MIKHAIL BAKHTIN: A LINGUAGEM COMO COSMOS, CONFLITO E ENCONTRO
- carlospessegatti
- 25 de jan.
- 7 min de leitura

Polifonia, dialogismo e a batalha invisível das vozes
“A palavra é metade de alguém. Ela quer um interlocutor.”— Mikhail Bakhtin
“A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ em que vivemos é a regra.”— Walter Benjamin
“A linguagem é a casa do ser.”— Martin Heidegger
“O meio é a mensagem.”— Marshall McLuhan
“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão.”— Paulo Freire
1. Uma introdução: quando falar é habitar um campo de forças
Há pensadores que tratam a linguagem como um mecanismo: algo a ser descrito, classificado, ordenado. Bakhtin a trata como uma tempestade.
Uma palavra, para ele, nunca é apenas uma palavra. Ela é um fragmento histórico.Um sinal de classe.Uma memória social em miniatura. Um conflito em forma de frase.
Toda vez que falamos, não estamos apenas “expressando uma ideia”.
Estamos, mesmo sem perceber, escolhendo uma posição no mundo. Porque o mundo já mora dentro das palavras. E as palavras, por sua vez, nunca chegam vazias: chegam cheias de vozes anteriores, de valores herdados, de disputas já em andamento.
Bakhtin nos ensina que a linguagem é sempre um acontecimento social: ela acontece entre pessoas, e não dentro de uma consciência isolada.
A linguagem é sempre um lugar de encontro — mas também um lugar de combate.
2. Quem foi Bakhtin: um pensador atravessado pela história
Mikhail Bakhtin (1895–1975) viveu num século que parecia querer destruir a complexidade humana: guerras, revoluções, regimes autoritários, censura, repressões e o peso brutal das máquinas políticas. Sua vida foi marcada por dificuldades materiais e por longos períodos de apagamento.
Mas é justamente aí que sua obra ganha densidade: Bakhtin não escreve como quem observa a vida do alto, num gabinete. Ele escreve como quem sabe que uma palavra pode salvar — e também pode condenar.
Seu pensamento nasce do concreto: do corpo, da rua, da cultura popular, da literatura, das tensões entre classes e instituições. Ele é, nesse sentido, um filósofo que pressente que o mundo moderno não seria apenas um mundo de novas tecnologias, mas um mundo de novas formas de captura da linguagem.
3. A obra mais importante: Dostoiévski e a invenção da Polifonia
Se eu tiver que apontar o núcleo mais poderoso do pensamento bakhtiniano, eu diria:
“Problemas da Poética de Dostoiévski”
Nessa obra, Bakhtin formula o conceito que virou uma espécie de estrela central em sua constelação teórica:
POLIFONIA
Para Bakhtin, Dostoiévski cria um romance onde as personagens não são meros instrumentos do autor. Elas não estão ali para provar uma tese. Elas não são marionetes de um “sentido final”.
Elas possuem voz própria, consciência própria, visão de mundo própria. E essas vozes convivem sem que uma delas destrua totalmente a outra.
A polifonia é, portanto, um modelo de realidade:
não há verdade única encerrando o mundo
não há um narrador absoluto “de cima”
o sentido nasce do choque e do diálogo entre perspectivas
Em Dostoiévski, a vida não é uma sentença. É um tribunal em crise. Uma praça pública de consciências em confronto. Uma arena onde o humano aparece em sua forma mais difícil: não resolvido.
E Bakhtin sugere, com isso, algo que vale para muito além da literatura:
a verdade não é algo que se impõe — é algo que se constrói no encontro tenso entre vozes.
4. Dialogismo: a lei secreta de toda palavra
Bakhtin afirma que a linguagem é essencialmente dialogal. Isso significa que toda palavra:
responde a algo
antecipa uma resposta
disputa sentidos com outras palavras
carrega marcas de outros falantes
Ninguém fala do zero. Ninguém fala sozinho.
Mesmo quando você escreve um texto “para si”, existe um interlocutor invisível: um leitor imaginado, um adversário, um público, uma ausência, uma lembrança, uma ferida, uma esperança.
Dialogismo é isto:
o sentido nunca nasce em isolamento. O sentido é uma relação.
Por isso Bakhtin é um pensador profundamente anti-autoritário: ele sabe que o autoritarismo não começa apenas com polícia e censura — começa quando uma voz tenta ser a única voz possível.
Quando um discurso quer encerrar o mundo, Bakhtin responde com uma filosofia que reabre o mundo.
5. Heteroglossia: dentro de uma língua existem muitas línguas
Bakhtin também nos dá um conceito precioso para entender sociedades modernas:
HETEROGLOSSIA (plurilinguismo social)
A língua não é homogênea.Ela é um território ocupado por diferentes “dialetos sociais”, registros e forças históricas.
Dentro do mesmo idioma coexistem:
a língua do Estado e das instituições
a língua do mercado e da propaganda
a língua da ciência e da técnica
a língua da religião e da moral
a língua da periferia e do centro
a língua do cotidiano e a língua do espetáculo
a língua do trabalho e a língua do consumo
E essas línguas não convivem pacificamente: elas disputam o direito de definir o real.
Quem controla a linguagem, controla o horizonte do possível. E quem impõe uma linguagem única, impõe também um modo único de existir.
6. O signo como ideologia: a palavra nunca é inocente
Aqui Bakhtin se aproxima fortemente de uma leitura crítica e histórica da sociedade. No círculo bakhtiniano (especialmente em Volóchinov), aparece uma tese decisiva:
Todo signo é ideológico.
