Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro — Edgar Morin
- carlospessegatti
- há 7 dias
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Um guia para reumanizar o pensamento em tempos de crise
“A educação do futuro deverá ser o ensino primeiro e universal: ensinar a condição humana.”— Edgar Morin
“O conhecimento não é uma fotografia do real, mas uma tradução.”— Edgar Morin
“Não se pode conhecer as partes sem conhecer o todo, nem conhecer o todo sem conhecer as partes.”— Blaise Pascal
Introdução — Por que este livro é urgente?
O livro Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro não é um manual pedagógico no sentido tradicional. Ele é um manifesto filosófico e epistemológico, escrito como resposta àquilo que Morin identifica como um dos maiores dramas do mundo contemporâneo: a fragmentação do pensamento.
Vivemos em uma civilização que produz tecnologia com precisão, mas que muitas vezes educa com cegueira. Sabemos calcular, prever, automatizar — mas não sabemos integrar, contextualizar, sentir o humano, compreender o outro, pensar a incerteza, nem reconhecer os próprios limites do conhecimento.
Morin propõe uma educação que não seja apenas transmissão de conteúdos, mas uma reforma do pensamento. Uma educação capaz de:
enfrentar o erro e a ilusão;
religar saberes separados;
ensinar a condição humana;
formar uma consciência planetária;
desenvolver compreensão e ética;
preparar para a incerteza;
cultivar responsabilidade e lucidez.
O futuro, para Morin, não exige apenas mais informação — exige mais pensamento.
Estrutura do livro
O livro se organiza em sete capítulos, cada um apresentando um “saber” fundamental para uma educação capaz de enfrentar o século XXI.
Capítulo 1 — As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão
“Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão.”— Edgar Morin
“A verdade é filha do tempo, não da autoridade.”— Francis Bacon
Morin inicia pelo ponto mais radical: a educação quase nunca ensina o que é conhecer. Ensina-se matemática, história, biologia, mas raramente se ensina a perceber que todo conhecimento é vulnerável.
1.1 O conhecimento como tradução e reconstrução
O cérebro não capta o mundo “como ele é”: ele interpreta, seleciona, organiza.
Conhecer não é espelhar a realidade, mas traduzir a realidade — e toda tradução pode falhar.
1.2 Erro intelectual e erro mental
Morin distingue dois níveis:
Erro mental: percepções distorcidas, ilusões sensoriais, memória falha.
Erro intelectual: teorias, ideias e sistemas que se fecham em si mesmos e resistem ao real.
A educação, muitas vezes, forma mentes “certas demais” e por isso incapazes de revisão.
1.3 O poder das crenças, ideologias e racionalizações
Há um risco permanente de confundirmos:
racionalidade (pensamento aberto e verificável)
com
racionalização (explicação fechada que só confirma o que já acreditamos).
Morin alerta: a racionalização é uma forma sofisticada de cegueira.
1.4 A necessidade de uma educação crítica do conhecimento
O primeiro saber do futuro é ensinar:
que conhecer é um processo,
que o erro é parte do caminho,
que a lucidez exige autocrítica.
Educar não é produzir certezas absolutas, mas consciências vigilantes.
Capítulo 2 — Os princípios do conhecimento pertinente
“A inteligência cega destrói os conjuntos e as totalidades.”— Edgar Morin
“O real não é simples: ele é tecido junto.”— (Ideia central do pensamento complexo)
Aqui Morin aponta a grande doença do ensino moderno: o conhecimento fragmentado, que separa o mundo em gavetas e disciplinas isoladas.
2.1 O problema da fragmentação
A escola ensina:
biologia sem cultura,
economia sem história,
tecnologia sem ética,
ciência sem filosofia,
informação sem contexto.
O resultado é um saber “útil” mas frequentemente cego, porque não entende o todo.
2.2 Contextualizar é conhecer
Morin afirma que informação sem contexto é ruído. Conhecimento pertinente é aquele capaz de situar:
um dado dentro de um sistema,
um fenômeno dentro de uma história,
uma parte dentro de um todo.
