Clara E. Mattei, a história política da austeridade, o enfraquecimento do trabalho e a auto-organização da sociedade

A Ordem do Capital e as Possibilidades de sua Superação
Observatório — Ensaios Fundamentais
Introdução — O capitalismo é uma ordem natural ou uma construção histórica?
Existe uma das perguntas mais importantes que podemos formular diante da organização econômica do mundo contemporâneo: por que uma sociedade capaz de produzir quantidades extraordinárias de riqueza, desenvolver tecnologias cada vez mais sofisticadas e ampliar continuamente sua capacidade de transformar a natureza continua submetendo parcelas tão expressivas de sua população à insegurança material, à precariedade do trabalho e à dificuldade de satisfazer necessidades fundamentais?
A pergunta torna-se ainda mais inquietante quando observamos que a pobreza, o desemprego e a insuficiência de serviços públicos coexistem com grandes concentrações de riqueza, recursos produtivos ociosos e avanços científicos que poderiam contribuir para reduzir significativamente o sofrimento humano.
Seria esse resultado uma falha ocasional de um sistema essencialmente equilibrado? Uma consequência inevitável da escassez de recursos? Ou deveríamos investigar a possibilidade de que as próprias estruturas responsáveis pela produção e distribuição da riqueza estejam organizadas segundo prioridades que não correspondem necessariamente às necessidades da maioria?
É nesse território que se insere o trabalho da economista política Clara E. Mattei, professora da Universidade de Tulsa, nos Estados Unidos. Em seu livro A Ordem do Capital: Como os economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo, publicado originalmente em inglês em 2022, a autora desenvolve uma interpretação histórica segundo a qual a austeridade não pode ser compreendida apenas como uma técnica de administração das contas públicas. Ela precisa ser examinada também como um instrumento político de preservação das relações sociais capitalistas.
Em seu livro posterior, Escape from Capitalism, publicado originalmente em 2026, Mattei amplia essa investigação e desloca a atenção para as possibilidades de construção de formas alternativas de organização econômica e social. https://press.uchicago.edu/ucp/books/book/chicago/C/bo181707138 e https://www.simonandschuster.com/books/Escape-from-Capitalism/Clara-E-Mattei/9781668085141
O interesse de sua obra está, portanto, em duas operações intelectuais complementares: compreender como o capitalismo preserva suas estruturas de poder diante das crises e investigar por que essas estruturas, apesar de sua capacidade de reprodução, não são invulneráveis.
Este ensaio procura desenvolver essas duas dimensões. Para isso, percorre a formação histórica da ordem capitalista, a relação entre austeridade e disciplina do trabalho, o enfraquecimento dos sindicatos, a questão do pleno emprego, a função política das ideias econômicas e, finalmente, as experiências de auto-organização que podem abrir caminhos para uma democratização mais profunda da vida social.
A perspectiva adotada dialoga com Marx, Gramsci, Michal Kalecki e a tradição crítica da governamentalidade, procurando distinguir as teses específicas de Mattei das interpretações complementares desenvolvidas ao longo do texto.
1. O capitalismo como relação social
Para compreender a contribuição de Clara Mattei, é necessário abandonar inicialmente uma concepção excessivamente restrita do capitalismo.
O capitalismo não é apenas um sistema no qual existem empresas privadas, mercados, dinheiro e comércio. Essas instituições, isoladamente consideradas, não explicam a especificidade das relações capitalistas.
O elemento decisivo é a maneira como os recursos produtivos são controlados, como o trabalho é organizado e como a produção se orienta predominantemente pela valorização do capital.
Em termos gerais, uma parcela relativamente pequena da sociedade controla recursos produtivos fundamentais, enquanto a maioria depende, em graus variados, da obtenção de renda por meio do trabalho assalariado. Para viver, as pessoas precisam ter acesso a alimentos, moradia, energia, transporte, saúde e outros bens e serviços. Como não controlam diretamente os meios necessários à própria subsistência, precisam obter dinheiro, normalmente vendendo sua força de trabalho.
