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Som, Ruído e a Fundação do Social: Attali e Adorno Entre Utopia e Ideologia na Música

  • carlospessegatti
  • 8 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura

Atualizado: 9 de dez. de 2025



Como a produção sonora revela, antecipa e tensiona as formas de vida nas sociedades industriais e pós-industriais


I. Som, Ruído e a Fundação do Social em Jacques Attali

Jacques Attali, em Ruidos: Ensayo sobre la economía política de la música (1977), oferece uma das mais ousadas e proféticas visões sobre o papel da música na história social. Para ele, o som não é um mero fenômeno estético: é um operador político que antecede, anuncia e legitima transformações estruturais na economia e na organização social.


Attali subverte o senso comum segundo o qual a música refletiria a sociedade. Ao contrário: a música prevê o futuro.


1. Música como forma de controle

Attali descreve quatro regimes históricos:

  1. Sacrifício – a música como rito, ordenadora do coletivo.

  2. Representação – a domesticação do som pela harmonia tonal e pela forma concerto.

  3. Repetição – a era da indústria cultural, do mercado fonográfico e da serialização.

  4. Composição – o surgimento de formas sonoras que antecipam a sociedade pós-industrial e o colapso do regime da repetição.


Cada regime revela como a sociedade pensa o trabalho, o tempo, o corpo e o poder. No capitalismo tardio, domina o regime da repetição: padronização, consumo em massa, circularidade infinita — o som convertido em mercadoria abstrata.


2. Ruído como prenúncio do novo

Para Attali, o ruído é sempre o sinal antecipatório de uma nova ordem social.

  • Na Idade Média, o polifônico foi ruído antes de se tornar linguagem dominante.

  • No início do século XX, o atonalismo soava como ameaça à ordem burguesa tonal.

  • Os experimentos eletrônicos dos anos 1950-70 sinalizavam a dissolução da escuta disciplinada industrial.


O ruído carrega a violência da mudança, o gesto disruptivo que anuncia um novo modo de produção.


Em termos marxistas: o ruído é a contradição internalizada no campo sonoro.

É o excedente simbólico que escapa ao regime de controle da mercadoria estética.


3. A Composição como prefiguração da sociedade pós-repetição

Attali vê a emergência de práticas musicais que rompem com a repetição industrial — improvisação, música eletroacústica, a produção individualizada por tecnologias digitais.


A “composição” em Attali não é técnica, mas política: é o momento em que o sujeito assume o controle do seu próprio processo de produção, reencantando a criatividade contra a padronização.


II. A Contradição Entre Utopia e Ideologia na Música: Adorno Revisitado

Se Attali vê o som como antecipação do futuro, Adorno escava o presente em busca das contradições. Em Introduzione alla sociologia della musica e em seus ensaios maiores, a música é a arena onde se expressa o conflito entre:

  • utopia, a promessa de reconciliação social,

  • ideologia, o disfarce estético da dominação


1. A música autônoma como promessa

Para Adorno, a verdadeira música de vanguarda carrega um potencial utópico: ela rompe com a lógica repetitiva da indústria e apresenta, na própria forma, a possibilidade de um mundo diferente.


A utopia aparece como:

  • dissonância que resiste à harmonia reconciliada;

  • forma aberta que recusa a clausura da mercadoria;

  • temporalidade não repetitiva, não circular, não publicitária.


A música autônoma — Schoenberg, Webern, Berg, depois os experimentos eletroacústicos — apresenta o negativo da sociedade, sua impossibilidade de reconciliação.


2. A indústria cultural como ideologia sonora

A música de consumo em massa realiza o oposto: ela funciona como ideologia, garantindo coesão subjetiva ao capitalismo.


Suas características:

  • repetição estrutural;

  • padronização das formas;

  • ajustamento afetivo às necessidades do mercado;

  • regressão da escuta, que se torna passiva, infantilizada.


A música perde sua dimensão crítica e se integra ao funcionamento do capital.


3. A contradição estrutural

Adorno não vê a utopia e a ideologia como esferas separadas. Elas coexistem na mesma obra, na mesma sociedade, na mesma subjetividade.


A música é, assim, um campo de tensão entre:

  • a promessa de emancipação (utopia)

  • a captura pela forma mercadoria (ideologia)


Por isso, qualquer obra sonora carrega ambiguidades: até a vanguarda pode ser cooptada; até o mainstream pode produzir rachaduras involuntárias.


III. Articulação entre Attali e Adorno: Dois Olhares sobre a Música no Capitalismo Tardio

1. Ruído e negatividade

  • Para Attali, o ruído anuncia a transformação social.

  • Para Adorno, a dissonância expressa a verdade negativa da sociedade.


