Spinoza: Ética e o Amor Intelectual à Natureza
- carlospessegatti
- 17 de jun. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 18 de jun. de 2025

COLEÇÃO: SÉRIE FILOSÓFICA
A geometria da liberdade e a alegria da compreensão no seio da imanência cósmica
“A beatitude não é o prêmio da virtude, mas a própria virtude; e não a gozamos por dominarmos nossas paixões, mas, ao contrário, porque a gozamos, podemos dominar nossas paixões.”— Spinoza, Ética, Parte V, proposição XLII
A Ética demonstrada segundo a ordem geométrica de Baruch Spinoza é uma das obras mais radicais já escritas sobre a condição humana. Não apenas pelo conteúdo, mas pela forma: um tratado ético-metafísico que se recusa a ser subjetivo ou retórico, e se apresenta com a precisão de Euclides. Nela, Spinoza desmonta as ilusões religiosas, a moral tradicional e a ideia de livre-arbítrio, para construir, a partir da razão e da imanência, uma nova concepção de liberdade, alegria e eternidade.
1. Deus sive Natura: a imanência como princípio
“Tudo quanto é, é em Deus e nada pode ser nem ser concebido sem Deus.”— Ética, Parte I, proposição XV
Deus não é uma entidade pessoal, fora do mundo, mas a própria Natureza em sua substância infinita. Esta fórmula célebre — Deus sive Natura — revela a ruptura definitiva com o teísmo judaico-cristão. Em Spinoza, o divino não julga, não pune, não se afasta: é pura potência de existir e de se expressar.
Cada coisa finita — uma pedra, um corpo, um pensamento — é um modo de Deus, isto é, uma modulação da substância infinita. Isso estabelece uma ontologia vibracional, onde tudo o que existe participa do mesmo ritmo ontológico. Essa visão é, de certo modo, compatível com as visões contemporâneas que eu evoco em minha música: universos feitos de frequências, campos de energia, ritmos cósmicos.
2. Liberdade: compreender é tornar-se causa de si
“O homem livre, isto é, o que vive segundo os mandamentos da razão, não é conduzido pelo temor da morte, mas deseja o bem diretamente.”— Ética, Parte IV, proposição LXVII
Liberdade não é fazer o que se quer, mas entender por que queremos o que queremos. Para Spinoza, somos livres quando deixamos de ser arrastados pelas paixões cegas — ódio, medo, inveja — e compreendemos suas causas. O conhecimento racional transforma as paixões passivas em ações. A liberdade, nesse sentido, é uma forma de potência esclarecida.
Esse princípio pode ser lido como uma crítica precoce ao que, mais tarde, a teoria marxista chamará de “alienação”. A servidão que Spinoza denuncia é da mesma ordem: somos governados por forças que não compreendemos, ideologias disfarçadas de natureza, paixões transformadas em dogmas.
3. O conatus e a política do desejo
“Cada coisa, na medida em que está em si, esforça-se por perseverar em seu ser.”— Ética, Parte III, proposição VI
Spinoza introduz o conceito de conatus, o esforço de existir que constitui a essência de cada ser. Não se trata de um desejo moral, mas de uma tendência natural, uma vibração ontológica. O ser humano, como todos os modos de Deus, tende a perseverar no ser, a aumentar sua potência.
Aqui Spinoza antecipa o que mais tarde influenciará pensadores como Nietzsche (vontade de potência), Marx (força produtiva) e Deleuze (desejo como máquina). A ética spinozana é, portanto, uma política da afirmação: aumentar a potência de existir é tornar-se mais livre, mais racional, mais alegre.
4. Amor Dei Intellectualis: a alegria de compreender o mundo
“O amor intelectual de Deus é a alegria que nasce da ideia de Deus, considerada como causa.”— Ética, Parte V, proposição XXXII
O ponto culminante da Ética é a descoberta de um tipo de amor que não é passional, mas intelectual: o amor que surge ao compreendermos que somos parte de uma ordem infinita. Esse amor não depende de crença, mas de intuição racional. Ele é silencioso, pleno, sereno — e nos reconcilia com a eternidade.
A música que produzo, ao buscar harmonias cósmicas, paisagens sonoras que evocam o tempo profundo e o espaço interno, está em diálogo com este amor intelectual. A busca por vibrar em consonância com a ordem do real — com as cordas do universo ou com a dança quântica da existência — é uma forma moderna de beatitudo.
5. Atualidade e potência do pensamento spinozano
Spinoza nos oferece um caminho ético alternativo ao niilismo e ao moralismo. Em vez de valores transcendentes, propõe uma ética da imanência, da alegria racional, da compreensão do mundo como ele é. Sua crítica ao medo, à culpa e à superstição ainda ressoa em um mundo saturado de algoritmos emocionais e biopolítica.
Se hoje vivemos sob a vigilância da técnica, a colonização das subjetividades e a exploração dos afetos (como venho desenvolvendo na série Governamentalidade Algorítmica), Spinoza pode ser um aliado poderoso. Seu pensamento é, em essência, anticapitalista, pois afirma uma vida que não se define pelo consumo, pela propriedade ou pela performance, mas pela potência de existir em liberdade.
Notas de Rodapé
O estilo geométrico da Ética não é apenas forma: é uma estratégia para substituir a autoridade da revelação religiosa pela demonstração racional.
A crítica de Spinoza à religião institucional o colocou sob excomunhão (herem) ainda jovem. Foi marginalizado, mas não recuou de sua proposta de uma espiritualidade sem clero.
O conceito de "afeto" em Spinoza antecipa, de forma profunda, a teoria dos afetos em Deleuze, Negri e na psicanálise política contemporânea.
Spinoza é considerado o “mestre da imanência” e um dos precursores da ecologia filosófica, por entender o ser humano como parte da Natureza e não como seu dominador.



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