Cronos: o tempo que devora seus filhos
- carlospessegatti
- 16 de jan.
- 4 min de leitura

Série Mitológica: Deuses antigos par aum mundo em crise
"Quebrar o continuum do tempo é tarefa da revolução." — Walter Benjamin
"A aceleração é a forma de dominação mais eficaz do nosso tempo." — Hartmut Rosa
"A sociedade do desempenho produz sujeitos exaustos." — Byung-Chul Han
Bloco II — Tempo, Aceleração e Esgotamento
O colapso do tempo humano diante do tempo técnico
Há deuses que organizam o mundo e há deuses que o corroem silenciosamente. Cronos pertence a esta segunda linhagem. Diferente de Hermes, que atravessa fronteiras e articula fluxos, e de Mnemosyne, que preserva a memória contra o esquecimento, Cronos impõe uma experiência radical: o tempo como força que consome tudo aquilo que existe — inclusive os próprios deuses.
Na mitologia grega, Cronos é aquele que devora seus filhos para impedir que o futuro o destrone. O gesto é brutal, mas profundamente simbólico. Não se trata apenas do medo da sucessão, mas do pavor do tempo que avança, do novo que emerge, do irreversível. Cronos representa o tempo linear, quantitativo, inexorável — o tempo que não retorna, não negocia e não perdoa.
No mundo contemporâneo, porém, Cronos reaparece sob uma nova máscara: a do tempo técnico, acelerado, automatizado, fragmentado. Um tempo que não apenas passa, mas nos atravessa, nos pressiona e nos esgota.
Aceleração: quando o tempo deixa de ser vivido
Durante séculos, a experiência humana do tempo esteve ligada aos ciclos naturais: o dia e a noite, as estações, o crescimento e o envelhecimento. Era um tempo vivido no corpo, na repetição e na memória. A modernidade rompe esse vínculo ao submeter o tempo à máquina, ao relógio, à produção.
No capitalismo tardio, essa lógica atinge um grau extremo. O tempo deixa de ser vivido e passa a ser administrado. Tudo precisa ser rápido, otimizado, produtivo. A aceleração não é mais uma escolha: é uma exigência estrutural.
Vivemos sob um regime cronocrático, no qual o valor da vida é medido pela capacidade de acompanhar o ritmo imposto. Quem desacelera, adoece ou envelhece torna-se disfuncional. O tempo deixa de ser horizonte existencial e transforma-se em instrumento de controle.
Cronos, agora, não devora apenas seus filhos mitológicos — devora projetos, vínculos, narrativas e subjetividades.
Obsolescência: o novo que já nasce velho
No mundo técnico, tudo nasce com data de validade. Objetos, saberes, profissões e até afetos são consumidos rapidamente e descartados em seguida. A obsolescência não é um efeito colateral do sistema: é o seu motor.
Essa lógica infiltra-se no próprio sujeito. Somos constantemente instados a nos atualizar, nos reinventar, nos adaptar. A identidade torna-se provisória, fluida, instável. Não há tempo para sedimentação, para maturação, para experiência profunda.
Aqui, Cronos atua de modo ainda mais perverso: ele não apenas envelhece os corpos, mas envelhece as ideias antes que possam amadurecer. O pensamento é substituído por opinião imediata. A experiência, por informação.
O novo surge já velho.
Envelhecimento e finitude: o escândalo do limite
Se na antiguidade o envelhecimento era visto como acúmulo de tempo vivido — e, portanto, de sabedoria —, hoje ele é tratado como falha, atraso, peso morto. O corpo que desacelera torna-se incompatível com o tempo técnico.
A negação da finitude é uma das marcas mais evidentes do nosso tempo. Busca-se prolongar a juventude, adiar a morte, silenciar o desgaste. Mas quanto mais tentamos escapar de Cronos, mais profundamente somos capturados por ele.
O resultado é o esgotamento: físico, psíquico, existencial. Não estamos cansados apenas porque trabalhamos demais, mas porque vivemos em desacordo com o ritmo humano do tempo.
Memória sob ataque: Cronos contra Mnemosyne
Aqui, Cronos encontra Mnemosyne em um campo de batalha silencioso. O tempo acelerado fragiliza a memória. Não há tempo para lembrar, elaborar, narrar. Tudo se transforma em fluxo contínuo de estímulos que não se fixam.
A memória exige pausa. Exige lentidão. Exige duração.
Quando o tempo se fragmenta em instantes utilitários, a memória se dissolve.
Perdemos não apenas o passado, mas também a capacidade de projetar o futuro. O presente torna-se tirânico, absoluto, fechado em si mesmo.
Cronos, então, não devora apenas seus filhos — devora a própria possibilidade de sentido histórico.
Resistir a Cronos: reaprender a habitar o tempo
A mitologia nos ensina que Cronos não é invencível. Ele é destronado por Zeus, símbolo de uma nova ordem do tempo — não mais apenas quantitativa, mas qualitativa, marcada por decisões, rupturas e acontecimentos.
Resistir a Cronos hoje não significa negar o tempo, mas reapropriá-lo. Criar zonas de desaceleração. Restituir à vida o direito à duração. Defender a memória contra o esquecimento programado.
A arte, a filosofia e a música — sobretudo aquelas que se recusam à lógica do consumo rápido — tornam-se gestos de insubordinação temporal. São espaços onde o tempo volta a respirar.
Transição do Bloco II
Se Hermes nos ensinou a atravessar os fluxos do mundo e Mnemosyne nos lembrou da necessidade de preservar a memória, Cronos nos confronta com a violência do tempo que acelera, descarta e esgota.
O próximo passo deste Bloco II será pensar se existe outro modo de viver o tempo — não como sucessão devoradora, mas como abertura, acontecimento e possibilidade.
É nesse ponto que surge Kairós: o tempo oportuno, o instante carregado de sentido, aquele que rompe a tirania do relógio.
Entre Cronos e Kairós, decide-se o destino da experiência humana no mundo contemporâneo.
Fechamento do Bloco II — Tempo em Crise
O mundo em crise é, antes de tudo, um mundo em crise de tempo. Falta-nos tempo para pensar, para lembrar, para envelhecer com dignidade, para criar sentido.
Cronos continuará à espreita. Mas enquanto houver memória, consciência e criação, seus dentes não terão a última palavra.
Habitar o tempo — e não apenas sobreviver a ele — talvez seja o gesto mais radical que ainda nos resta.




O tempo não existe! Ele é a medida das coisas provisórias. Não somos provisórios, somos imortais enquanto espíritos. O passado passou, o presente vive passando, o futuro é o que nós temos de garantido. Preocupação com o tempo é perda de tempo.