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Smith e o Desconforto de Existir no Espetáculo

  • carlospessegatti
  • 23 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura


Smith* nunca conseguiu se encaixar direito. Não por inadequação, rebeldia ou incapacidade, mas porque algo parecia permanentemente fora de lugar. Ele sente demais, vê demais, ouve demais. Desliza o feed e sai exausto. Observa as pessoas e tem a nítida sensação de que existe um acordo coletivo do qual não participou. Todos parecem saber exatamente como viver, como se mostrar, como parecer felizes. Smith, não. O que ele sente com frequência é engano. A vida prometida não coincide com a vida entregue. Não se trata de inveja, mas de um desconforto persistente: a impressão de que algo está errado e ninguém quer nomear em voz alta.


Smith não está só. Quando certos conceitos começam a circular — como os ligados à produção social da ignorância, à estetização da vida e à captura da atenção — muitas pessoas se reconhecem neles não por interesse teórico, mas por alívio. O alívio de finalmente dar nome a uma sensação antiga, difusa, cotidiana. Talvez o que falte hoje não seja mais informação, mas ferramentas para organizar esse incômodo. Não teorias no sentido acadêmico estrito, mas chaves de leitura do mundo: conceitos capazes de tornar visíveis padrões que já operam silenciosamente.


A chamada Sociedade do Espetáculo, formulada por Guy Debord em 1967, é uma dessas chaves. O detalhe histórico importa. Em 1967 não existiam smartphones, redes sociais ou feeds infinitos. A mediação da experiência se dava sobretudo pela televisão e pelo rádio. As telas eram grandes, fixas, e o fluxo de imagens era limitado. Ainda assim, Debord já percebia que algo essencial estava escapando: a substituição progressiva da experiência direta por sua representação. Isso sugere que o problema talvez nunca tenha sido a tecnologia em si, mas o entusiasmo quase infantil com que aprendemos a trocar a vida pelo “faz de conta”.


Debord não partiu de abstrações distantes. Observava ruas, vitrines, anúncios, rotinas de trabalho, lazer e consumo. Identificou um deslocamento lento, porém profundo: a vida deixava de ser vivida em primeira pessoa e passava a ser acompanhada, comentada, assistida. Não era mais necessário sentir para saber que algo havia acontecido. Bastava ver. O impacto disso não é apenas social; é existencial.


Quando Debord fala em espetáculo, não se refere apenas à televisão ou à publicidade. O espetáculo é uma forma de organização social em que tudo passa a existir prioritariamente como imagem. Ele não nasce como ferramenta planejada. Primeiro acontece, como fenômeno humano emergente. Depois é observado, estudado e compreendido. A partir do momento em que um fenômeno social permite previsão e ajuste de conduta, ele deixa de ser apenas cultura. Torna-se sistema. E, nesse ponto, pode ser instrumentalizado por governos, corporações e instituições. Podem escolher não fazê-lo. Resta saber quem acredita nisso.


Pensar o espetáculo sem anestesia provoca náusea. É um exercício desconfortável. Dá vontade de interromper, desviar o olhar, voltar ao fluxo leve das imagens. Mas o espetáculo continua operando — silencioso, cotidiano, eficiente. Ele molda expectativas, frustrações e comportamentos enquanto a maioria tenta apenas viver, sem perceber que já reage dentro de um sistema que nunca perguntou se está tudo bem.


Hoje, essa lógica assume contornos quase caricatos. A vida virou feed. Corpos precisam obedecer a padrões, imagens precisam ser bonitas, refeições precisam parecer extraordinárias, viagens inesquecíveis, relacionamentos felizes. A vida não é mostrada como é, mas como deveria parecer. O cotidiano cansado, ambíguo e imperfeito fica fora do enquadramento. Entra em cena uma versão estética, calculada para gerar impacto positivo. Mesmo pessoas comuns passam a se vender sem perceber. Cada postagem funciona como uma pequena propaganda de si. O que começou como promessa de conexão termina como teatro coletivo.


Não por acaso lembra O Show de Truman. Com uma diferença decisiva: aqui não há protagonista. Todos são personagens e plateia ao mesmo tempo.


Talvez o aspecto mais perverso seja este: muitos ainda acreditam que não estão vendendo nada. Mas estão. Vendem dados, hábitos, padrões, previsibilidades. Cada curtida, cada postagem banal, cada rotina exposta compõe um retrato que não controlam. Não se sabe quem coleta essas informações, como são cruzadas ou como serão usadas. O espetáculo deixa de ser apenas imagem. Ele se converte em cálculo.


Esse sistema não precisa de vilões evidentes. Ele funciona porque se apresenta como escolha. Parece liberdade. Publica-se porque se quer, consome-se porque se gosta, reage-se porque se sente. Aos poucos, existir passa a significar ser visto. O silêncio incomoda. A vida não registrada parece incompleta. A experiência que não gera reação parece menor. O espetáculo vence quando não precisa ordenar. Basta sugerir.


