A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica (Walter Benjamin)“
- carlospessegatti
- há 3 dias
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A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica (Walter Benjamin)
“O que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da obra de arte é a sua aura.” — Walter Benjamin“
Aura é a aparição única de uma coisa distante, por mais próxima que ela esteja.” — Walter Benjamin“
A história é o tempo saturado de agoras.” — Walter Benjamin“
Toda obra de cultura é também um documento de barbárie.” — Walter Benjamin“
Introdução — Benjamin, Técnica, Fetichismo e a Crise da Experiência
“Não há documento de cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento de barbárie.” — Walter Benjamin
O ensaio “A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica” (1935–1939) constitui uma das mais rigorosas análises materialistas da cultura no capitalismo avançado. Nele, Walter Benjamin articula estética, técnica e política a partir de uma perspectiva profundamente marcada pelo marxismo heterodoxo, recusando tanto o economicismo vulgar quanto o idealismo cultural.
Benjamin escreve sob o impacto da industrialização da cultura, da ascensão do fascismo e da transformação das massas em público consumidor. A arte, nesse contexto, deixa de ser um domínio separado da vida social para tornar-se campo de disputa ideológica, atravessado pelas relações de produção, pela técnica e pela luta de classes.
A crise que Benjamin diagnostica é, antes de tudo, uma crise da experiência (Erfahrung): a experiência profunda, acumulativa, histórica, é substituída pela vivência fragmentada (Erlebnis), típica da modernidade capitalista. A técnica, mediada pelo mercado, reorganiza não apenas a obra de arte, mas o próprio modo como os sujeitos percebem, sentem e desejam.
Estrutura do Texto e Comentário Capítulo a Capítulo
O ensaio não possui capítulos tradicionais, mas é composto por teses fragmentárias numeradas. Abaixo, uma reconstrução didática em blocos conceituais.
1. A Reprodutibilidade Técnica e a Transformação da Arte
Benjamin parte de uma constatação histórica: sempre foi possível copiar obras de arte, mas a modernidade inaugura uma reprodutibilidade em massa, automática, industrial.
A xilogravura, a imprensa, a litografia, a fotografia e o cinema transformam a circulação das imagens.
A obra deixa de ser um objeto único, situado em um lugar e tempo específicos.
Ideia central: a técnica não é neutra; ela redefine o modo de existência da obra.
2. O Conceito de Aura
Aura é a “unicidade de uma aparição distante, por mais próxima que esteja”.
A aura é a experiência de singularidade, autenticidade e presença irrepetível da obra.
Elementos da aura:
Originalidade
Tradição
Ritual
Autoridade histórica
Distância reverencial
A reprodução técnica destrói a aura, pois:
Multiplica cópias idênticas
Desloca a obra do contexto ritual
Aproxima o objeto do espectador de modo banalizado
Consequência ontológica: a obra deixa de ser um evento singular e torna-se um objeto circulante.
3. Do Valor de Culto ao Valor de Exposição
Benjamin propõe uma distinção fundamental:
Valor de culto
A obra ligada ao ritual, religião, tradição
Importa sua existência, não sua visibilidade
Valor de exposição
A obra existe para ser vista, exibida, consumida
O público torna-se massa
A reprodutibilidade desloca a arte do sagrado para o espetáculo.
4. Fotografia, Cinema e a Nova Percepção
O cinema é o ponto culminante da reprodutibilidade técnica.
Benjamin argumenta que:
O cinema fragmenta a realidade (montagem, close-up, câmera lenta)
O ator perde a aura (atua diante da câmera, não do público)
O espectador torna-se crítico involuntário, treinado pela técnica
A técnica transforma a percepção sensível, criando um novo regime estético.
5. A Estetização da Política e a Politização da Arte
Este é o núcleo político do ensaio.
Fascismo: estetização da política
Transformar a política em espetáculo
Celebrar a guerra como experiência estética
Manter as massas sem alterar as relações de produção
Comunismo: politização da arte
Usar a arte como crítica social
Desmistificar a aura e as ideologias
Transformar a percepção coletiva
Benjamin vê no cinema e nas técnicas modernas um potencial revolucionário, desde que politicamente orientado.
6. O Fim do Autor e a Nova Função Social da Arte
A reprodutibilidade dissolve o culto ao gênio artístico.
A obra torna-se colaborativa (montagem, indústria cultural)
O público pode tornar-se produtor
A distinção entre autor e espectador começa a ruir
Benjamin antecipa debates posteriores sobre cultura participativa, remix e mídia digital.
Síntese das Teses Fundamentais de Benjamin
A técnica transforma o ser da obra de arte de modo historicamente determinado pelas relações de produção.
A aura não desaparece por acaso: ela é dissolvida pela lógica mercantil da reprodução em massa.
O valor ritual é substituído pelo valor de exposição, acompanhando a subsunção da cultura ao capital.
A percepção humana é moldada pela técnica e pela ideologia dominante.
O fascismo estetiza a política para preservar as estruturas de dominação.
A arte só se torna emancipadora quando politizada contra a lógica do capital.
