O Segundo Sexo — Simone de Beauvoir
- carlospessegatti
- há 6 dias
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Publicado em 1949, O Segundo Sexo é uma das obras mais importantes do pensamento filosófico e político do século XX. Simone de Beauvoir articula existencialismo, materialismo histórico, crítica cultural e análise histórica para investigar uma questão central: por que a mulher foi constituída, ao longo da história, como o “Outro” do homem?
A obra não é apenas um tratado feminista, mas uma análise radical da construção social do sujeito humano, do poder, da liberdade e da alienação. Beauvoir escreve não para exaltar uma identidade feminina essencial, mas para desmontar os mecanismos que impediram as mulheres de se constituírem plenamente como sujeitos históricos.
“Não se nasce mulher: torna-se.” — Simone de Beauvoir
Essa frase-síntese atravessa todo o livro e serve como chave de leitura para o conjunto da obra, dialogando diretamente com a tradição existencialista e com a crítica marxista da alienação.
Epígrafe de Abertura
“Toda opressão cria um estado de guerra.” — Simone de Beauvoir
Estrutura Geral da Obra
O Segundo Sexo está dividido em dois volumes, cada um com uma função analítica específica:
Volume I — Fatos e Mitos: investiga as justificativas científicas, filosóficas e simbólicas da subordinação feminina.
Volume II — A Experiência Vivida: descreve como essas justificativas se materializam na vida concreta das mulheres, do nascimento à velhice.
VOLUME I — FATOS E MITOS
“O mito não rouba apenas a realidade: ele impede que ela seja pensada.” — Simone de Beauvoir
1. Destino Biológico
Beauvoir analisa o corpo feminino — menstruação, gravidez, menopausa — e demonstra que a biologia não determina o destino social. O erro histórico foi transformar diferenças biológicas em hierarquias sociais.
O corpo da mulher é interpretado pela cultura patriarcal como limitação, enquanto o corpo masculino é visto como instrumento de ação e transcendência.
2. Psicanálise
A autora faz uma crítica severa à psicanálise freudiana, sobretudo à ideia da “inveja do pênis”. Para Beauvoir, Freud interpreta a mulher sempre a partir do masculino, tratando-a como ser incompleto.
Ela não descarta o inconsciente, mas denuncia a psicanálise quando esta naturaliza estruturas sociais e transforma opressão histórica em destino psíquico.
3. Materialismo Histórico
Inspirando-se em Marx e Engels, Beauvoir reconhece o papel decisivo das condições econômicas na opressão feminina, especialmente com o advento da propriedade privada e da divisão sexual do trabalho.
No entanto, ela vai além do economicismo: a opressão da mulher não pode ser explicada apenas pela economia, pois envolve mitos, símbolos, afetos e estruturas culturais profundas.
4. Formação dos Mitos Femininos
Aqui está um dos núcleos mais brilhantes da obra. Beauvoir analisa a mulher como mito literário e simbólico:
A Virgem
A Mãe
A Musa
A Mulher Fatal
A Bruxa
Esses mitos não descrevem mulheres reais, mas fantasias masculinas projetadas sobre elas. A mulher é menos um sujeito do que uma superfície simbólica onde o homem projeta seus medos, desejos e contradições.
VOLUME II — A EXPERIÊNCIA VIVIDA
“Viver é assumir riscos; existir é transcender.” — Jean-Paul Sartre
1. A Formação da Mulher
Desde a infância, meninas são educadas para a passividade, para o cuidado com o outro e para a renúncia de si mesmas. Brinquedos, linguagem, gestos e expectativas moldam subjetividades submissas.
A feminilidade é apresentada como um aprendizado da renúncia.
2. Adolescência e Sexualidade
Beauvoir descreve a adolescência feminina como um momento de conflito profundo entre corpo, desejo e repressão moral. O despertar sexual da mulher ocorre sob culpa, silêncio e vigilância.