Essa dependência constitui uma das bases da relação capitalista.
A questão não é afirmar que todos os trabalhadores estejam submetidos às mesmas condições ou que inexistam outras fontes de renda. O problema estrutural consiste em reconhecer que, para grande parte da população, o acesso aos meios de vida depende da participação em uma economia cujas decisões fundamentais são tomadas segundo critérios de rentabilidade.
O trabalho produz bens, serviços, conhecimentos e infraestruturas indispensáveis à existência coletiva. Entretanto, a decisão sobre o que produzir, como produzir, onde investir e quais atividades serão encerradas depende, em grande medida, de agentes que controlam o capital.
Surge, assim, uma contradição fundamental: a produção é social, pois depende da cooperação de numerosas pessoas e instituições, mas o controle dos recursos produtivos e dos resultados econômicos permanece distribuído de maneira profundamente desigual.
É essa contradição que a tradição marxista procura compreender.
Em O Capital, Marx não descreve o capitalismo simplesmente como um sistema no qual existem pessoas ricas e pobres. Sua análise investiga a dinâmica pela qual o dinheiro é investido na produção com o objetivo de retornar ampliado, mediante a apropriação do excedente gerado no processo produtivo.
O capital não é, nessa perspectiva, apenas um conjunto de objetos ou uma quantidade de dinheiro. É também uma relação social que se reproduz por meio da propriedade, do trabalho assalariado, da concorrência e da acumulação.
Mattei retoma essa compreensão para demonstrar que a ordem capitalista precisa ser continuamente preservada. A dependência dos trabalhadores em relação ao mercado não é simplesmente um dado natural da existência humana: ela é reproduzida por instituições, políticas econômicas e decisões sobre a organização da sociedade.
A questão que emerge é decisiva: se a ordem capitalista depende de condições sociais específicas para continuar funcionando, essas condições também podem ser contestadas e transformadas.
2. Austeridade: mais do que uma política de contenção fiscal
Na linguagem econômica convencional, austeridade costuma designar medidas destinadas a reduzir déficits públicos, conter despesas, aumentar receitas ou controlar o endividamento estatal.
Esses instrumentos podem assumir formas variadas: cortes em serviços públicos, redução de investimentos, mudanças tributárias, restrições salariais, privatizações e políticas monetárias que elevam o custo do crédito.
O problema começa quando essas medidas são apresentadas como respostas exclusivamente técnicas, independentes dos interesses sociais envolvidos e das alternativas disponíveis.
A contribuição de Mattei consiste em perguntar quais relações de poder são preservadas quando a austeridade se torna a resposta preferencial às crises econômicas.
Em A Ordem do Capital, sua tese central é que a austeridade moderna se consolidou como uma resposta política à ameaça representada pela mobilização dos trabalhadores e pelas possibilidades de reorganização democrática da produção. Ela não seria apenas uma política que frequentemente produz resultados sociais negativos, mas também uma estratégia capaz de restaurar a disciplina do trabalho e proteger a propriedade privada dos meios de produção.
A autora examina essa dinâmica historicamente, concentrando-se sobretudo na Grã-Bretanha e na Itália do período entre as duas guerras mundiais. https://press.uchicago.edu/ucp/books/book/chicago/C/bo181707138
Para compreender a força de seu argumento, precisamos distinguir duas questões.
A primeira é saber se determinada medida fiscal ou monetária alcança os objetivos econômicos declarados.
A segunda é investigar quais grupos sociais são favorecidos ou prejudicados por sua implementação e como ela altera a distribuição do poder econômico.
Uma política pode não atingir plenamente seus objetivos declarados de crescimento, equilíbrio fiscal ou redução da dívida e, ainda assim, favorecer determinados interesses ao enfraquecer a capacidade de negociação dos trabalhadores, reduzir serviços públicos ou transferir oportunidades de investimento para agentes privados.
Essa é a hipótese crítica que Mattei nos convida a investigar.
