Awaken - Yes - Uma música que encena uma Iniciação
- carlospessegatti
- 11 de jan.
- 5 min de leitura

Lançada em 1977 como a última faixa do álbum Going for the One, Awaken ocupa um lugar singular na obra do Yes. Considerada por Jon Anderson, vocalista e membro fundador da banda, como a peça mais complexa já composta pelo grupo, a música sintetiza de forma exemplar a ambição estética, espiritual e arquitetônica do rock progressivo em seu auge.
Com mais de quinze minutos de duração, Awaken inicia-se de maneira contemplativa, quase ritualística, construindo lentamente um campo sonoro marcado por texturas delicadas, passagens etéreas e mudanças estruturais profundas. Ao longo do percurso, a música atravessa momentos de tensão, suspensão e introspecção, até desembocar em um final monumental: uma progressão harmônica ascendente, cada vez mais expansiva, coroada pelo retumbante som de um órgão de tubos gravado em uma catedral na Suíça.
O que começa como silêncio carregado de intenção termina como afirmação sonora absoluta — não como resolução tradicional, mas como elevação, fazendo de Awaken não apenas uma canção, mas uma experiência de transcendência musical.
1. Contexto tonal geral do final de Awaken
Após a seção etérea da harpa (Vangelis-like, quase ritualística), a música entra no que muitos analistas chamam de “Ascension Section”. Ali, o Yes abandona qualquer função tonal tradicional clara e passa a operar com:
progressão sequencial
planagem de acordes (harmonic planing)
movimento ascendente por graus conjuntos
ênfase no efeito modal e espectral, mais do que na cadência funcional clássica
Não se trata de “modulação” no sentido tonal estrito, mas de uma escalada harmônica simbólica.
2. O princípio estrutural da progressão final
A ideia central é simples, mas poderosa:
Cada acorde sobe um grau em relação ao anterior, mantendo praticamente a mesma qualidade harmônica.
Isso cria:
sensação de elevação contínua
suspensão da resolução tradicional
um efeito quase litúrgico, intensificado pelo órgão de tubos real
Tecnicamente, estamos diante de uma sequência ascendente de acordes maiores, muitas vezes interpretada como:
planagem diatônica
com forte sabor modal (especialmente Lídio)
3. A sequência de acordes (forma mais aceita nas análises)
A progressão final mais citada — especialmente na entrada plena do órgão — segue este movimento ascendente por tons inteiros:
D → E → F♯ → G → A
Todos acordes maiores, sustentados com grande densidade harmônica.
Se analisarmos funcionalmente em relação a D:
Acorde | Grau em D | Função tradicional |
D | I | Tônica |
E | II | Supertônica (não funcional aqui) |
F♯ | III | Mediante |
G | IV | Subdominante |
A | V | Dominante |
Porém — isso é crucial — o Yes não usa essas funções como na harmonia clássica. Eles planam os acordes, evitando cadências V–I claras até o clímax.
4. O papel do modo Lídio
Essa sequência cria, sobre o acorde de D, um forte campo Lídio, pois:
o E maior (II) introduz o C♯
o F♯ maior reforça a ideia de quarta aumentada implícita
a sensação é de expansão vertical, não de tensão-resolução
O Lídio é historicamente associado a:
transcendência
elevação
luz
espiritualidade
Nada disso é casual em Awaken.
5. O clímax: o órgão de tubos
O órgão gravado na igreja de St. Martin, em Vevey (Suíça) entra como:
símbolo de monumentalidade
voz do absoluto
fechamento ritualístico
No ápice, o acorde final atua menos como “resolução” e mais como afirmação ontológica:não resolve — revela.
É um acorde sustentado, pleno, que encerra a ascensão sem retornar ao ponto de partida.
6. Relação entre os acordes: por que isso funciona tão bem?
Do ponto de vista técnico:
movimento conjunto → coesão perceptiva
mesma qualidade harmônica → unidade
registro cada vez mais amplo → crescimento físico do som
timbre do órgão → reforço espectral dos harmônicos superiores
Do ponto de vista estético-filosófico:
A progressão não narra um conflito.Ela encena uma iniciação.