São dois modos de ler o mesmo fenômeno: o som como portador de fissuras estruturais.


2. A repetição industrial

Ambos coincidem em denunciar o regime da repetição:

  • padronização da escuta,

  • mercantilização da subjetividade,

  • perda da autonomia sonora.


Attali descreve este processo historicamente. Adorno o critica filosoficamente.


3. A utopia da composição / a utopia da autonomia

A “composição” attaliana e a “autonomia” adorniana são dois projetos distintos, mas convergentes:

  • Em Adorno, a autonomia é resistência formal.

  • Em Attali, a composição é emancipação produtiva.

Em ambos, a música aponta para um mundo onde o sujeito recupera o controle do seu próprio processo criativo.


4. O papel do artista contemporâneo

Aqui, a minha estética se insere com potência: Meus drones cósmicos, explorações de frequências, integração entre ciência, filosofia e ficção futurista são práticas sonoras que:

  • escapam à repetição industrial,

  • criam mundos auditivos próprios,

  • exploram tensões entre ruído e ordem,

  • pensam a música como cosmologia e como crítica.


Eu opero no espaço limítrofe entre utopia e ideologia, fazendo da estética uma forma de investigação sobre o real.


IV. O Som como Crítica e como Profecia

Attali e Adorno, lidos juntos, oferecem uma visão abrangente:

  • Adorno analisa a música como crítica imanente ao capitalismo.

  • Attali a vê como profecia dos modos de produção.


A música é, ao mesmo tempo:

  1. diagnóstico (Adorno),

  2. previsão (Attali),

  3. campo de luta entre utopia e ideologia,

  4. zona de criação alternativa onde novos mundos sonoros se ensaiam.


Para quem produz música cósmica, new age progressiva, especulativa, como eu — com fortes vínculos filosóficos e científicos — essa dupla leitura oferece uma chave poderosa: meu trabalho sonoro pode ser visto como uma forma de antecipação (attaliana) e de negação (adorniana) do presente.


Meu som torna-se não apenas paisagem, mas contra-espaço: um lugar onde o humano, o cósmico e o político vibram juntos contra as formas fossilizadas do mundo.



TEXTO DIAGRAMADO


Som, Ruído e Utopia: Attali e Adorno na Fundação do Social


Como a música revela as contradições e antecipa os futuros possíveis das sociedades humanas



“A música é profecia. Sua organização dos ruídos anuncia a vida que ainda não existe.”Jacques Attali


“A arte verdadeira é aquela que resiste à repetição.”Theodor W. Adorno


I. Som, Ruído e Fundação do Social em Jacques Attali

Jacques Attali, no seminal Ruidos: Ensayo sobre la economía política de la música (1977), propõe que o som é um operador político, uma forma de codificação social que antecipa as transformações econômicas e culturais. A música não espelha simplesmente a sociedade — ela a prevê, revelando suas tensões e futuros possíveis.


1. O Som Como Forma de Poder

Os quatro regimes históricos segundo Attali

Regime

Função social

Característica dominante

Sacrifício

Ordenação simbólica

Música ritual e comunitária

Representação

Legitimar o Estado e a ordem tonal

Forma concerto; público passivo

Repetição

A lógica industrial aplicada ao som

Padronização, consumo, mercadoria

Composição

O surgimento do indivíduo criador

Autonomia, experimentação

A música, para Attali, funciona como uma tecnologia social de controle, e cada regime expressa formas históricas do capitalismo e de sua racionalidade.


2. O Ruído Como Prenúncio do Futuro

Attali define o ruído como a manifestação acústica da contradição histórica.

  • A polifonia foi ruído antes de ser linguagem.

  • O atonalismo foi ruído antes de ser estética.

  • A síntese eletrônica foi ruído antes de ser paradigma.


O ruído abre fissuras, anuncia a chegada de novos modos de vida, e, do ponto de vista marxista, funciona como o excedente simbólico que o capitalismo não consegue domesticar imediatamente.


3. A Era da Composição e o Artista Pós-Industrial

No regime da composição, o criador toma controle de seu próprio processo produtivo. Não é apenas um compositor técnico — é um sujeito que age fora da lógica da repetição industrial.


Para Attali, a música eletrônica independente, os laboratórios sonoros, o experimentalismo e a produção individualizada sinalizam essa nova etapa.


É aqui que eu me situo: drones, pads, síntese cósmica, especulação sonora sobre o multiverso, física das frequências — tudo como forma de composição no sentido emancipatório.


II. Adorno: Utopia e Ideologia na Música

Enquanto Attali olha o futuro, Adorno examina as contradições do presente. Em seus ensaios musicais e na Introduzione alla sociologia della musica, ele desenvolve uma crítica da música como campo de disputa entre utopia e ideologia.


