Série Mitológica - Mnemosyne: Memória, Arquivo e o Esquecimento Programado
- carlospessegatti
- 13 de jan.
- 3 min de leitura

“A memória não é um instrumento para explorar o passado, mas o meio.” Walter Benjamin
“Aquilo que não é lembrado está condenado a repetir-se.” George Santayana
“Toda dominação necessita organizar o esquecimento.” Theodor W. Adorno
Da circulação à retenção: Hermes encontra Mnemosyne
Ao refletirmos sobre Hermes, entramos no regime da circulação: linguagem, mediação, trânsito incessante de signos, informações e mercadorias. Hermes é o deus do fluxo, da ambiguidade, da aceleração e do poder que nasce do movimento. Ele governa as passagens, mas não a permanência.
Toda circulação, porém, exige retenção. Não há linguagem sem memória, nem comunicação sem algo que permaneça. O fluxo absoluto dissolve o sentido. É nesse ponto que Hermes encontra Mnemosyne.
Se Hermes é o vetor, Mnemosyne é o campo de inscrição. Se Hermes opera na velocidade, Mnemosyne opera na duração. Se Hermes transporta, Mnemosyne funda.
A transição entre esses dois deuses nos coloca diante de uma questão decisiva do presente: quem detém o poder de reter, organizar e apagar a memória?
Mnemosyne: memória como condição do humano
Mnemosyne, na mitologia grega, não é uma deusa olímpica, mas uma Titânide. Filha de Urano e Gaia, ela antecede a ordem instituída dos deuses do poder. A memória vem antes da lei, antes da guerra, antes da administração do mundo.
Com Zeus, Mnemosyne gera as nove Musas. O simbolismo é inequívoco: toda arte, toda ciência, toda forma de conhecimento nasce da memória. Não há criação ex nihilo. Criar é sempre reorganizar o lembrado.
A memória, aqui, não é um arquivo estático do passado, mas uma força produtiva, capaz de sustentar a continuidade da experiência humana no tempo.
Memória, identidade e tempo histórico
Para os gregos, lembrar não significava simplesmente recordar fatos passados. Lembrar era atualizar o passado no presente, reinscrevê-lo na vida comum. A memória era uma prática, não um objeto.
O esquecimento, por sua vez, não era neutro. Significava dissolução da identidade, ruptura da narrativa e perda de pertencimento. Um sujeito sem memória é um sujeito desancorado no tempo.
Aqui, Mnemosyne revela sua dimensão política: a memória é o solo sobre o qual se constroem identidades individuais e coletivas.
Do mito ao presente: Big Data e a promessa da memória total
O mundo contemporâneo anuncia uma nova utopia: a da memória absoluta. Tudo é registrado, arquivado, indexado e quantificado. O Big Data apresenta-se como uma Mnemosyne técnica, onisciente e infinita.
Mas essa promessa carrega uma inversão profunda.
Nunca tivemos tantos registros e, ao mesmo tempo, nunca fomos tão frágeis do ponto de vista da memória histórica. O excesso de dados não produz lembrança — produz ruído.
A memória deixa de ser narrativa e torna-se cálculo. Deixa de ser experiência e converte-se em rastreamento.
Arquivo não é memória
“O arquivo não é a memória, mas a lei do que pode ser dito.” Michel Foucault
O arquivo organiza, classifica e hierarquiza. Ele responde a critérios de poder, eficiência e governabilidade. O arquivo seleciona aquilo que merece ser conservado e aquilo que pode desaparecer.
A memória, ao contrário, é instável, conflitiva e afetiva. Ela abriga traumas, silêncios, resistências e narrativas subterrâneas.
Quando o arquivo substitui a memória, não se perde informação — perde-se sentido.
O esquecimento programado
O esquecimento contemporâneo não opera mais prioritariamente pela censura direta. Ele funciona por saturação, aceleração e dispersão.
Esquece-se porque:
tudo acontece ao mesmo tempo,
nada permanece tempo suficiente,
toda narrativa é rapidamente substituída por outra.
O feed contínuo funciona como o novo rio Lete: não apaga à força, mas dissolve por excesso.
História, poder e apagamento
“A história é escrita pelos vencedores, mas o esquecimento é administrado pelos gestores.”
Quem controla os arquivos controla a história possível. Quem define os algoritmos de visibilidade define o que será lembrado e o que desaparecerá sem vestígios.
O presente torna-se uma sucessão de instantes descartáveis. O passado perde densidade crítica. O futuro torna-se incapaz de imaginar o novo.
Mnemosyne como resistência
Recuperar Mnemosyne hoje não é um gesto arqueológico, mas um ato de resistência.
Lembrar passa a ser:
um gesto contra a aceleração,
uma recusa ao apagamento sistêmico,
uma tentativa de reinscrever continuidade onde tudo tende à fragmentação.
A arte, a música experimental, a escrita ensaística e o pensamento crítico tornam-se práticas mnemônicas. Criam arquivos sensíveis, não totalmente capturáveis pela lógica algorítmica.
Memória como horizonte do futuro
Se Hermes nos ensinou sobre circulação, Mnemosyne nos ensina sobre duração. Um mundo entregue apenas ao fluxo perde profundidade histórica e capacidade crítica.
O desafio contemporâneo não é escolher entre memória e tecnologia, mas impedir que a técnica se torne o único regime da lembrança.
Mnemosyne nos lembra que sem memória não há sujeito, não há história e não há futuro — apenas repetição.
Na continuidade desta série mitológica, seguiremos investigando como figuras arcaicas continuam a iluminar, com inquietante precisão, as estruturas invisíveis do nosso presente.




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