Réquiem: A Música para a Eternidade
- carlospessegatti
- 12 de ago. de 2025
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Entre a devoção e a arte, a missa dos mortos se torna uma das formas mais intensas de expressão musical da tradição ocidental
Ao longo da história da música sacra, poucas formas alcançaram tamanha intensidade dramática e espiritual quanto o Réquiem. No contexto da Igreja Católica, o Réquiem é a missa fúnebre dedicada ao descanso eterno das almas dos falecidos, cujo nome provém das primeiras palavras da antífona de entrada: Requiem aeternam dona eis, Domine (“Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno”).
Mais que um ritual litúrgico, tornou-se um espaço privilegiado onde a música dialoga com a finitude humana, a transcendência e a esperança na vida eterna.
O que é um Réquiem?
O Réquiem, ou Missa pro defunctis, é estruturado a partir de textos fixos do Ordinário e Próprio da missa, mas com características distintas da missa comum: nele, substitui-se o canto do Gloria e do Credo por trechos próprios como o Dies irae, o Libera me e o In paradisum. A atmosfera é marcada pelo recolhimento, pela solenidade e pela evocação da eternidade, variando entre a contemplação e o drama apocalíptico.
Na liturgia católica, seu papel é interceder pelas almas, pedindo a Deus que as acolha no repouso celestial. Ao migrar para o repertório artístico, sobretudo a partir do Barroco e do Classicismo, o Réquiem passou a transcender a função estritamente litúrgica, ganhando dimensão concertante e estética, sendo apresentado não apenas em igrejas, mas também em salas de concerto.
O Réquiem no Barroco
O Barroco foi um período em que a música sacra atingiu um esplendor grandioso. Os compositores exploravam contrastes de dinâmica, ornamentações elaboradas e a teatralidade herdada da ópera, o que conferia ao Réquiem um caráter de intensa expressividade.
Entre os mestres barrocos que se dedicaram ao gênero, destacam-se:
Marc-Antoine Charpentier (1643–1704) – Autor de vários Réquiems, como o célebre Messe des morts, H.10, que alia o contraponto francês a uma melancolia refinada.
André Campra (1660–1744) – Com seu Requiem, apresenta um estilo híbrido, fundindo elementos litúrgicos com a opulência da música cortesã.
Henry Purcell (1659–1695) – Embora não tenha composto um Réquiem completo, deixou o Funeral Music for Queen Mary, que guarda grande afinidade com a atmosfera fúnebre e solene da missa dos mortos.
Domenico Scarlatti (1685–1757) – Conhecido por suas sonatas para cravo, também escreveu música sacra, incluindo missas e composições para funerais que dialogam com o espírito do Réquiem.
O Réquiem barroco era marcado pelo uso de coros imponentes, baixo contínuo profundo e a alternância entre momentos de introspecção e passagens grandiloquentes, refletindo tanto o temor do juízo quanto a confiança na salvação.
O Réquiem no Classicismo
No Classicismo, a música assumiu maior clareza formal e equilíbrio harmônico, mas o Réquiem manteve seu caráter de intensidade espiritual. A orquestração passou a ter papel mais destacado, e a expressividade ganhou novos contornos, com melodias mais cantáveis e dramaticidade contida.
Entre os grandes compositores clássicos, destacam-se:
Wolfgang Amadeus Mozart (1756–1791) – Seu Requiem em ré menor, K. 626 é talvez a obra mais célebre do gênero. Inacabado devido à sua morte, tornou-se envolto em lendas e permanece como um dos mais pungentes testemunhos musicais sobre a mortalidade.
Luigi Cherubini (1760–1842) – Seu Requiem em dó menor foi admirado por Beethoven e toca pela sobriedade e força coral.
Michael Haydn (1737–1806) – Meio-irmão de Joseph Haydn, compôs um Requiem que influenciou profundamente o próprio Mozart.
Antonio Salieri (1750–1825) – Produziu um Requiem de grande impacto dramático, demonstrando a fusão entre clareza clássica e emoção intensa.
Nesse período, o Réquiem passou a ser tanto uma peça litúrgica quanto um espetáculo musical, capaz de comover plateias inteiras com sua mistura de devoção, arte e reflexão sobre a finitude.
O Réquiem no Romantismo
O Romantismo expandiu o horizonte expressivo do Réquiem. A grandiosidade orquestral e coral ganhou força, e o gênero passou a acolher não apenas a oração, mas também a catarse emocional e a exaltação da individualidade artística.
Hector Berlioz (1803–1869) – Seu monumental Grande Messe des morts mobiliza orquestra e coro de dimensões colossais, transformando a liturgia num drama sonoro arrebatador.
Giuseppe Verdi (1813–1901) – O Messa da Requiem é quase uma ópera sem encenação, com solos vocais dramáticos e um Dies irae que se tornou um dos trechos mais impactantes de toda a música sacra.
Antonín Dvořák (1841–1904) – Seu Requiem é profundamente lírico, fundindo a tradição católica com a sensibilidade boêmia.
Franz Liszt (1811–1886) – Embora mais conhecido por sua obra pianística, Liszt compôs um Requiem de caráter místico, refletindo sua religiosidade intensa.
O Romantismo levou o Réquiem para um território de subjetividade, onde o lamento e a esperança se misturam em escalas orquestrais grandiosas.
O Réquiem no Século XX
No século XX, a abordagem ao Réquiem diversificou-se, refletindo as crises, guerras e transformações culturais da modernidade. Muitos compositores mantiveram o texto litúrgico tradicional, enquanto outros o adaptaram ou reinventaram.
Gabriel Fauré (1845–1924) – Seu Requiem é singular por evitar o terror apocalíptico do Dies irae, preferindo uma atmosfera serena e consoladora.
Maurice Duruflé (1902–1986) – Inspirado por Fauré, compôs um Requiem que mescla o canto gregoriano com harmonias modernas, criando uma obra contemplativa e refinada.
Benjamin Britten (1913–1976) – O War Requiem combina o texto latino tradicional com poemas de Wilfred Owen, denunciando o horror da guerra e transformando o gênero em manifesto pacifista.
György Ligeti (1923–2006) – Seu Requiem explora sonoridades dissonantes e texturas vocais complexas, alcançando uma dimensão quase cósmica.
Entre o Sagrado e o Universal
Do esplendor barroco à modernidade, o Réquiem deixou de ser apenas uma liturgia para se tornar também um espaço de reflexão universal sobre a vida e a morte. Cada época imprimiu nele seus anseios e temores: no Barroco, a teatralidade; no Classicismo, o equilíbrio; no Romantismo, a paixão; no século XX, a busca de sentido em meio ao caos.
Essa trajetória mostra que, mesmo partindo de uma tradição católica, o Réquiem transcendeu fronteiras religiosas, tornando-se um patrimônio cultural da humanidade. Em cada nota, há um gesto de despedida e, ao mesmo tempo, uma promessa de que a música pode ecoar para além do tempo — como um sopro de eternidade.





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