ULYSSES, DE JAMES JOYCE - O Labirinto da Consciência Moderna: Dublin como Microcosmo do Mundo
- carlospessegatti
- 2 de ago. de 2025
- 4 min de leitura

“A história é um pesadelo do qual estou tentando acordar.”— Stephen Dedalus, em Ulysses
I. Uma Odisseia do Cotidiano
Lançado em 1922, no mesmo ano de The Waste Land, de T. S. Eliot, Ulysses é, mais que um romance, um monumento literário da modernidade. Escrito por James Joyce, irlandês, autodidata e exilado, o livro se passa inteiramente no dia 16 de junho de 1904, em Dublin, e narra, de forma entrelaçada, as experiências de três personagens principais: Stephen Dedalus, o jovem artista em crise filosófica; Leopold Bloom, um judeu irlandês errante; e Molly Bloom, sua esposa, que encerra o livro com um dos monólogos mais sensuais e revolucionários da história da literatura.
Joyce transpõe para o cenário irlandês a estrutura da Odisseia, de Homero — Bloom é Ulisses, Stephen é Telêmaco, Molly é Penélope —, mas substitui os feitos heroicos por atos ordinários, elevando o banal ao épico. É a odisseia da consciência moderna, onde o verdadeiro campo de batalha é interno, linguístico e simbólico.
II. Uma Arquitetura em 18 Episódios
Ulysses é composto por 18 capítulos, cada um com estilo e técnica narrativa distintos — indo da paródia à escrita jornalística, do catecismo ao monólogo interior — como se o próprio texto estivesse sendo moldado pelas camadas psíquicas dos seus personagens.
Cada capítulo corresponde a um episódio da Odisseia original e a uma parte do corpo humano, como sugerido por esquemas paralelos elaborados pelo próprio Joyce. A obra pode ser dividida em três partes:
Telemaquia (Capítulos 1 a 3): centrada em Stephen Dedalus;
Odisseia (Capítulos 4 a 15): jornada de Leopold Bloom;
Nostos (Capítulos 16 a 18): retorno e conclusão, inclusive com o monólogo de Molly.
III. Estilo e Invenção: A Linguagem como Experimento
Joyce é considerado um inventor da linguagem moderna. Ele rompe com as convenções do romance do século XIX ao adotar o fluxo de consciência (stream of consciousness), técnica que registra o pensamento em sua forma bruta, caótica, não linear.
A linguagem do livro é mutante: a cada capítulo, um novo estilo, vocabulário e ritmo — Joyce mimetiza o pensamento, os ruídos da cidade, os ruídos do corpo, as hesitações do desejo, as referências míticas, as deformações linguísticas. Ulysses é também uma crítica da linguagem e da própria ideia de representação.
“Significados são escombros. A linguagem é apenas uma sombra em fuga.”— Epígrafe possível para Ulysses
IV. Dublin como Palimpsesto
A cidade de Dublin é personagem tanto quanto os protagonistas humanos. Joyce reconstitui, com obsessiva precisão, a topografia urbana e social de sua cidade natal — bares, bibliotecas, ruas, bordéis, padarias — transformando o espaço urbano em espelho do mundo moderno.
É Dublin, mas poderia ser Paris, São Paulo, Recife ou Nova York. A cidade se torna uma metáfora do labirinto interior, um território onde o tempo cronológico (o dia 16 de junho) é atravessado por fluxos de tempo subjetivos, memórias, sonhos, traumas e alusões culturais que remontam ao mito, à Bíblia, à cultura greco-romana e à psicanálise.
V. Bloom, Stephen e a Questão da Identidade
Leopold Bloom, judeu, publicitário, é um herói ordinário. Sua peregrinação não tem glória: ele compra um rim de porco, caminha, entra em um prostíbulo, tenta compreender a traição da esposa. Mas é nesse cotidiano que reside a grandeza do humano. Bloom representa a condição pós-heroica da modernidade: deslocado, fragmentado, mas profundamente humano.
Stephen Dedalus, por sua vez, é o jovem intelectual que busca um lugar no mundo. Filho órfão de mãe, perseguido pela memória da culpa e pela figura paterna ausente, ele é o artista que busca sentido, mas encontra a linguagem como abismo. Sua trajetória toca questões de fé, história e arte — sua recusa à Igreja e ao Estado ecoa o desejo de ser livre, mas também o peso do exílio interior.
VI. Molly Bloom: A Voz que Transgride
O livro termina com o monólogo de Molly Bloom, fluxo ininterrupto de palavras, sem pontuação, que exibe sua consciência em estado puro. Aqui, a linguagem atinge um clímax sensual, emocional e afirmativo. Molly fala do corpo, do sexo, do amor, da maternidade, da traição — e termina com o famoso "Sim" repetido como um hino à vida e ao desejo:
“...e então pedi a ele sim e ele me disse sim diga sim minha flor da montanha e primeiro eu pus meus braços em volta dele sim e puxei-o para mim para que ele sentisse meus seios todo perfume sim e seu coração batia como louco e sim eu disse sim eu quero sim.”— Ulysses, capítulo 18
Este final, escrito por um homem, mas com a voz de uma mulher, ainda hoje é objeto de debates sobre feminilidade, representação e linguagem.
VII. Uma Obra Inacabável
Ler Ulysses é aceitar o desafio de perder-se. É uma obra que não se fecha, que escapa a resumos fáceis e que exige do leitor uma entrega total. Como leitor, você não atravessa o livro: é o livro que atravessa você. Cada releitura revela novas camadas, novos labirintos.
É, como o próprio Joyce desejava, uma obra para ser estudada ao longo de toda a vida.
VIII. Epílogos para a Eternidade
Em Ulysses, James Joyce revoluciona a literatura ocidental ao apresentar um novo modo de ver o mundo: fragmentado, urbano, rizomático, plural e profundamente humano. Ele transforma o ordinário em extraordinário e mostra que, mesmo na repetição dos dias, há poesia, mito e eternidade.
“A vida de cada um é a única coisa que lhe pertence de verdade — e o único épico possível é vivê-la com consciência.”— Leitura livre inspirada em Joyce




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