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Hécate: As Margens do Mundo e a Sabedoria do Limiar

  • carlospessegatti
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura


Série Mitológica: Deuses antigos para um mundo em crise


“É nos estados de exceção que a verdade do sistema se revela.”— Walter Benjamin


“Há deuses que reinam sobre o centro.Hécate governa aquilo que ninguém quer ver.”


Depois do tempo que devora (Kronos) e do tempo que se abre como escuta (Kairós), chegamos à deusa que habita o entre.Nem antes, nem depois.Nem aqui, nem lá.


Hécate é a senhora das margens, das encruzilhadas, dos espaços onde o mundo perde contorno e as identidades vacilam. Ela não pertence ao Olimpo luminoso, mas tampouco ao Hades absoluto. Seu território é o limiar — essa zona incômoda onde as classificações falham e a razão hegemônica se sente ameaçada.


A Deusa que Não Habita o Centro

“Toda forma que se pretende total acaba produzindo aquilo que exclui.”— Edgar Morin


Na mitologia grega, Hécate é uma figura estranha desde sua origem. Diferente de outros deuses antigos, ela sobrevive à ascensão olímpica. Zeus não a destrona.


Pelo contrário: preserva seus poderes sobre a terra, o mar e o céu noturno.

Isso já diz muito.


Hécate não disputa o centro do poder; ela habita suas bordas. É deusa das encruzilhadas, das portas, dos umbrais, das estradas noturnas. Onde há passagem, ela está. Onde há hesitação, ela observa. Onde há medo, ela acende uma tocha.


Ser tripla — muitas vezes representada com três faces ou três corpos — não é excesso simbólico: é uma ontologia. Hécate vê simultaneamente o que foi, o que é e o que pode vir a ser. Ela é a consciência de que o real nunca é unívoco.


Limiar: Onde o Mundo Fica Instável

“O limiar não é uma linha, mas uma zona.”— Giorgio Agamben


Vivemos, hoje, sob a tirania do centro:centro econômico,centro algorítmico,centro discursivo.


Tudo o que não se encaixa é empurrado para fora. Invisibilizado. Silenciado.

Hécate é a deusa desses expulsos:os que não cabem,os que transitam,os que vivem entre mundos.


O limiar não é apenas um espaço físico — é uma condição existencial. É o lugar do migrante, do artista independente, do pensamento crítico, do saber não domesticado. É ali que a cultura dominante perde sua falsa estabilidade.

Por isso Hécate assusta.Ela lembra que toda ordem é provisória.


A Invisibilidade como Forma de Poder

“Nem tudo o que é essencial precisa aparecer.”— Maria Zambrano


Ao contrário dos deuses solares, Hécate não exige templos monumentais. Suas oferendas eram deixadas à noite, em encruzilhadas, longe dos olhos da cidade.


Ela governa o invisível — não como ausência, mas como potência latente.


No mundo contemporâneo, obcecado por visibilidade, métricas e performance, Hécate ensina outra lógica:há forças que só atuam quando não são vistas.


Pensar, criar, resistir — muitas vezes exige desaparecer do ruído. O invisível, aqui, não é apagamento; é estratégia.


Hécate e a Arte do Entre

“A verdadeira criação nasce onde as categorias falham.”— Theodor W. Adorno


A arte que realmente importa nunca nasce no centro.Ela surge nas frestas.

Entre gêneros.Entre linguagens.Entre ciência e poesia.Entre som e silêncio.

Hécate é a deusa dessa arte liminar. Da música que não se encaixa no mercado.


Do pensamento que incomoda porque não se deixa classificar. Do gesto criativo que acontece fora do tempo produtivo de Kronos e fora até mesmo do instante pleno de Kairós.


Ela nos ensina que criar é atravessar zonas de incerteza — e que não há luz sem atravessar a noite.


As Três Tochas

“Não se trata de iluminar o mundo, mas de torná-lo habitável.”— Walter Benjamin


Tradicionalmente, Hécate carrega tochas. Não para iluminar o caminho inteiro, mas apenas o próximo passo. Eis uma lição profunda para o nosso tempo de ansiedade e controle:


Não se vê o todo.Não se domina o futuro.Caminha-se.

Cada tocha revela apenas o suficiente para continuar.


Hécate Hoje

“Pensar é sempre um gesto de risco.”— Hannah Arendt


Em um mundo em crise — ecológica, simbólica, espiritual — Hécate retorna como arquétipo necessário. Ela nos convida a aceitar a transição, a habitar o desconforto, a escutar o que foi silenciado.


Não é uma deusa do conforto.É uma deusa da lucidez.


Onde o tempo colapsa,onde as narrativas falham,onde o progresso revela sua sombra,ali, silenciosa, Hécate permanece.


Não no centro.Mas exatamente onde tudo pode mudar.

 
 
 

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