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A Odisseia de Christopher Nolan: quando Homero atravessa três milênios para reencontrar o século XXI

carlospessegatti
19 de jul.
5 min de leitura


Há livros que pertencem ao seu tempo.


Há outros que pertencem à eternidade.


A Odisseia, de Homero, é um desses raros acontecimentos da cultura humana que parecem escapar da erosão dos séculos. Escrita há quase três mil anos, ela continua nos olhando como se tivesse sido concebida ontem. Não porque descreva monstros marinhos, sereias ou deuses caprichosos, mas porque fala daquilo que jamais deixou de existir: o medo, a coragem, a perda, a memória, o amor e o desejo obstinado de voltar para casa.


Era inevitável que, cedo ou tarde, um cineasta da estatura de Christopher Nolan encontrasse esse caminho.


Poucos diretores contemporâneos possuem uma filmografia tão marcada pela investigação do tempo, da memória e da identidade. De Memento a Interestelar, de A Origem a Oppenheimer, Nolan sempre pareceu interessado menos nas respostas do que nas perguntas fundamentais da existência humana. Não surpreende, portanto, que tenha escolhido justamente A Odisseia para seu projeto mais ambicioso.


Porque, na verdade, toda a sua obra vinha conduzindo até aqui.


O maior desafio: filmar um mito


Adaptar Homero nunca significou apenas transportar um texto para as telas.

Significou enfrentar um problema muito maior.


Como representar cinematograficamente uma narrativa que pertence ao território do mito?


O mito não descreve acontecimentos.


Ele descreve estruturas permanentes da condição humana.


Se reduzido a espetáculo visual, perde sua profundidade.


Se tratado apenas como filosofia, perde sua força dramática.


O grande mérito de Nolan parece estar justamente em buscar um delicado equilíbrio entre esses dois polos.


As primeiras críticas destacam um filme monumental, filmado inteiramente com câmeras IMAX, utilizando uma nova geração dessa tecnologia, capaz de oferecer uma experiência visual de enorme imersão. Mais do que um feito técnico, essa escolha transforma a paisagem em personagem. O mar deixa de ser cenário para tornar-se uma presença quase metafísica, enquanto montanhas, cavernas, desertos e tempestades adquirem dimensão simbólica.


Não é casual que Nolan tenha escolhido locações reais espalhadas pela Grécia, Sicília, Islândia, Marrocos, Escócia e Malta.


Os deuses talvez pertençam à imaginação.


Mas a natureza continua sendo absolutamente real.


A fotografia da imensidão


Há diretores que filmam personagens.


Nolan costuma filmar escalas.


Sua parceria com Hoyte van Hoytema alcança aqui uma das expressões mais grandiosas de sua carreira.


O horizonte parece infinito.


Os navios tornam-se frágeis diante da vastidão do oceano.


As tempestades não são apenas fenômenos climáticos.


São manifestações visíveis do destino.


A fotografia compreende algo essencial da epopeia de Homero: o homem nunca é maior do que o mundo que atravessa.


Talvez seja justamente essa sensação de pequenez que devolva ao cinema contemporâneo algo que há muito vinha se perdendo: o sublime.


A música como arquitetura emocional


Outro elemento decisivo é a trilha sonora de Ludwig Göransson.


Depois de suceder Hans Zimmer nas obras recentes de Nolan, Göransson demonstra novamente uma rara capacidade de construir música não apenas para acompanhar imagens, mas para organizar emocionalmente a narrativa.


Os temas orquestrais, os coros, as texturas eletrônicas discretas e a enorme massa sonora parecem funcionar como uma extensão psicológica da viagem de Odisseu.


Na tradição grega, a poesia era cantada.


Talvez seja por isso que uma boa trilha sonora nunca seja um adorno.


Ela devolve ao poema sua natureza original.


Odisseu: o herói da inteligência


Talvez a maior novidade de Homero esteja justamente na natureza de seu protagonista.


Antes dele, os heróis eram definidos quase exclusivamente pela força física.


Aquiles vence porque é invencível.


Hércules porque é poderoso.


Odisseu vence porque pensa.


