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Série Mitológica: Deuses antigos para um mundo em crise

  • carlospessegatti
  • 5 de jan.
  • 6 min de leitura

Série Mitológica: Deuses Antigos para um Mundo em Crise


Mitologia como teoria crítica do contemporâneo


Este texto inaugura uma série que parte de um pressuposto simples, mas radical: os mitos não explicam o passado — eles interrogam o presente.


A mitologia greco-romana não será tratada aqui como folclore, nem como curiosidade histórica, mas como arquivo simbólico da condição humana, capaz de iluminar as contradições do mundo contemporâneo melhor do que muitos modelos analíticos tradicionais.


Por que mitologia hoje?

Vivemos um tempo em que:

  • a técnica avança mais rápido que a reflexão,

  • a informação circula mais do que o sentido,

  • o futuro se impõe sem ser pensado.


Os mitos operam exatamente onde a linguagem técnica falha: no campo do símbolo, da ambiguidade, do trágico e do não resolvido. Eles não oferecem respostas fechadas, mas estruturas de interpretação.

Um recorte contemporâneo


Cada texto da série tomará um personagem mitológico como chave de leitura para questões atuais:

  • Hermes: mediação, linguagem, algoritmos.

  • Mnemosyne: memória, esquecimento, arquivo digital.

  • Cronos: tempo, aceleração, esgotamento.

  • Hécate: margens, invisibilidade, zonas liminares.

  • Ícaro: hybris tecnológica, excesso, queda.


Não se trata de atualizar os mitos, mas de deixar que eles nos interpelem.

Entre filosofia, ciência e arte


A série dialoga com:

  • teoria crítica,

  • filosofia política,

  • ciência contemporânea,

  • estética sonora e musical.


A mitologia surge aqui como pensamento transversal, capaz de conectar essas esferas sem reduzi-las.


Mito como resistência

Num mundo saturado de dados, o mito resiste como forma de pensamento lento, simbólico e reflexivo. Ele não compete com o algoritmo — ele o desnuda.

Esta série é um convite a olhar para os deuses antigos não como ruínas, mas como espelhos distorcidos do nosso próprio tempo.



Calendário Editorial


Bloco I — Mediação, Linguagem e Poder

O mundo que comunica demais e compreende de menos.

1. Hermes (Mito a ser tratado hoje)

Título: Hermes: O Deus da Mediação, do Ruído e do Mundo em TrânsitoEixo:

  • Linguagem

  • Algoritmos

  • Informação e poder


    Função na série: Texto de abertura. Apresenta o método e o recorte contemporâneo.


2. Mnemosyne

Título sugerido: Mnemosyne: Memória, Arquivo e o Esquecimento Programado


Eixo:

  • Memória vs. apagamento

  • Big Data

  • História e identidade


    Diálogo: Hermes (circulação) → Mnemosyne (retenção)


Bloco II — Tempo, Aceleração e Esgotamento

O colapso do tempo humano diante do tempo técnico.

3. Cronos

Título sugerido: Cronos: O Tempo que Devora seus Filhos

Eixo:

  • Aceleração

  • Obsolescência

  • Envelhecimento e finitude


    Diálogo: memória sob ataque + tempo acelerado


4. Kairós (menos óbvio, altamente sofisticado)

Título sugerido: Kairós: O Tempo da Escuta em um Mundo sem Pausas

Eixo:

  • Tempo qualitativo

  • Arte como interrupção

  • Música como experiência temporal


    Função: Contraponto a Cronos


Bloco III — Técnica, Hybris e Queda

Quando o poder técnico excede a consciência.

5. Prometeu (retorno com novo recorte)

Título sugerido: Prometeu Revisitado: Técnica sem Emancipação

Eixo:

  • Tecnologia

  • Capitalismo

  • Castigo sem redenção


    Diálogo: Técnica como promessa frustrada


6. Ícaro

Título sugerido: Ícaro: O Mito do Excesso Tecnológico

Eixo:

  • Hybris moderna

  • IA, transumanismo

  • Limites ignorados


    Função: O colapso como consequência


Bloco IV — Margens, Invisibilidades e Resistência

O que o sistema não sabe ler.