2.1. A austeridade fiscal e a dependência do mercado
Quando o Estado reduz serviços públicos essenciais, os custos correspondentes não desaparecem necessariamente. Muitas vezes, são transferidos para as famílias.
Se o acesso a determinados serviços de saúde, educação, transporte ou cuidado se torna mais difícil, as pessoas precisam buscar alternativas privadas, reduzir seu consumo ou dedicar uma parcela maior do próprio tempo à obtenção de renda.
A consequência pode ser o aumento da dependência do mercado.
Um serviço que poderia ser oferecido coletivamente passa a depender mais diretamente da capacidade individual de pagamento. Uma necessidade social converte-se, em maior medida, em uma oportunidade de negócio.
Isso não significa que todo serviço privado seja prejudicial ou que toda despesa pública seja eficiente. A questão consiste em analisar como a combinação entre financiamento público, provisão privada e acesso por renda distribui custos, benefícios e poder de decisão.
A crítica de Mattei é dirigida à ideia de que a redução da atuação social do Estado seja necessariamente uma operação neutra de eficiência econômica.
Em determinadas circunstâncias, ela pode representar uma transferência de responsabilidades e recursos da esfera coletiva para o mercado.
2.2. Austeridade monetária e poder financeiro
A dimensão monetária merece atenção especial.
Quando as taxas de juros aumentam, o crédito tende a ficar mais caro. Dependendo das condições econômicas, isso pode reduzir investimentos, consumo, contratação de trabalhadores e atividade produtiva.
Ao mesmo tempo, determinados credores e detentores de ativos financeiros podem obter rendimentos maiores, embora os resultados dependam dos contratos, dos riscos, da inflação e das condições dos mercados.
Para Mattei, a política monetária integra o conjunto de mecanismos pelos quais se pode disciplinar o trabalho e proteger os interesses dos detentores de capital.
O desemprego, nesse quadro, não é analisado apenas como um indicador desfavorável da atividade econômica. Ele também pode alterar a relação de forças entre empregadores e trabalhadores.
Quando existem poucos empregos disponíveis e muitas pessoas procuram trabalho, os empregadores encontram maior facilidade para preencher vagas, enquanto os trabalhadores tendem a enfrentar maiores dificuldades para negociar salários, benefícios e condições de trabalho.
A austeridade monetária pode, portanto, exercer efeitos que ultrapassam o controle da inflação ou a estabilidade financeira: ela também pode influenciar a distribuição do poder de barganha.
É importante reconhecer que a relação entre juros, emprego, inflação e salários é complexa. A inflação pode ter diferentes causas, e a política monetária produz efeitos distintos conforme o contexto. O argumento de Mattei não dispensa essa análise; ele acrescenta a necessidade de perguntar como os custos e benefícios das decisões monetárias são distribuídos socialmente.
2.3. A austeridade industrial e a preservação da iniciativa privada
A dimensão industrial diz respeito à maneira como o Estado organiza ou deixa de organizar a produção.
Decisões sobre privatizações, política industrial, regulação, investimento público e apoio a empresas influenciam quais atividades recebem recursos e quais prioridades orientam o desenvolvimento econômico.
Quando a produção de bens essenciais depende exclusivamente de decisões privadas de investimento, a sociedade fica exposta a uma contradição: atividades socialmente necessárias podem não receber recursos suficientes quando sua rentabilidade esperada é considerada baixa.
A produção capitalista não precisa ser inútil para ser contraditória. Pode gerar bens indispensáveis e, ao mesmo tempo, deixar necessidades sem atendimento quando estas não se convertem em oportunidades adequadas de lucro.
A crítica de Mattei dirige-se à primazia das decisões privadas sobre a organização econômica e à apresentação dessa primazia como se fosse uma exigência técnica inevitável.
A austeridade fiscal, monetária e industrial pode ser compreendida, assim, como um conjunto articulado de políticas que afeta simultaneamente os recursos disponíveis à população, o custo do financiamento e o controle sobre o investimento.