Isto é: toda palavra carrega valores, interesses, marcas sociais.
Não existe fala “pura”. Não existe linguagem neutra. Mesmo o vocabulário técnico pode ser apropriado como máscara de poder.
A palavra é uma arena: um lugar onde forças sociais se chocam.
Isso nos ajuda a entender por que, hoje, certas palavras se tornam campos de guerra:“liberdade”, “democracia”, “ordem”, “família”, “progresso”, “inovação”, “empreendedorismo”, “mérito”, “cidadão de bem”, “cancelamento”, “verdade”.
Não são apenas palavras: são bandeiras. São armas.São formas de mundo em disputa.
7. Carnavalização: o riso como subversão histórica
Em uma de suas obras mais fascinantes, Bakhtin estuda o riso popular e a cultura do corpo:
“A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais”
É aqui que nasce o conceito de:
CARNAVALIZAÇÃO
O carnaval, para Bakhtin, não é entretenimento.
É uma experiência histórica em que o mundo se permite ser invertido:
o rei vira bobo
o bobo vira rei
o corpo é celebrado
o sagrado é profanado
a hierarquia se dissolve
o medo perde seu domínio
O riso carnavalesco não é superficial: ele é um riso que desmistifica. Ele quebra a aura do poder. Ele revela que a autoridade também é teatro.
E isso é profundamente político: porque todo poder se sustenta numa certa “seriedade oficial” que exige reverência. O carnaval mostra que essa seriedade é frágil.
O riso, aqui, é uma forma de libertação simbólica. Ele não destrói o mundo com explosões, mas o corrói com lucidez.
O riso corrói o poder por dentro.
8. Um parágrafo de transição: Bakhtin diante do nosso tempo
Se Bakhtin pensou a palavra como arena, nós hoje vivemos dentro de uma arena automatizada.A linguagem se tornou um produto, um dado, uma mercadoria. As frases competem por atenção como se fossem anúncios.E a opinião, muitas vezes, é reduzida a performance.
O algoritmo, nesse cenário, não é apenas tecnologia: é um novo regime de visibilidade. Ele decide quais vozes sobem e quais afundam. Ele fabrica relevâncias. Ele organiza a conversa social como um espetáculo permanente.
E, no entanto, Bakhtin ainda nos sussurra uma esperança:nenhum sistema consegue eliminar totalmente a multiplicidade das vozes.
Enquanto houver linguagem viva, haverá fissuras. Enquanto houver diálogo real, haverá história aberta.
9. Bakhtin e a crítica à cultura de massa: quando a linguagem vira máquina
A cultura de massa tende a produzir um fenômeno perigoso: a sensação de que há “um único modo correto de falar”, “um único modo correto de sentir”, “um único modo correto de existir”.
O que Bakhtin chamaria de risco do monologismo: um mundo onde uma voz tenta encerrar todas as outras.
Na cultura de massa:
o discurso vira slogan
o pensamento vira etiqueta
o debate vira torcida
a complexidade vira ruído
a dúvida vira fraqueza
a diferença vira ameaça
O monólogo é confortável porque simplifica. Mas ele é também uma forma de violência simbólica: ele transforma o outro em caricatura.
Bakhtin nos oferece uma chave crítica para resistir a isso: defender a polifonia é defender o direito de existir de múltiplas consciências.
A arte independente, nesse sentido, é uma forma de polifonia: ela reabre o espaço do sensível, reintroduz camadas, devolve profundidade ao mundo.
10. Bakhtin e a arte independente: criar é organizar vozes
Aqui entra uma conexão muito direta com minha estética e meu projeto artístico.
A criação musical pode ser lida como um gesto bakhtiniano:
um drone pode ser o “tempo profundo” do universo
uma melodia pode ser a voz humana tentando significar o abismo
uma textura ruidosa pode ser a fricção do mundo social
uma harmonia suspensa pode ser a incerteza do presente
um tema recorrente pode ser memória (Mnemosyne)
uma ruptura pode ser carnavalização
um silêncio pode ser resposta e não ausência
Mesmo sem letra, uma música pode ser dialogismo:ela conversa com tradições, com máquinas, com épocas, com afetos, com o futuro.
A minha música, quando convoca cosmologia, tecnologia, pós-apocalipse e transcendência, pode ser lida como uma grande arena de vozes:
a voz do cosmos
a voz da humanidade
a voz da máquina
a voz do colapso
a voz do renascimento
Bakhtin diria: não é “mistura” — é polifonia.
11. Conclusão: existir é dialogar
Bakhtin nos deixa uma lição que parece simples, mas é imensa:
A vida humana não é um monólogo interior. É um conjunto de vozes que se atravessam.
A linguagem é a nossa condição. E toda vez que falamos, escolhemos se queremos:
fechar o mundo
ou
reabrir o mundo
O monólogo quer a última palavra.O diálogo aceita que o sentido é sempre provisório.
E talvez a maturidade — humana, artística, histórica — seja isto:
não eliminar o outro, mas aprender a escutá-lo sem se apagar.não transformar o mundo em sentença, mas em conversa.
Porque, no fim, Bakhtin nos lembra:
📌 a palavra vive entre nós.📌 o sentido vive no encontro.📌 e existir é dialogar.
📚 Mini-bibliografia essencial (para fechar teu post)
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da Poética de Dostoiévski.
BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal.
BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética: a teoria do romance.
VOLÓCHINOV, Valentin. Marxismo e Filosofia da Linguagem (obra do Círculo de Bakhtin)Círculo de Bakhtin)



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