Quando a Crítica Perde o Chão
- carlospessegatti
- 3 de jan.
- 4 min de leitura

Teoria crítica, pós-estruturalismo e a dificuldade de pensar o presente em um mundo que já não se explica
“A tarefa da filosofia não é consolar, mas perturbar.”— Theodor W. Adorno
“Não estamos no início de uma era, mas no fim de uma maneira de pensar.”— Michel Foucault
Há um mal-estar específico no pensamento contemporâneo: sabemos que algo está profundamente errado, mas já não sabemos exatamente como nomear esse erro. As categorias críticas que herdamos — ideologia, alienação, fetichismo, racionalidade instrumental — ainda circulam, mas frequentemente soam como ecos de um mundo que já não existe da mesma forma.
O presente se apresenta como um campo de forças fragmentado, acelerado, hiper-mediado, governado por algoritmos, saturado de discursos morais e, paradoxalmente, empobrecido de pensamento. Nunca se falou tanto — e nunca se pensou tão pouco coletivamente.
É nesse cenário que alguns trabalhos recentes e movimentos editoriais — como Summer of Our Discontent, a coletânea Critical Theory and Dystopia e as séries New Directions in Critical Theory — revelam não apenas novos diagnósticos, mas algo mais inquietante: a percepção de que as ferramentas tradicionais da crítica já não dão conta do mundo que ajudaram a criar.
A herança da Escola de Frankfurt — e o seu limite histórico
A Escola de Frankfurt nasceu da tentativa de compreender por que a razão, ao invés de emancipar, passou a servir à dominação. Adorno, Horkheimer e Marcuse analisaram como o capitalismo avançado transformou cultura, técnica e subjetividade em engrenagens de reprodução social.
Mas havia ali uma pressuposição decisiva: ainda existia um sujeito potencialmente crítico, capaz de reconhecer a dominação ao ser confrontado com ela.
Hoje, essa suposição vacila.
O capitalismo digital não apenas domina — ele modela afetos, ritmos, desejos e formas de atenção. Não se trata mais de alienação no sentido clássico, mas de imersão total. A crítica já não vem de fora, porque o “fora” se tornou raro.
O colapso do discurso e a era da certeza
Summer of Our Discontent identifica um sintoma central do nosso tempo: a passagem de uma cultura do debate para uma cultura da certeza moral. O discurso público já não opera pela persuasão, mas pela afirmação identitária.
Discordar tornou-se suspeito; pensar lentamente, um luxo.
Essa análise dialoga diretamente com o diagnóstico frankfurtiano da razão instrumental, mas aponta para algo novo: a linguagem deixou de ser meio de mediação e tornou-se dispositivo de controle simbólico.
O problema não é apenas o “cancelamento” ou a polarização, mas a transformação da linguagem em sinal, em performance de pertencimento.
Fala-se para marcar posição, não para compreender.
Aqui, a crítica liberal ao “fim do discurso” é insuficiente. O discurso não morreu — ele foi reprogramado.
Distopia: o presente levado ao limite
É nesse ponto que a reflexão sobre a distopia se torna decisiva. Em Critical Theory and Dystopia, o gênero distópico não aparece como ficção futurista, mas como expressão simbólica do agora.
A distopia não projeta o medo — ela explicita o que já vivemos:
vigilância normalizada
gestão algorítmica da vida
subjetividades moduladas
política reduzida a administração
tempo fragmentado e acelerado
Se antes a teoria crítica analisava a indústria cultural, hoje a própria realidade social funciona como uma narrativa distópica contínua, sem necessidade de metáfora.
O pós-estruturalismo: quando o poder se dissolve — e se infiltra
Sem o pós-estruturalismo, seria impossível compreender esse cenário.
Foucault desmontou a ideia de um poder centralizado; mostrou que ele opera em redes, práticas, discursos e saberes. Derrida revelou a instabilidade do sentido.
Deleuze pensou o controle contínuo, modulatório, rizomático.
Essas ferramentas são essenciais para pensar:
governamentalidade algorítmica
subjetividade performativa
identidade como processo
poder sem rosto
Mas elas também nos colocam diante de um impasse: se o poder está em toda parte, de onde falar criticamente?
Parte da crise atual da teoria nasce exatamente dessa tensão entre:
a crítica estrutural (Frankfurt, Marx)
e a crítica da dispersão (pós-estruturalismo)
New Directions in Critical Theory: pensar sem chão firme
As séries New Directions in Critical Theory surgem como tentativa de habitar esse terreno instável, incorporando raça, gênero, colonialidade, globalização e tecnologia não como temas periféricos, mas como núcleo do problema contemporâneo.
Aqui, a teoria crítica abandona a pretensão de totalidade e passa a operar por constelações, aproximações, cruzamentos — algo muito próximo da lógica da arte contemporânea e da criação sonora experimental.
Pensar torna-se um gesto provisório, situado, tenso, mas necessário.
Tecnologia, tempo e estética: pensar também é criar formas
Há algo profundamente significativo no fato de que muitos dos diagnósticos mais potentes do presente não vêm apenas da filosofia, mas da arte, da música, do cinema, da ficção científica, da paisagem sonora.
O colapso do tempo linear, a fragmentação da atenção, o excesso de estímulos, o silêncio impossível — tudo isso é vivido antes de ser conceituado.
A criação estética torna-se, assim, uma forma de teoria sensível. Não explica — mas faz sentir. Não resolve — mas revela.
Talvez por isso a crítica contemporânea precise aprender com a música experimental, com os drones, com as texturas lentas, com o ruído, com o vazio: formas de resistência à aceleração e à captura total da experiência.
Pensar quando as categorias falham
“O pensamento começa onde os conceitos deixam de funcionar.”
O desafio do nosso tempo não é recuperar antigas certezas, mas pensar sem garantias. Aceitar que o mundo se tornou mais opaco, mais instável, mais difícil de narrar.
A teoria crítica, se quiser continuar viva, precisa abandonar o conforto de sistemas fechados e se abrir à experimentação — conceitual, estética e existencial.
Pensar hoje é um ato frágil. Mas ainda é um ato necessário.



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