7. Hécate

Título sugerido: Hécate: As Encruzilhadas do Invisível

Eixo:

  • Marginalidade

  • Zonas cinzentas

  • O não mensurável


    Diálogo: Resistência simbólica


8. Dioniso (retorno crítico)

Título sugerido: Dioniso sem Festa: Corpo, Afeto e Controle

Eixo:

  • Afeto controlado

  • Cultura de massa

  • Simulação do êxtase


    Função: Crítica à mercantilização do sensível


Bloco V — Arte, Forma e Possibilidade

O que ainda pode ser salvo.

9. Apolo

Título sugerido: Apolo e a Forma em Tempos de Ruído

Eixo:

  • Forma estética

  • Música, estrutura

  • Resistência pela composição


    Diálogo: Ordem sem autoritarismo


10. Orfeu (fechamento da série)

Título sugerido: Orfeu: A Arte que Desce ao Inferno

Eixo:

  • Arte como travessia

  • Criação diante da morte

  • Música como ontologia


    Função: Encerramento poético-filosófico



Hermes: O Deus da Mediação, do Ruído e do Mundo em Trânsito


Mitologia, linguagem e poder na era dos algoritmos

Na mitologia greco-romana, Hermes jamais foi um deus do repouso. Ele nasce em movimento, vive em trânsito e governa tudo aquilo que não permanece fixo. Mensageiro dos deuses, patrono dos viajantes, dos comerciantes, dos ladrões e dos intérpretes, Hermes ocupa o espaço do entre — entre mundos, entre discursos, entre sentidos.


Se Atena representa a razão estratégica e Apolo a forma, Hermes é o fluxo. Ele não cria a verdade, mas a transporta. Não funda a lei, mas a traduz. Seu poder não está no conteúdo, mas na circulação.


Hermes como deus da linguagem

Hermes é, antes de tudo, o deus da palavra em deslocamento. Não da palavra sagrada e fixa, mas da palavra que escapa, que pode ser reinterpretada, distorcida, manipulada. Não por acaso, é dele que vem o termo hermenêutica: a arte da interpretação.


Na contemporaneidade, esse aspecto hermético ganha uma força inédita. Vivemos imersos em sistemas de mediação que não apenas transmitem mensagens, mas reordenam o sentido. Algoritmos, plataformas, inteligências artificiais, feeds e filtros operam como novos mensageiros — não neutros, não transparentes.


Hermes retorna, agora, como metáfora do poder informacional.


O mensageiro que nunca é inocente

Na mitologia, Hermes também é trapaceiro. Ele rouba o gado de Apolo ainda criança e depois inventa a lira para apaziguar o conflito. Esse detalhe é essencial: Hermes não separa técnica, astúcia e sedução.


Hoje, a mediação tecnológica também se apresenta como neutra, enquanto organiza desejos, afeta comportamentos e molda subjetividades. O mensageiro já não entrega apenas a mensagem — ele decide o alcance, o tempo, a relevância e o esquecimento.


Hermes, aqui, não é vilão nem herói. Ele é estrutura.


Hermes e a governamentalidade contemporânea

Se Prometeu simboliza o nascimento da técnica, Hermes representa sua gestão cotidiana. Ele governa a circulação, o tráfego, o acesso. Seu domínio é invisível, mas decisivo.


Na era da governamentalidade algorítmica, Hermes reaparece como:

  • curador invisível de discursos,

  • gestor da atenção,

  • operador do ruído,

  • mediador entre sujeito e mundo.


Não vivemos mais sob o silêncio dos deuses, mas sob o excesso de mensagens. Hermes reina onde tudo comunica e nada se fixa.