2.3 O global e o local: a falsa escolha
Não se trata de escolher entre global e local, mas de articular ambos.
O saber pertinente:
enxerga o planeta,
sem perder o território,
e reconhece que cada local é atravessado por forças globais.
2.4 O pensamento complexo como método
A educação do futuro deve formar um pensamento capaz de:
conectar,
distinguir sem separar,
organizar sem reduzir,
compreender a multidimensionalidade.
Ou seja: um pensamento que não simplifique a realidade até matá-la.
Capítulo 3 — Ensinar a condição humana
“O ser humano é ao mesmo tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico.”— Edgar Morin
“Conhece-te a ti mesmo.”— Inscrição do Templo de Delfos
Este capítulo é um dos mais belos do livro: Morin afirma que a educação deve recolocar no centro aquilo que foi esquecido: o humano.
3.1 A separação do humano
A educação moderna frequentemente divide o ser humano em pedaços:
corpo (biologia),
mente (psicologia),
sociedade (sociologia),
cultura (antropologia),
história (história).
Mas raramente ensina a unidade complexa do ser humano.
3.2 O humano como unidade e diversidade
Morin propõe uma visão simultânea:
unidade da espécie humana (biológica e planetária),
diversidade das culturas (histórica e simbólica).
O humano é um ser de paradoxos:
sapiens e demens,
racional e afetivo,
técnico e poético,
produtor e destruidor.
3.3 A identidade humana e seus vínculos
O indivíduo não é uma ilha: ele é atravessado por:
linguagem,
mitos,
heranças,
relações sociais,
desejos,
contradições.
Educar para o futuro é ensinar o ser humano a compreender a si mesmo como problema e como potência.
Capítulo 4 — Ensinar a identidade terrena
“A Terra não é apenas um planeta: é nossa casa comum.”— Edgar Morin
“Somos poeira das estrelas contemplando as estrelas.”— (Ideia recorrente na cosmologia contemporânea)
Aqui o livro assume um caráter quase cósmico e político ao mesmo tempo: Morin afirma que o destino humano se tornou planetário.
4.1 A era planetária
O século XX e XXI criaram uma situação inédita:
economia global,
crises ecológicas globais,
guerras de escala planetária,
comunicação instantânea,
migrações massivas,
interdependência total.
O planeta virou um sistema único, mas nossa consciência continua fragmentada.
4.2 Unidade de destino
Morin propõe a noção de que a humanidade compartilha um destino comum:
ou aprendemos a viver juntos,
ou produziremos catástrofes juntos.
A educação precisa formar uma consciência planetária.
4.3 A contradição: globalização sem solidariedade
O mundo se globalizou tecnicamente, mas não eticamente.
Temos uma humanidade conectada por redes, mas separada por:
desigualdade,
intolerância,
exploração,
guerra cultural e econômica.
Educar para a identidade terrena é ensinar a pertencer ao planeta.
Capítulo 5 — Enfrentar as incertezas
“A incerteza é parte do real. A certeza absoluta é uma ilusão.”— Edgar Morin
“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para frente.”— Søren Kierkegaard
A educação tradicional vende uma promessa: “aprenda isso e o mundo ficará previsível”.Morin diz: isso é falso. O real é instável, não linear, imprevisível.
5.1 O mito do controle
A ciência moderna trouxe grandes conquistas, mas também alimentou o sonho de que tudo pode ser previsto e controlado.
Morin propõe outra postura: pensar estrategicamente em vez de acreditar em programas rígidos.
5.2 Estratégia versus programa
Programa: funciona quando o mundo é estável.
Estratégia: funciona quando o mundo muda.
Educar para o futuro é formar mentes estratégicas: capazes de ajustar rota, rever hipóteses e aprender no caminho.