7. Síntese final
Não é uma progressão funcional clássica
É uma escada harmônica
Baseada em acordes maiores ascendentes
Com forte caráter modal (Lídio)
Culminando num clímax timbrístico e simbólico
Por isso Jon Anderson estava absolutamente certo quando afirmou que Awaken foi a música mais complexa que o Yes compôs:Awaken não é apenas complexa — ela é arquitetônica.
1. Awaken — Seção final
Transcrição em cifras com nome dos acordes
Observação metodológica (mantida): Não existe partitura oficial definitiva dessa seção. O que segue é a transcrição consensual adotada por músicos, analistas e transcrições auditivas confiáveis, focada no órgão, Mellotron e base harmônica.
🌊 Seção da harpa (campo suspenso / dissolução tonal)
D(add9) | Dsus2 | D(add9)/A
Ré maior com nona adicionada | Ré suspenso (2ª) | Ré maior com nona, baixo em Lá
Função harmônica:Não funcional. Criação de campo de repouso vibracional, com pedal implícito em Ré.
🌄 Início da escalada ascensional (órgão começa a emergir)
D | E | F# | G
Ré maior | Mi maior | Fá♯ maior | Sol maior
Características técnicas:
Todos os acordes maiores
Movimento ascendente por grau conjunto
Nenhuma resolução cadencial
Uso claro de planagem harmônica
🔥 Intensificação (registro, densidade e pressão espectral)
D | E | F# | G | A
Ré maior | Mi maior | Fá♯ maior | Sol maior | Lá maior
Leitura funcional (apenas analítica, não estética):
Acorde | Grau em Ré |
D | I |
E | II |
F# | III |
G | IV |
A | V |
➡️ Importante: O Yes neutraliza a função tonal tradicional. O Lá maior não prepara retorno — ele é o último degrau da escada.
🏛️ Clímax com órgão de tubos (Vevey, Suíça)
As duas leituras mais aceitas:
A(add4)/D → A
Lá maior com quarta adicionada, baixo em Ré → Lá maior
ou
Dsus2(add6) → D
Ré suspenso (2ª + 6ª) → Ré maior
Ambas são corretas porque o acorde final é intencionalmente ambíguo.
🎼 O órgão sustenta:
Fundamental
Quinta
Oitava
Harmônicos naturais do tubo
➡️ Resultado: ressonância arquitetônica real, não apenas musical.
2. Comparação com outros finais “ascensionais” do Prog
🔹 Close to the Edge — Yes
Progressão funcional
Retorno claro à tônica
Final contemplativo, mas resolvido
➡️ Awaken rompe o ciclo.
🔹 Supper’s Ready — Genesis (final “As Sure as Eggs Is Eggs”)
Acordes maiores em elevação
Sensação de revelação
Diferença:
Genesis = teleologia cristã
Yes = espiritualidade cósmica não dogmática
🔹 Tarkus — Emerson, Lake & Palmer
Órgão monumental
Crescimento dramático
Diferença:
Tarkus = conflito, embate, narrativa
Awaken = rito de passagem
🔹 Starless — King Crimson
Crescente cromática
Tensão acumulativa
➡️ Starless oprime➡️ Awaken expande
3. Diálogo direto com o meu universo dimensional e cósmico
🌌 A progressão como metáfora física
Elemento musical | Correspondência cosmológica |
Acordes maiores fixos | Estados vibracionais |
Subida gradual | Transição dimensional |
Ausência de cadência | Multiverso |
Órgão | Campo unificado |
Sustentação longa | Tempo dilatado |
Isso conversa diretamente com:
Teoria das Cordas
Campos vibracionais
Dimensões compactadas
➡️ Pensando menos em “música”➡️ Pensando em campo sonoro.
🧠 Síntese final
Awaken ensina algo essencial e profundamente afinado com meu trabalho:
A harmonia pode ser cosmológica, arquitetônica, ontológica.
Não é um fim.
É uma passagem.




Ainda com relação ao Awaken: o Yes é sempre mestre em grandes iniciações e ascendências resplendorosas belíssimas.
Excelente análise. Eu acrescentaria outras comparações além do Close to the edge como o Tales from topographic oceans também.