Essa articulação é um dos aspectos mais importantes de sua interpretação.
3. A história da austeridade: da crise da Primeira Guerra Mundial à consolidação da ordem do capital
A história ocupa lugar central no trabalho de Mattei porque permite demonstrar que as instituições econômicas não são imutáveis.
Seu estudo começa com a Primeira Guerra Mundial, quando os Estados europeus precisaram reorganizar profundamente suas economias para sustentar o esforço militar.
A guerra exigiu mobilização de recursos, expansão da produção, controle de determinados preços, financiamento público e intervenção estatal em atividades econômicas que, em períodos anteriores, eram tratadas sob uma lógica mais estritamente privada.
A experiência revelou que a economia podia ser organizada de maneiras diferentes daquelas consideradas normais em tempos de paz.
Se os governos conseguiam mobilizar recursos em grande escala para fins militares, também se tornava possível discutir a utilização da capacidade produtiva para finalidades sociais.
Ao final da guerra, essas questões ganharam força em meio às greves, à mobilização operária e às discussões sobre o controle da produção.
3.1. O despertar de alternativas
O período posterior à Primeira Guerra Mundial foi marcado por conflitos sociais intensos.
Na Itália, o chamado Biennio Rosso, os anos de 1919 e 1920, foi caracterizado por greves, mobilizações camponesas, ocupações de fábricas e experiências de organização operária.
Os conselhos de fábrica de Turim, associados a militantes e intelectuais como Antonio Gramsci, expressavam a possibilidade de ampliar a participação dos trabalhadores nas decisões produtivas.
A questão já não se limitava ao valor dos salários ou à duração da jornada. Tratava-se de saber quem deveria controlar a produção, decidir seus objetivos e organizar o trabalho.
Na Grã-Bretanha, conflitos trabalhistas e debates sobre a reorganização econômica também colocaram em evidência as tensões entre as reivindicações dos trabalhadores, as prioridades governamentais e os interesses dos proprietários.
Essas experiências não constituíam um movimento homogêneo, nem significavam que a transformação socialista estivesse garantida. Mas demonstravam que a ordem econômica podia ser objeto de contestação coletiva.
É nesse contexto que Mattei situa a reação das elites econômicas e políticas.
3.2. A restauração da disciplina
Com o fim da guerra, governos e autoridades monetárias procuraram restabelecer condições de estabilidade fiscal e monetária. A restauração do padrão-ouro, a contenção de gastos, as restrições ao crédito e as políticas de redução de custos exerceram papel importante nesse processo.
Essas medidas tinham justificativas econômicas específicas, ligadas à estabilidade cambial, ao financiamento público e à reconstrução das economias.
Mattei, entretanto, investiga a dimensão política dessa restauração: a recuperação da disciplina monetária e fiscal também restringia as possibilidades de expansão das reivindicações trabalhistas e de experimentação com formas alternativas de controle da produção.
A estabilização econômica e a restauração da hierarquia social podiam, assim, caminhar juntas.
Na Itália, esse processo ocorreu em meio à ascensão do fascismo. O regime de Benito Mussolini reprimiu organizações operárias independentes, restringiu liberdades políticas e reorganizou as relações trabalhistas sob controle autoritário.
A análise de Mattei mostra como a defesa da ordem econômica e a repressão à autonomia dos trabalhadores puderam convergir, mesmo quando as justificativas apresentadas eram formuladas na linguagem da estabilidade e da responsabilidade financeira.
A relação histórica entre austeridade e fascismo, contudo, não deve ser convertida numa equivalência automática. A austeridade não produz necessariamente um regime fascista, e o fascismo possui dimensões políticas, ideológicas e repressivas próprias. O argumento é que determinadas políticas de austeridade podem contribuir para enfraquecer a capacidade democrática de contestação e, em certas circunstâncias, favorecer a consolidação de formas autoritárias de poder.
3.3. A economia como linguagem de autoridade
Outro aspecto importante da pesquisa é o papel dos economistas e das instituições especializadas.