5.3 A incerteza na ciência e na história
A história humana é cheia de rupturas:
revoluções,
colapsos,
pandemias,
mudanças tecnológicas abruptas.
A educação deve preparar para o inesperado, e isso exige:
coragem intelectual,
humildade,
plasticidade mental.
Capítulo 6 — Ensinar a compreensão
“A incompreensão é uma das fontes mais graves de sofrimento humano.”— Edgar Morin
“O inferno são os outros.”— Jean-Paul Sartre(e talvez o inferno seja não conseguir compreendê-los)
Este capítulo é profundamente ético. Morin afirma que a educação falhou ao não ensinar o essencial: compreender o outro.
6.1 Compreensão intelectual e compreensão humana
Morin diferencia:
compreensão intelectual: entender uma explicação, um conceito;
compreensão humana: entender uma pessoa, uma cultura, uma dor, um conflito.
A segunda é muito mais difícil — e mais necessária.
6.2 Os obstáculos à compreensão
Entre os obstáculos, Morin aponta:
egocentrismo,
etnocentrismo,
preconceito,
simplificação do outro,
fanatismo,
certezas absolutas.
Compreender exige reconhecer que o outro é complexo.
6.3 Compreender não é justificar
Um ponto decisivo: compreender não significa concordar.Compreender é:
enxergar o que leva alguém a agir,
reconhecer contextos,
perceber feridas e estruturas,
e ainda assim manter crítica.
A educação do futuro precisa ensinar empatia lúcida, não ingenuidade.
Capítulo 7 — A ética do gênero humano
“O indivíduo só existe em relação com a sociedade, e a sociedade só existe através dos indivíduos.”— Edgar Morin
“A liberdade é sempre a liberdade dos que pensam diferente.”— Rosa Luxemburgo
Morin encerra com o saber que amarra todos os outros: a ética.
Mas não uma ética moralista ou disciplinar. Ele fala de uma ética fundada na compreensão de que o humano é um ser trino:
indivíduo,
sociedade,
espécie.
7.1 A antropoética
Morin propõe uma ética do humano enquanto humano — uma ética capaz de sustentar:
responsabilidade,
solidariedade,
resistência ao barbarismo,
compromisso com a vida.
7.2 Democracia como construção frágil
A democracia não é um estado natural. Ela é frágil e exige:
pluralidade,
diálogo,
tolerância,
participação real.
Morin alerta que a educação deve formar cidadãos, não apenas técnicos.
7.3 Civilizar a civilização
A frase é forte: o mundo se modernizou, mas não se civilizou plenamente.A educação do futuro deve ser um projeto de civilização:
reduzir violência simbólica e material,
combater desumanização,
reconstruir laços.
Conclusão — Os sete saberes como uma reforma da consciência
Morin não está apenas propondo uma reforma escolar. Ele está propondo uma reforma da mente.
Os sete saberes são como sete instrumentos de orientação para atravessar o caos do presente:
reconhecer o erro e a ilusão;
produzir conhecimento pertinente;
compreender a condição humana;
assumir a identidade terrena;
enfrentar as incertezas;
ensinar a compreensão;
fundar uma ética do gênero humano.
Em um mundo saturado de dados e pobre de sentido, a educação do futuro será aquela capaz de religar o que foi separado:razão e sensibilidade, ciência e filosofia, indivíduo e planeta, conhecimento e responsabilidade.
“O destino do humano é desconhecido, mas ele depende do que fazemos com o que sabemos.”— Edgar Morin (síntese do espírito da obra)
Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro é um chamado para reconstruir a educação como formação integral do pensamento e da consciência.
Edgar Morin defende que o ensino precisa enfrentar os erros do conhecimento, religar saberes fragmentados, ensinar o humano em sua complexidade, cultivar a identidade planetária, preparar para as incertezas, formar para a compreensão e fundamentar uma ética do gênero humano. O livro propõe uma educação capaz de criar lucidez em tempos de confusão e humanidade em tempos de desumanização.




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