Sua principal arma nunca foi a espada.


Foi a inteligência.


Foi a capacidade de improvisar.


Foi a paciência.


Foi a estratégia.


Foi a palavra.


É dele a invenção do Cavalo de Troia.


É dele a astúcia diante do Ciclope.


É dele a resistência diante do canto das sereias.


Homero parece inaugurar um novo tipo de heroísmo.


O verdadeiro guerreiro não derrota apenas seus inimigos.


Derrota, antes de tudo, a si mesmo.


Cada monstro é uma metáfora


Durante séculos, leitores perguntaram se o Ciclope existiu.

Talvez essa nunca tenha sido a pergunta correta.


O importante é perceber que Polifemo continua existindo.


Ele aparece toda vez que a força despreza a inteligência.


As sereias continuam cantando.


Hoje elas talvez tenham a forma de algoritmos cuidadosamente projetados para capturar nossa atenção.


Circe continua transformando homens em animais.


Agora, porém, essa transformação pode ocorrer pela sedução do poder, do consumo ou da alienação.


O mar continua revolto.


Apenas mudou de nome.


Hoje ele pode chamar-se ansiedade.


Pode chamar-se solidão.


Pode chamar-se excesso de informação.


Os monstros da Antiguidade nunca desapareceram.


Eles apenas aprenderam a vestir roupas modernas.


O retorno impossível


Costuma-se dizer que A Odisseia narra o retorno de Odisseu para Ítaca.


Não exatamente.


Porque ninguém retorna ao lugar de onde partiu.


O tempo transforma tudo.


Transforma a paisagem.


Transforma as pessoas.


Transforma o viajante.


Ao voltar, Odisseu descobre que Ítaca já não é a mesma.


Mas descobre algo ainda mais importante.


Ele próprio também deixou de ser.


Essa talvez seja uma das ideias mais profundas de toda a literatura ocidental.


Toda grande viagem termina numa descoberta interior.


O nascimento do romance


Muito antes de Cervantes, Balzac, Tolstói, Machado de Assis ou Proust, Homero já compreendia algo extraordinário.


As aventuras não existem apenas para impressionar o leitor.


Existem para transformar aquele que as vive.


É por isso que muitos estudiosos consideram A Odisseia uma das matrizes de toda a narrativa ocidental.


Ali já estão presentes o desenvolvimento psicológico do protagonista, a construção da memória, a alternância temporal, o suspense narrativo, os múltiplos pontos de vista e a lenta formação da identidade.


Em certo sentido, todo romance moderno ainda dialoga com Homero.



O que Odisseu pode ensinar ao século XXI?


Vivemos uma época fascinada pela velocidade.


Odisseu ensina a perseverança.


Vivemos cercados por distrações permanentes.


Ele ensina foco.


Vivemos consumindo respostas instantâneas.


Ele ensina paciência.


Vivemos num tempo em que frequentemente confundimos força com violência.


Ele demonstra que inteligência pode ser a forma mais elevada de coragem.


Talvez seja exatamente essa a razão pela qual A Odisseia permanece viva.


Porque não fala apenas da travessia de um homem.


Fala da travessia da própria humanidade.


Todos nós navegamos entre tempestades.


Todos enfrentamos monstros.


Todos escutamos sereias.


Todos, em algum momento, perdemos o rumo.


E todos carregamos, consciente ou inconscientemente, uma Ítaca interior esperando por nosso retorno.


Christopher Nolan parece ter compreendido essa verdade essencial.


Seu filme não é apenas uma adaptação de Homero.


É um reencontro entre duas formas de imaginar o infinito: a poesia e o cinema.


Se Homero foi capaz de transformar a palavra em viagem, Nolan procura agora transformar a luz em epopeia.


E talvez seja essa a maior lição que ambos nos oferecem.


As tecnologias mudam.


As linguagens evoluem.


Os impérios desaparecem.


Mas a grande aventura humana continua exatamente a mesma.


Ainda navegamos.


Ainda buscamos.


Ainda sonhamos.


E talvez seja justamente isso que faz de A Odisseia não um livro sobre o passado, mas um espelho permanentemente voltado para o futuro.

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