3. Amor Romântico
O amor, para muitas mulheres, torna-se um projeto de vida totalizante. Beauvoir mostra como o amor romântico funciona como armadilha: a mulher se dissolve no outro e abdica de sua transcendência.
Amar não deveria ser perder-se, mas encontrar-se.
4. Casamento
O casamento é analisado como instituição econômica e política. Mesmo quando baseado no afeto, ele frequentemente reproduz relações de dependência
material e simbólica.
Beauvoir é contundente ao afirmar que o casamento tradicional aproxima-se, em muitos aspectos, de uma forma socialmente legitimada de servidão.
5. Maternidade
A maternidade não é negada, mas desmistificada. Beauvoir critica a ideia de “instinto materno” como destino obrigatório.
A maternidade pode ser realização — desde que seja escolha, e não imposição.
6. Trabalho
O trabalho é apresentado como condição fundamental da libertação feminina. Sem autonomia econômica, não há liberdade real.
Contudo, Beauvoir alerta: inserir a mulher no trabalho sem transformar as estruturas sociais apenas duplica sua jornada e sua exploração.
7. Velhice
Na velhice, a mulher sofre dupla exclusão: por ser mulher e por deixar de corresponder ao ideal de juventude e desejo. Paradoxalmente, pode conquistar certa liberdade por não ser mais vigiada como objeto sexual.
CONCEITOS CENTRAIS
“A história não faz nada; são os homens que fazem a história — sob condições dadas.” — Karl Marx
A Mulher como “O Outro”
A mulher é definida historicamente como alteridade absoluta. O homem é o Sujeito; a mulher, o Outro.
Essa assimetria funda uma relação estrutural de dominação.
Immanência e Transcendência
Immanência: repetição, clausura, vida doméstica.
Transcendência: criação, ação, projeto, mundo.
A sociedade patriarcal condena a mulher à immanência e reserva a transcendência aos homens.
Liberdade Existencial
Para Beauvoir, a libertação feminina é inseparável da libertação humana. Não se trata de inverter hierarquias, mas de superá-las.
Impacto Histórico e Atualidade
“A emancipação das mulheres é condição da emancipação humana.” — Silvia Federici
O Segundo Sexo foi censurado, atacado e condenado quando publicado. Hoje é reconhecido como uma das obras mais transformadoras da história do pensamento moderno.
Sua atualidade permanece intacta: desigualdade salarial, controle do corpo feminino, divisão sexual do trabalho e violência de gênero continuam a confirmar a força analítica da obra.
Diálogo com o Marxismo Contemporâneo
A leitura de O Segundo Sexo permanece extremamente fértil quando colocada em diálogo com o marxismo contemporâneo. Autoras como Silvia Federici,
Nancy Fraser e pensadores como Alysson Leandro Mascaro aprofundam questões já intuídas por Beauvoir: a centralidade do trabalho reprodutivo, a forma jurídica como sustentação da dominação e a falsa universalidade do sujeito moderno.
Federici revela como o corpo feminino foi historicamente apropriado pelo capitalismo nascente; Fraser mostra como o neoliberalismo cooptou pautas feministas; Mascaro evidencia que o direito não é neutro, mas forma social do capital — todos ecos diretos da crítica estrutural iniciada por Beauvoir.
Beauvoir, Tempo e Subjetividade
Em diálogo com reflexões sobre o tempo histórico, Beauvoir antecipa uma crítica ao tempo cronológico disciplinador. A mulher, confinada à repetição (imanência), vive um tempo circular, enquanto o homem ocupa o tempo do projeto, da história e da transcendência.
Aqui, sua análise se aproxima de leituras contemporâneas sobre aceleração social, esgotamento e captura da subjetividade — temas centrais para pensar o contemporâneo.
Simone de Beauvoir não escreveu apenas sobre mulheres. Escreveu sobre liberdade, poder e humanidade.
O Segundo Sexo permanece como um chamado ético e político: toda forma de opressão se sustenta na naturalização do que é histórico.
A libertação feminina não é um capítulo à parte da história: é condição para que a história, enfim, seja humana.



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