomes como Edgar Varèse e John Cage, Schaeffer é um dos poucos que ousaram não apenas criar novos sons, mas propor uma nova maneira de existir no som.




 
 
 

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