Quando decisões econômicas são apresentadas como exigências incontornáveis de uma ciência neutra, o debate público tende a perder espaço.
A questão deixa de ser discutida como uma escolha entre diferentes prioridades sociais e passa a ser apresentada como um problema cuja solução estaria reservada aos especialistas.
Isso não significa que o conhecimento técnico seja dispensável. Economias complexas exigem conhecimento, investigação empírica e análise de consequências.
O problema surge quando a autoridade técnica é utilizada para encerrar a discussão sobre os objetivos da política econômica e sobre quem deve suportar seus custos.
A economia pode informar as decisões democráticas, mas não deveria substituir o debate democrático sobre os fins da sociedade.
É precisamente essa fronteira entre conhecimento especializado e autoridade política que torna o trabalho de Mattei relevante para o estudo da governamentalidade contemporânea.
4. Austeridade, coerção e consentimento
Em um ensaio derivado de sua pesquisa, Mattei sintetizou a austeridade como uma estratégia que opera tanto material quanto ideologicamente: por meio da coerção e do consentimento. https://www.publicbooks.org/capital-order-economic-austerity-fascism/
Essa formulação nos permite avançar para uma questão decisiva.
A reprodução de uma ordem econômica não depende exclusivamente da força física ou da imposição legal. Ela também depende da maneira como as pessoas interpretam suas próprias condições de vida e compreendem as alternativas disponíveis.
A coerção econômica pode manifestar-se quando a ausência de renda, a insegurança habitacional e a insuficiência de serviços públicos obrigam as pessoas a aceitar condições de trabalho que, em circunstâncias menos adversas, poderiam rejeitar.
O consentimento, por sua vez, pode surgir quando essas condições são interpretadas como naturais, inevitáveis ou exclusivamente determinadas pelas escolhas individuais.
O trabalhador que aceita um salário insuficiente porque não dispõe de alternativas concretas está submetido a uma restrição material. Quando a sociedade passa a interpretar essa situação como um problema exclusivamente individual, acrescenta-se a ela uma dimensão ideológica.
Não se trata de afirmar que os indivíduos sejam passivos ou que todas as pessoas interiorizem a mesma visão de mundo. A consciência social é contraditória, e as experiências de exploração podem gerar resistência, solidariedade e organização.
A questão é que a reprodução da ordem capitalista se torna mais fácil quando as limitações materiais são acompanhadas pela convicção de que não existem alternativas razoáveis.
Aqui encontramos uma aproximação produtiva com Antonio Gramsci.
O conceito gramsciano de hegemonia permite compreender como uma ordem social pode se sustentar não apenas pela coerção, mas também pela capacidade de produzir consentimento e incorporar seus valores ao senso comum.
A economia de mercado, nessa perspectiva, não se reproduz somente por meio dos contratos e das instituições. Ela também influencia a maneira pela qual a sociedade compreende o mérito, o sucesso, a responsabilidade e a própria ideia de liberdade.
Austeridade e ideologia podem, assim, reforçar-se mutuamente: a redução das alternativas materiais torna mais difícil a recusa da ordem existente, enquanto a naturalização dessa ordem dificulta a construção de alternativas coletivas.
5. O pleno emprego e a questão do poder dos trabalhadores
Entre as questões mais importantes para compreender a relação entre capitalismo e trabalho está o conceito de pleno emprego.
Em seu sentido econômico convencional, pleno emprego não significa que absolutamente todas as pessoas estejam trabalhando. Há sempre alguma rotatividade, pessoas em transição entre ocupações e indivíduos que não estão disponíveis para trabalhar.
O conceito designa, em termos gerais, uma situação na qual as pessoas que desejam e podem trabalhar encontram oportunidades de emprego em condições compatíveis com a estrutura econômica, sem que o desemprego involuntário se mantenha persistentemente elevado.
Mas a questão adquire outro significado quando examinada a partir das relações de poder entre capital e trabalho.
