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O Som do Inominável: Música, Cosmos e Silêncio em 2001 – Uma Odisseia no Espaço

  • carlospessegatti
  • 14 de jan.
  • 6 min de leitura


Stanley Kubrick compreendeu algo que poucos cineastas ousaram assumir: há experiências que não se deixam capturar pela palavra. 2001 – Uma Odisseia no Espaço é um filme que renuncia deliberadamente ao diálogo como eixo narrativo e aposta na música como linguagem ontológica. Não se trata de trilha sonora, mas de paisagem sonora do Ser. As obras de György Ligeti e Aram Khachaturian não acompanham a imagem — elas pensam a imagem.


Ligeti: o som antes do mundo

Em Atmosphères e Lux Aeterna, György Ligeti dissolve a música em matéria cósmica. Não há melodia, não há ritmo reconhecível, não há centro tonal. O que se ouve é uma massa sonora em suspensão, um campo vibratório que parece existir antes de qualquer ordenação humana do tempo e do espaço.


Kubrick utiliza Atmosphères na célebre sequência da viagem pelo “portal estelar”. Aqui, a música não descreve: ela desorienta. O espectador perde referências perceptivas, assim como o astronauta perde as coordenadas do mundo humano. Ligeti cria um som sem chão, um contínuo que lembra o vácuo cósmico — não o silêncio absoluto, mas um silêncio carregado de energia latente.


Filosoficamente, é o encontro com o inominável, aquilo que, como diria Heidegger, escapa ao domínio do ente e toca o mistério do Ser.


Lux Aeterna, por sua vez, é uma música de luz. Um coral que não exalta Deus, mas o tempo infinito. Sua presença no filme sugere uma eternidade que não conforta, não promete redenção, mas simplesmente é. Trata-se de uma eternidade impessoal, cósmica, radicalmente indiferente ao humano. O homem, diante dela, não é protagonista: é vestígio.


Khachaturian: a melancolia do humano em órbita

Se Ligeti representa o pré-humano ou o pós-humano, o Adagio do Ballet Gayane de Aram Khachaturian traz o humano em sua forma mais frágil: a melancolia. Kubrick utiliza essa peça em momentos de deslocamento espacial, onde naves deslizam com precisão matemática pelo vazio.


O contraste é brutal e belo. A tecnologia é exata, fria, funcional. A música, no entanto, é profundamente emocional, quase dolorida. Aqui, o espaço não é conquista: é solidão. O Adagio transforma o gesto técnico em gesto existencial. O homem que domina a órbita terrestre continua incapaz de dominar o sentido de sua própria presença no universo.


Filosoficamente, Khachaturian introduz a nostalgia da Terra, do corpo, da finitude. É o lembrete de que, mesmo quando o homem alcança as estrelas, ele carrega consigo a saudade de algo que não sabe nomear — talvez sua própria condição mortal.


Imagem, som e a recusa da explicação

Kubrick constrói um cinema que se aproxima mais da experiência mística do que da narrativa clássica. Como em certas tradições filosóficas e científicas contemporâneas, o conhecimento não se dá pela explicação, mas pela imersão. O filme não responde: ele expõe.


O uso dessas músicas cria uma tensão fundamental: o humano tenta compreender o cosmos, mas o cosmos não responde na mesma linguagem. A música de Ligeti fala um idioma anterior à cultura; a de Khachaturian, um idioma que insiste em sobreviver apesar dela. Entre ambas, o homem flutua — pequeno, curioso, deslocado.


A pequenez do homem e a escuta do infinito

2001 não é um filme sobre o espaço; é um filme sobre o limite da consciência. Ao substituir diálogos por paisagens sonoras, Kubrick afirma que há verdades que só podem ser intuídas, nunca ditas. O universo não se revela ao homem como narrativa, mas como vibração.


Neste sentido, a música não ilustra o filme: ela é o próprio pensamento do filme. Pensamento sem palavras, pensamento cósmico, pensamento que nos obriga a escutar aquilo que não nos pertence.


E talvez seja esse o gesto mais radical de 2001: lembrar-nos de que, diante da grandeza e da inescrutabilidade do universo, o máximo que podemos fazer não é falar — é escutar.



O Som do Inominável

"Nem tudo o que é essencial pode ser dito." — Martin Heidegger


"O silêncio do universo não é vazio, é excesso de sentido." — Gaston Bachelard


"Em algum lugar, algo incrível está esperando para ser conhecido." — Carl Sagan;


Música, Cosmos e Silêncio em 2001 – Uma Odisseia no Espaço

Stanley Kubrick compreendeu algo que poucos cineastas ousaram assumir: há experiências que não se deixam capturar pela palavra. 2001 – Uma Odisseia no Espaço é um filme que renuncia deliberadamente ao diálogo como eixo narrativo e aposta na música como linguagem ontológica. Não se trata de trilha sonora, mas de paisagem sonora do Ser. As obras de György Ligeti e Aram Khachaturian não acompanham a imagem — elas pensam a imagem.


O cinema de Kubrick, neste filme, aproxima-se mais de uma experiência filosófica e sensorial do que de uma narrativa tradicional. O espectador não é conduzido por explicações, mas lançado em um campo de forças onde imagem, som e silêncio operam juntos para revelar a pequenez do humano diante da vastidão e da inescrutabilidade do universo.