A Escola de Frankfurt e a Teoria Crítica
A Escola de Frankfurt desenvolveu uma crítica radical da modernidade capitalista, articulando Marx, Freud, Weber e filosofia dialética.
Theodor Adorno — Indústria Cultural e Fetichismo Estético
“Divertir-se significa estar de acordo.” — Adorno & Horkheimer
Indústria Cultural
Adorno argumenta que a cultura, no capitalismo tardio, torna-se indústria:
Padronização
Serialização
Mercantilização da arte
A obra perde autonomia crítica e torna-se mercadoria ideológica.
Crítica a Benjamin
Adorno concorda com a perda da aura, mas é mais pessimista:
A técnica tende a capturar a arte para o mercado
O cinema e a música popular reforçam a dominação simbólica
Para Adorno, a verdadeira arte crítica é a arte autônoma, difícil, negativa (Schoenberg, Kafka, Beckett).
Jürgen Habermas — Razão Comunicativa e Modernidade Inacabada
“A modernidade é um projeto inacabado.” — Habermas
Habermas representa a segunda geração da Escola de Frankfurt.
Teoria do Agir Comunicativo
A racionalidade não é apenas instrumental (técnica), mas comunicativa
A linguagem é espaço de consenso e crítica
A esfera pública é fundamental para a democracia
Diferença em relação a Benjamin e Adorno
Menos pessimista quanto à técnica
Confia na deliberação racional e na democracia discursiva
Vê potencial emancipatório na comunicação pública
Benjamin, Adorno e Habermas — Convergências e Tensões
Pensador | Visão da Técnica | Arte | Política |
Benjamin | Ambivalente (emancipação ou fascismo) | Politizar a arte | Revolução perceptiva |
Adorno | Predominantemente crítica | Autonomia estética | Negatividade crítica |
Habermas | Moderadamente otimista | Cultura comunicativa | Democracia deliberativa |
Atualidade do Ensaio de Benjamin — IA, Música Eletrônica e a Aura Digital
Na era digital, a reprodutibilidade técnica atinge um novo limiar ontológico.
IA generativa, algoritmos de recomendação, remix automático e síntese sonora radicalizam a separação entre criação e autoria.
A obra musical torna-se fluxo: stream, preset, banco de dados, drone contínuo.
A aura não desaparece — ela migra.
Na música eletrônica, nos pads, drones, paisagens sonoras e ambientes imersivos, a aura desloca-se do objeto para a experiência temporal, para o estado de escuta, para a relação corpo–frequência–espaço.
A assinatura deixa de ser o gesto autoral clássico e passa a residir:
na curadoria de timbres,
na arquitetura do som,
na criação de atmosferas que suspendem o tempo cronológico.
Entretanto, sob o capitalismo de plataformas, essa mesma técnica é capturada pelo fetichismo algorítmico:
playlists substituem a escuta atenta;
métricas substituem sentido;
a música torna-se dado circulante.
Benjamin antecipa este dilema: a técnica pode abrir portais de sensibilidade ou reforçar a dominação simbólica.
Conclusão — A Arte como Campo de Batalha Ontológico, Político e Sonoro
“A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica” é uma ontologia materialista da cultura moderna. Benjamin demonstra que a arte não existe fora da história nem acima das classes: ela é atravessada pela técnica, pela economia política e pela luta pelo controle da sensibilidade.
No capitalismo tardio e digital, a cultura torna-se infraestrutura simbólica da acumulação, mas também território de resistência estética. A música experimental, os ambientes sonoros, a recusa da forma mercadoria e a criação de experiências não utilitárias mantêm viva a possibilidade de uma escuta não colonizada.
A Teoria Crítica, de Benjamin a Adorno e Habermas, nos lembra que a emancipação não começa apenas na economia ou na política institucional, mas na transformação dos modos de perceber, ouvir e habitar o tempo.
A pergunta de Benjamin permanece, agora amplificada por algoritmos e inteligências artificiais:
a técnica libertará a sensibilidade humana — ou a converterá definitivamente em mercadoria total?
Posfácio — Manifesto pela Escuta Crítica em Tempos de Algoritmos
“A tarefa da arte não é adornar o mundo, mas revelar suas fraturas.”
Este texto não se encerra como comentário acadêmico, mas como chamado estético-político. Na era dos algoritmos, da automação criativa e da reprodução infinita, a questão central já não é apenas o que se cria, mas como se escuta, como se percebe e como se habita o tempo.
Se, como ensinou Marx, o fetichismo da mercadoria encobre as relações sociais que a produzem, hoje vivemos um fetichismo algorítmico: sistemas técnicos que aparentam neutralidade, mas organizam o sensível segundo a lógica da acumulação, da previsibilidade e do controle.
A música — especialmente a música experimental, eletrônica, ambiental, de drones e paisagens sonoras — torna-se um dos últimos territórios onde ainda é possível resistir à forma mercadoria do tempo. Ao suspender a linearidade, ao dissolver o refrão, ao recusar o clímax, ela desprograma o ouvinte treinado pela




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