Kairós — O Tempo da Escuta em um Mundo sem Pausas
- carlospessegatti
- 20 de jan.
- 4 min de leitura

Série Mitológica: Deuses Antigos para um Mundo em Crise
“O tempo homogêneo e vazio precisa ser interrompido por um agora carregado de sentido.”Walter Benjamin
“A aceleração destrói a capacidade de demorar-se."Byung-Chul Han
“A música cria uma duração que não pode ser traduzida em números." Henri Bergson
Depois de Cronos
Se Cronos é o deus que devora seus filhos, não o faz apenas por crueldade mítica, mas por necessidade estrutural: tudo o que nasce sob o regime da aceleração está destinado ao consumo e ao esgotamento. Ao analisarmos Cronos, observamos o colapso do tempo humano diante do tempo técnico, a submissão da vida aos calendários, aos prazos, aos algoritmos. Mas toda hegemonia gera sua sombra. É exatamente no excesso de Cronos que se abre a possibilidade de outro tempo — não sucessivo, não mensurável, não produtivo. É aqui que Kairós emerge, não como negação do tempo, mas como sua requalificação sensível.
Entre Cronos e o esgotamento do tempo humano
Se Cronos é o tempo que mede, corta, acelera e devora, Kairós é o tempo que acontece. Não se deixa capturar por relógios nem por métricas de produtividade.
Ele emerge como fenda, intervalo, ocasião. Na mitologia grega, Kairós não é o senhor do fluxo contínuo, mas o deus do instante oportuno, da abertura rara em que algo pode, enfim, se revelar.
Num mundo saturado pela aceleração técnica — onde o tempo humano colapsa sob a pressão do tempo das máquinas — Kairós surge como contraponto ontológico e estético a Cronos. Se este organiza a vida pela sucessão implacável, aquele devolve à experiência a densidade do sentido.
Kairós não corre. Kairós escuta.
Kairós: o tempo qualitativo
Diferente do tempo quantitativo de Cronos, que se expressa em segundos, metas e prazos, Kairós é qualitativo. Ele não pergunta quanto tempo passou, mas o que aconteceu naquele tempo.
É o tempo da maturação, da decisão justa, do gesto que só faz sentido quando acontece nem antes, nem depois, mas exatamente ali. Por isso, Kairós é representado com uma mecha de cabelo na testa e a nuca calva: só pode ser agarrado quando vem ao nosso encontro. Depois que passa, não há onde segurar.
Na contemporaneidade, esse tempo foi quase abolido. A lógica do desempenho, da atualização constante e da aceleração permanente não tolera intervalos. O instante oportuno é substituído pela urgência contínua. Tudo deve acontecer agora, mas nada realmente acontece.
Kairós, então, retorna como resistência silenciosa.
A arte como interrupção
“A obra de arte autêntica é aquela que interrompe o curso normal das coisas.” Theodor W. Adorno
A arte não opera no tempo de Cronos. Ela interrompe.
Uma obra de arte suspende o fluxo ordinário da vida, cria uma dobra temporal onde o sujeito deixa de apenas passar pelo tempo e passa a habitar o instante. Esse gesto é profundamente kairológico.
Ao ouvir uma música, ao contemplar uma imagem, ao ler um texto que nos desarma, algo se desloca: o tempo deixa de ser meio e torna-se experiência. Não avançamos; aprofundamos.
Nesse sentido, a arte não é entretenimento — é ruptura. Ela abre um intervalo onde a escuta é possível, onde o mundo deixa de ser ruído e volta a ser linguagem.
Kairós se manifesta sempre que a arte nos obriga a parar sem nos imobilizar.
Música como experiência temporal
“Ouvir música é entrar num tempo que não pertence ao relógio.” Gaston Bachelard
A música é talvez a arte mais radicalmente ligada a Kairós, porque ela não ocupa o tempo: ela é tempo.
Uma música não existe fora da duração, mas essa duração não é mensurável apenas em minutos. Há músicas curtas que nos atravessam como eternidades e peças longas que passam como um sopro. O que está em jogo não é a extensão cronológica, mas a intensidade da escuta.
Quando realmente ouvimos, entramos em outro regime temporal. O pulso interno se reconfigura, o corpo desacelera ou se expande, a consciência abandona a vigilância utilitária. O tempo deixa de ser linha e torna-se campo.
A música cria Kairós porque exige presença. Não se pode ouvi-la plenamente enquanto se corre.
Escuta: um gesto político
“Escutar é suspender o domínio.” Giorgio Agamben
Escutar, hoje, é um ato contra-hegemônico.
Num ambiente dominado pela superprodução de estímulos, pela fala incessante e pela economia da atenção, a escuta profunda torna-se rara. Kairós reaparece sempre que escolhemos não responder imediatamente, não acelerar, não reduzir a experiência a dado.
A escuta é o tempo da abertura ao outro, ao indizível, ao que não se encaixa nos fluxos pré-programados. Por isso, ela tem uma dimensão política: escutar é recusar a lógica da eficiência total.
Kairós é o tempo em que algo pode ser compreendido sem ser imediatamente consumido.
Kairós como contraponto a Cronos
Se Cronos organiza o mundo pela sucessão e pelo controle, Kairós o reencanta pela ocasião e pelo sentido. Um não elimina o outro — mas a hegemonia absoluta de Cronos produz esgotamento, ansiedade e empobrecimento da experiência.
Kairós não propõe a fuga do tempo técnico, mas a criação de ilhas de intensidade dentro dele. São momentos em que o tempo deixa de ser inimigo e volta a ser aliado.
Na arte, na música, na escuta atenta, no silêncio que antecede a criação, Kairós reaprende a existir.
Considerações finais — O tempo que nos devolve a nós mesmos
Em um mundo sem pausas, Kairós é o deus esquecido — e, justamente por isso, o mais necessário.
Resgatar Kairós não é um exercício de nostalgia, mas um gesto de lucidez. É reconhecer que nem tudo pode ser acelerado, medido ou otimizado sem perda de sentido.
Entre Cronos que devora e Kairós que revela, talvez a tarefa da arte contemporânea seja esta: restituir ao tempo a sua capacidade de nos transformar.
Porque só onde há escuta, há acontecimento.




Comentários