Ligeti e o Som Antes do Mundo

Em Atmosphères e Lux Aeterna, György Ligeti dissolve a música em matéria cósmica. Não há melodia reconhecível, nem pulsação rítmica, nem centro tonal. O que se ouve é uma massa sonora em suspensão, um contínuo vibratório que parece existir antes de qualquer ordenação humana do tempo e do espaço.

Kubrick utiliza Atmosphères na célebre sequência da travessia pelo portal estelar.


Nesse momento, a música não descreve a imagem: ela a desestabiliza. O espectador perde referências perceptivas assim como o astronauta perde as coordenadas do mundo humano. Ligeti constrói um som sem chão, um campo acústico que se aproxima do vácuo cósmico — não como silêncio absoluto, mas como silêncio carregado de energia latente.


Sob uma perspectiva filosófica, trata-se do encontro com o inominável. Aquilo que escapa à linguagem, à forma e à representação. Um som que não se organiza para o ouvido humano, mas que expõe os limites da percepção. Como em Heidegger, o filme toca não o ente, mas o mistério do Ser.


Lux Aeterna, por sua vez, introduz uma dimensão temporal radical. Seu coral etéreo sugere uma eternidade impessoal, não religiosa, não redentora. Uma eternidade que não promete sentido, apenas duração infinita. No contexto do filme, essa música aponta para uma temporalidade que excede completamente a história humana. O homem não é centro, nem medida: é apenas um acontecimento efêmero no fluxo cósmico.


Khachaturian e a Melancolia do Humano em Órbita

Se Ligeti representa o som do pré-humano ou do pós-humano, o Adagio do Ballet Gayane, de Aram Khachaturian, introduz o humano em sua forma mais frágil: a melancolia.


Kubrick utiliza essa peça em sequências de deslocamento espacial, onde naves deslizam com precisão matemática pelo vazio. O contraste é profundo. A imagem exibe tecnologia, cálculo e controle. A música, no entanto, revela emoção, saudade e vulnerabilidade. O espaço, aqui, não aparece como conquista triunfal, mas como solidão ampliada.


O Adagio transforma o gesto técnico em gesto existencial. Mesmo dominando a órbita terrestre, o homem permanece incapaz de dominar o sentido de sua própria presença no universo. Khachaturian devolve à narrativa a dimensão do corpo, da finitude e da nostalgia — como se a música lembrasse que toda expansão tecnológica carrega consigo uma perda simbólica: a distância irreversível da Terra, do lar, do tempo vivido.


A Recusa da Explicação e a Escuta do Infinito

2001 – Uma Odisseia no Espaço constrói uma forma de cinema que se recusa a explicar. Como em certas tradições filosóficas e científicas contemporâneas, o conhecimento não emerge da resposta, mas da imersão. O filme não ensina: ele expõe.


Ao substituir diálogos por paisagens sonoras, Kubrick afirma que há verdades que só podem ser intuídas, nunca enunciadas. O universo não se comunica com o homem por meio de narrativas compreensíveis, mas por vibrações, ritmos e silêncios.


Nesse sentido, a música não ilustra o filme — ela é o próprio pensamento do filme. Um pensamento sem palavras. Pensamento cósmico. Pensamento que nos obriga a escutar aquilo que não nos pertence.


2001 não é um filme sobre o espaço, mas sobre os limites da consciência humana. Ao final, resta-nos a escuta. Diante da grandeza e da inescrutabilidade do universo, talvez o gesto mais radical não seja falar, nem explicar, nem dominar — mas silenciar e ouvir.


Paisagens Sonoras do Cosmos e a Criação Contemporânea

A opção estética de Kubrick dialoga profundamente com práticas musicais contemporâneas que exploram drones, massas sonoras, texturas lentas e campos harmônicos em suspensão. Assim como em Ligeti, a música deixa de ser narrativa e passa a ser ambiente, condição de existência, espaço perceptivo.


A escuta aqui não é linear, mas imersiva. Aproxima-se de conceitos da física contemporânea — campos, vibração, ressonância — onde o universo não é feito de objetos isolados, mas de relações energéticas em constante flutuação. A música torna-se, então, um modelo sensível do cosmos.


Nesse sentido, 2001 antecipa uma estética que hoje reaparece na música ambient, experimental e cosmológica: a tentativa de traduzir, em som, aquilo que excede o humano. Não para dominar o mistério, mas para habitá-lo.


Criar música a partir dessas premissas é aceitar que compor não é impor forma ao mundo, mas escutar suas forças profundas. É compreender que o som pode ser pensamento — não discursivo, não conceitual, mas vibratório.


Talvez seja aí que cinema, filosofia, ciência e música se encontrem: no reconhecimento de que o universo não se revela pela explicação, mas pela experiência. E que, diante dele, o artista não é um intérprete soberano, mas um mediador sensível entre o silêncio e o infinito.


György Ligeti - Atmosphères - 2001: A Space Odyssey



György Ligeti - Lux Aeterna - 2001: A Space Odyssey




György Ligeti - Gayane Ballet Suite - 2001: A Space Odyssey



 
 
 

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