Debord já havia percebido o efeito cumulativo desse processo: quanto mais imagens circulam, menos participação real existe. Quanto mais se comenta, menos se transforma. A política vira narrativa, a revolta vira estética, a crítica vira produto. Até a contestação pode ser absorvida, neutralizada e devolvida como conteúdo inofensivo.


É nesse ponto que a conexão com a agnotologia se torna evidente. Não há escassez de informação, mas rarefação de densidade. O excesso de imagens, opiniões instantâneas e emoções performáticas cria a sensação de estar informado, acompanhada de uma impotência constante. A realidade não desaparece — ela se dilui. A verdade não some — ela perde peso.


Aqui, Smith deixa de ser indivíduo e se torna multidão. Há muitos Smiths cansados, ansiosos, sentindo-se insuficientes diante de vidas que parecem sempre melhores do que as suas. Os efeitos são visíveis: corpos esgotados, mentes saturadas. A causa, porém, é mais difícil de enfrentar, porque não reside em alguém específico. Reside em uma lógica inteira de organização da vida.


Talvez o aspecto mais cruel seja este: quase todos sabem que algo está errado. Desconfiam do feed. Mesmo assim, continuam rolando, comparando, ajustando ângulos e emoções. Não por ingenuidade, mas porque sair do espetáculo exige silêncio, estranheza e presença.


A vida real raramente rende bons enquadramentos. Ela não pede curtidas, não avisa quando vai acontecer, não cabe em legenda. E enquanto tudo tenta ser transformado em cena, ela continua passando.


Cuidado, Smith: se você não tomar conta da sua cabeça, alguém vai.


Atena Cybele



*Smith, o protagonista de 1984, de George Orwell, é construído menos como um herói clássico e mais como um sujeito fraturado, um homem comum em conflito silencioso com a ordem totalitária que o envolve. Sua força literária está justamente nessa fragilidade.


Fisicamente, Winston Smith é descrito como um homem de aparência apagada, magro, frágil, com saúde debilitada. Sofre de dores constantes, varizes, tosse persistente. Seu corpo já denuncia o efeito do regime: é um corpo cansado, disciplinado pela escassez, pela vigilância e pelo medo. O Partido não precisa apenas controlar sua mente — o corpo de Smith já foi parcialmente vencido.


Psicologicamente, Smith vive em estado de desconforto permanente. Algo nele resiste, mesmo sem saber exatamente a quê. Ele sente que há uma mentira estrutural sustentando a realidade em que vive. Essa percepção não nasce de uma teoria política elaborada, mas de pequenas fissuras: lembranças confusas, contradições nos discursos oficiais, lapsos na memória coletiva. Smith intui que o mundo foi falsificado.


Sua relação com a memória é central. Ele trabalha justamente na reescrita do passado, alterando documentos para que a história se ajuste às necessidades do Partido. Essa função o coloca numa posição trágica: ele sabe que a verdade é manipulada porque participa ativamente dessa manipulação. Ainda assim, tenta se agarrar a fragmentos do real — lembranças de infância, imagens imprecisas, sensações corporais — como se nelas houvesse um resto de verdade não capturável.


Smith não é um revolucionário no sentido clássico. Não organiza movimentos, não lidera massas, não articula estratégias. Sua rebeldia começa de forma íntima e quase patética: escrever um diário, desejar, amar, lembrar. São gestos mínimos, mas explosivos em um regime que busca controlar não apenas ações, mas pensamentos. Seu crime não é político no sentido tradicional; é ontológico. Ele insiste em existir como sujeito.


A relação amorosa com Julia representa, para Smith, uma tentativa desesperada de recuperar a experiência direta da vida: o corpo, o prazer, o tempo não mediado pelo Partido. Mas mesmo esse espaço de aparente liberdade é frágil e provisório. Em 1984, o amor não é refúgio seguro; é apenas mais uma zona provisória antes da captura.


Smith também carrega uma ambiguidade fundamental: ele odeia o Partido, mas teme profundamente a dor. Seu limite não é ideológico, é físico e psicológico. Quando confrontado com a tortura, sua resistência se dissolve. Orwell não o constrói como mártir, mas como prova brutal da eficácia do poder totalitário quando alcança o interior da subjetividade.


Ao final, Smith é derrotado não apenas porque obedece, mas porque acredita. O Partido não quer apenas submissão; quer adesão. Quer que o sujeito ame aquilo que o destrói. A tragédia de Smith está em mostrar que, sob determinadas condições históricas e tecnológicas, a dominação não precisa mais da violência visível — ela se completa quando o indivíduo passa a vigiar, corrigir e trair a si mesmo.


Smith, assim, não é apenas um personagem literário. Ele é uma figura-limite da modernidade: o sujeito que ainda percebe que algo está errado, mas já não possui forças, linguagem ou memória suficientes para sustentar essa percepção até o fim.





 
 
 

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