Se os trabalhadores encontram empregos com relativa facilidade, torna-se menos difícil abandonar um empregador abusivo, procurar melhores salários ou recusar determinadas condições.
Quando o desemprego é elevado, a situação se inverte. A possibilidade de perder a renda torna-se uma ameaça mais poderosa, e os empregadores podem encontrar maior facilidade para substituir trabalhadores que reivindicam melhores condições.
O pleno emprego pode, portanto, modificar a relação de forças no interior do mercado de trabalho.
5.1. Michal Kalecki e a crítica ao medo do pleno emprego
Nesse ponto, é indispensável recorrer ao economista polonês Michal Kalecki.
Em seu ensaio de 1943, Political Aspects of Full Employment — Aspectos políticos do pleno emprego —, Kalecki argumentou que a oposição empresarial ao pleno emprego não poderia ser explicada apenas por preocupações técnicas sobre inflação, gastos públicos ou equilíbrio macroeconômico.
Uma economia com emprego elevado e sustentado pode reduzir a dependência dos trabalhadores em relação a cada empregador. Se perder um emprego deixa de significar uma ameaça imediata à sobrevivência, a disciplina exercida pelo medo do desemprego enfraquece.
Kalecki observou que determinados setores empresariais poderiam se opor a políticas permanentes de pleno emprego porque elas alterariam a autoridade dos empregadores no local de trabalho e o equilíbrio político entre as classes.
O problema não seria somente o custo dos salários. Seria a redução do poder de disciplinar a força de trabalho.
Mattei recupera essa tradição ao discutir por que a austeridade e o desemprego podem ser politicamente funcionais à preservação da ordem capitalista. Em entrevista sobre seu livro, ela aborda explicitamente a contribuição de Kalecki para compreender o conflito entre pleno emprego e disciplina do trabalho. https://revdem.ceu.edu/2023/04/27/clara-mattei-why-is-austerity-so-persistent/
Essa perspectiva permite formular uma hipótese importante: o desemprego pode funcionar como um mecanismo de disciplina mesmo quando não é apresentado como tal.
Não precisamos supor que todos os governos ou empresários desejem conscientemente produzir desemprego. A questão é que determinadas escolhas econômicas podem preservar relações de poder que dependem da insegurança dos trabalhadores.
5.2. Pleno emprego não é sinônimo de emancipação
É necessário, contudo, evitar uma conclusão simplificadora.
O pleno emprego pode fortalecer a posição dos trabalhadores, mas não elimina automaticamente a exploração, a desigualdade patrimonial ou o controle privado sobre o investimento.
Uma sociedade pode apresentar desemprego baixo e, ainda assim, manter jornadas excessivas, salários insuficientes, desigualdades de gênero, trabalhos perigosos e forte concentração de poder econômico.
Além disso, a busca por pleno emprego pode ser compatível com diferentes modelos de organização econômica.
A questão central é saber se o emprego elevado está associado à ampliação da autonomia dos trabalhadores, à melhoria das condições de vida e à democratização das decisões econômicas.
O pleno emprego constitui uma condição potencialmente favorável à organização coletiva, não uma garantia de emancipação.
A contribuição de Kalecki e a leitura de Mattei nos ajudam a compreender que o desemprego não deve ser examinado somente como uma perda de produção. Ele também pode representar uma forma de vulnerabilidade social que altera a capacidade de resistência e negociação.
6. Os sindicatos e a contradição da defesa dos empregos
Os sindicatos ocupam uma posição central nessa discussão porque representam uma das principais formas históricas de organização coletiva dos trabalhadores.
A organização sindical permite negociar salários, jornadas, benefícios, condições de segurança e direitos trabalhistas. Por meio da ação coletiva, trabalhadores individualmente vulneráveis podem adquirir maior capacidade de negociação diante de empresas que controlam os recursos produtivos.
Entretanto, os sindicatos atuam dentro de uma estrutura econômica que não controlam integralmente.
Essa circunstância cria uma contradição.