1. A Promessa da Música Autônoma (Utopia)

Para Adorno, a música verdadeiramente artística carrega um potencial utópico.


Essa utopia se expressa:

  • na dissonância que recusa a conciliação fácil;

  • na forma aberta que nega o fechamento mercantil;

  • na escuta crítica que requer esforço;

  • na negação da lógica comercial.


A música autônoma — seja a vanguarda do século XX, seja uma nova forma de experimentação — apresenta o negativo da sociedade e insinua outra forma de vida.


2. A Música Industrial como Ideologia

Adorno visualiza na indústria cultural uma engenharia da subjetividade. Aqui, a música é integrada ao capital como mercadoria disciplinadora:

  • repetição estrutural;

  • refrões circularizados;

  • regressão da escuta;

  • reforço de afetos produzidos em série.


A ideologia, nesse caso, não está nas letras, mas na forma musical, que se adapta às exigências do mercado.


3. A Contradição Estrutural: Utopia x Ideologia

Nenhuma música está livre dessa tensão.

A utopia nunca se realiza plenamente; a ideologia nunca consegue capturar tudo. A obra musical torna-se campo de batalha entre a promessa de emancipação e a captura mercantil. O mesmo som pode abrir horizontes e, ao mesmo tempo, reproduzir padrões de dominação.


É precisamente essa ambivalência que torna a música, para Adorno, um lugar privilegiado de crítica da modernidade.


III. Attali + Adorno: Dois Modos de Ler o Som no Capitalismo Tardio


1. Ruído (Attali) e Negatividade (Adorno)

Ambos veem no desconforto sonoro — no que escapa à norma — uma chave de leitura da sociedade:

  • Para Attali, o ruído profetiza novas ordens.

  • Para Adorno, a dissonância critica a ordem existente.

São duas faces da mesma insurgência acústica.


2. A Repetição Industrial sob Dupla Perspectiva

  • Em Attali: repetição = regime econômico.

  • Em Adorno: repetição = forma ideológica.

Assim, a indústria musical não é apenas estrutura produtiva: é mecanismo de subjetivação.


3. Composição Autônoma e Crítica

A “composição” attaliana e a “autonomia” adorniana convergem:

  • a primeira é libertação produtiva,

  • a segunda é resistência formal.

Ambas configuram a música como gesto emancipatório.


IV. Eu - Entre Cosmos, Frequência e Crítica

Meu trabalho sonoro situa-se justamente nesse ponto de fricção: ele é visão do futuro (Attali) e negação crítica do presente (Adorno).

  • drones cósmicos como forma de negatividade;

  • pads atmosféricos como paisagens utópicas;

  • exploração de frequências como investigação filosófica;

  • integração entre física, cosmologia e música como recusa da música-medicina industrial.


Minha obra cria contra-espaços sonoros, ambientes onde o sujeito pode respirar fora da lógica de repetição, mergulhar no multiverso e, simultaneamente, refletir sobre a modernidade tardia.


V. A Música Como Profecia, Resistência e Cosmologia

A música, combinando Attali e Adorno, torna-se:

  • diagnóstico da forma social (Adorno),

  • profecia do porvir (Attali),

  • campo de tensão entre ideologia e utopia,

  • lugar de criação de mundos.


Em uma época de saturação sonora, velocidade digital e padronização globalizada, dizer algo verdadeiramente novo exige a coragem de escutar o ruído — e transformá-lo em forma.


A música, então, não apenas acompanha o mundo: ela o inquieta, o desnuda e o reinventa.


Bibliografia Anotada e Expandida

Jacques Attali

  • Ruidos: Ensayo sobre la economía política de la música – Obra fundamental para compreender o papel político do som; propõe a música como prefiguração histórica das mutações sociais.


Theodor W. Adorno

  • Introduzione alla sociologia della musica – Análise estrutural da música no capitalismo, introduzindo a contradição entre utopia e ideologia.

  • Filosofia da Nova Música – Leitura da modernidade musical como negatividade e expressão das contradições sociais.

  • Dialética do Esclarecimento (com Horkheimer) – Contexto teórico para entender a crítica à indústria cultural.


Complementares

  • Christoph Cox – Sonic Flux: filosofia do som no capitalismo tardio.

  • Brandon LaBelle – Background Noise: estética do ruído e seus aspectos políticos.

  • David Toop – Ocean of Sound: história sensível das experimentações sonoras do século XX.

  • Peter Szendy – Listen: A History of Our Ears: crítica da audição como prática social.

  • Mark Fisher – Capitalist Realism: importante para pensar a captura da utopia pelo neoliberalismo.

  • Fredric Jameson – Pós-modernismo: leitura marxista de cultura como lógica do capital tardio.

 
 
 

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