O som, o ruído e a música hermética

Hermes também é o inventor da lira. A música, aqui, não é harmonia pura (apolínea), nem êxtase desmedido (dionisíaco), mas mediação vibracional. Frequência, passagem, ressonância.


Pensar Hermes a partir da música é pensar:

  • o som como meio,

  • a textura como linguagem,

  • o ruído como forma de expressão.


Na minha pesquisa sonora, Hermes pode ser lido como o deus dos pads, drones, ambiências e camadas invisíveis — aquilo que sustenta a experiência sem se impor como melodia central.


Hermes hoje

Hermes não morreu. Ele apenas trocou as sandálias aladas por cabos, sinais, dados e redes. Ele continua governando as travessias, agora digitais, cognitivas e afetivas.


Compreender Hermes hoje é compreender que quem controla a mediação controla o mundo.



O Que os Deuses Ainda Têm a Nos Dizer


Mitologia, técnica e arte num mundo que perdeu seus símbolos


Há algo de profundamente paradoxal no nosso tempo: nunca produzimos tantos dados, nunca falamos tanto, nunca comunicamos com tamanha velocidade — e, ainda assim, experimentamos uma sensação crescente de vazio simbólico. As palavras circulam, mas já não se fixam; as imagens se acumulam, mas já não significam; o futuro se anuncia, mas não se compreende.


É nesse cenário que os deuses antigos retornam. Não como crença, nem como nostalgia, mas como estruturas de pensamento capazes de iluminar zonas que a linguagem técnica e os modelos analíticos contemporâneos não conseguem alcançar.


O mito não explica: ele tensiona

Diferente da ciência, o mito não busca resolver. Diferente da ideologia, ele não pretende convencer. O mito mantém o conflito aberto. Ele nomeia forças, dramatiza tensões, expõe contradições sem anulá-las.


Quando falamos de Hermes, Cronos, Mnemosyne ou Orfeu, não estamos falando de personagens, mas de regimes de experiência: modos de relação com o tempo, com a linguagem, com a memória, com a criação.


O erro moderno foi imaginar que, ao substituir os mitos por sistemas técnicos, nos libertaríamos deles. O que fizemos foi apenas trocar de deuses — agora invisíveis, automáticos e sem nome.


Técnica sem símbolo é dominação

A técnica, quando não atravessada por reflexão simbólica, tende a se tornar poder opaco. Ela opera, calcula, otimiza — mas não pergunta pelo sentido.


Prometeu sem Atena, Hermes sem Mnemosyne, Cronos sem Kairós: eis a arquitetura do mundo contemporâneo.


Os mitos revelam aquilo que a técnica esconde: que toda ferramenta carrega uma visão de mundo, que toda mediação produz exclusões, que todo avanço implica perdas.


Arte como último território mitológico

A arte — e especialmente a música — talvez seja hoje o espaço onde o mito ainda respira. Não porque narre deuses, mas porque opera no nível da vibração, do tempo vivido, do afeto não traduzível.


A música não explica: ela convoca.Ela não informa: ela ressoa.

Nesse sentido, Orfeu não é apenas um mito sobre a música, mas sobre a coragem de criar diante da morte, de descer aos infernos do tempo presente sem a garantia de retorno.


Entre o colapso e a escuta

Vivemos sob o domínio de Cronos: aceleração, obsolescência, exaustão. Mas os mitos nos lembram que existem outros tempos, outras formas de habitar o mundo. Kairós ainda é possível — nos intervalos, na escuta, na arte que interrompe.


Os deuses não voltam para nos salvar. Eles retornam para nos lembrar do que esquecemos: que somos seres simbólicos antes de sermos usuários, produtores ou dados.


Um convite

Esta série não propõe respostas. Ela propõe leituras. Não busca restaurar o passado, mas tensionar o presente. Não oferece consolo, mas instrumentos de pensamento.


Se os deuses ainda têm algo a nos dizer, talvez seja isto: que nenhum mundo sobrevive muito tempo quando perde a capacidade de significar a si mesmo.


 
 
 

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