De um lado, precisam defender os interesses imediatos de seus associados: preservar empregos, evitar demissões, conquistar reajustes e melhorar as condições de trabalho.
De outro, enfrentam um sistema no qual as decisões de investimento e contratação dependem, em grande medida, da rentabilidade esperada pelos proprietários do capital.
Quando uma empresa ameaça transferir sua produção, automatizar atividades ou encerrar operações, os trabalhadores podem ser pressionados a aceitar concessões salariais ou flexibilizações para preservar postos de trabalho.
A organização sindical encontra-se, então, diante de uma escolha difícil: resistir às exigências empresariais, correndo o risco de perder empregos no curto prazo, ou aceitar parte delas para evitar perdas imediatas.
Essa contradição não significa que todos os sindicatos se submetam à lógica empresarial, nem que a negociação seja necessariamente uma forma de capitulação. Negociações coletivas podem produzir ganhos reais, e a existência de sindicatos fortes pode impedir abusos e ampliar a participação dos trabalhadores.
O problema aparece quando a preservação do emprego se transforma em justificativa permanente para aceitar a deterioração das condições de trabalho.
6.1. A competição entre trabalhadores
A competição entre trabalhadores constitui outro mecanismo importante.
Quando os empregos são escassos, trabalhadores podem ser levados a competir entre si por vagas, promoções e salários. A ameaça de substituição reduz a disposição para reivindicar melhorias e pode dificultar a construção de solidariedade.
Essa dinâmica é particularmente intensa em setores marcados por terceirização, informalidade, contratos temporários e plataformas digitais.
O trabalhador que depende de avaliações algorítmicas para receber tarefas pode enfrentar dificuldades adicionais para organizar-se coletivamente. A fragmentação dos vínculos profissionais e a ausência de espaços compartilhados de trabalho podem tornar a solidariedade mais difícil.
A concorrência deixa de ser apenas uma característica do mercado de produtos e passa a organizar as relações entre as próprias pessoas que dependem do trabalho para viver.
É aqui que a análise econômica se aproxima da crítica da governamentalidade: o indivíduo é incentivado a comportar-se como uma unidade competitiva, responsável por administrar sozinho os riscos que, em grande parte, são produzidos pelas estruturas econômicas.
6.2. O risco de uma representação sindical limitada
Existe também um problema institucional.
Quando uma organização sindical se concentra exclusivamente na negociação das condições imediatas de venda da força de trabalho, pode acabar aceitando como permanente a estrutura que torna os trabalhadores dependentes dessa venda.
Isso não invalida a importância das reivindicações imediatas. Ao contrário, salários, direitos e condições de trabalho são questões fundamentais.
O desafio consiste em articular a defesa cotidiana dos trabalhadores com a construção de formas mais amplas de poder coletivo.
Uma política sindical transformadora precisaria discutir não apenas quanto os trabalhadores recebem, mas também quem decide o que será produzido, como os investimentos serão realizados, quais tecnologias serão adotadas e como os ganhos de produtividade serão distribuídos.
A questão não é escolher entre a defesa dos empregos e a transformação estrutural. É investigar como a primeira pode contribuir para a segunda, em vez de se converter em um limite permanente à imaginação política.
7. O capitalismo contemporâneo e a nova organização do trabalho
A leitura de Mattei ganha atualidade quando observamos as transformações das últimas décadas.
A expansão das cadeias globais de produção, a financeirização, a terceirização, a automação e as plataformas digitais alteraram profundamente as condições em que o trabalho é organizado.
Em numerosos setores, empresas passaram a distribuir etapas produtivas por diferentes países, explorando diferenças salariais, tributárias, regulatórias e logísticas.
Essa mobilidade pode ampliar a capacidade de negociação das empresas diante dos trabalhadores e dos governos. Uma ameaça de transferência de operações pode funcionar como instrumento de pressão, mesmo quando a transferência não ocorre.
Ao mesmo tempo, a financeirização fortaleceu a influência das expectativas de rentabilidade sobre as decisões empresariais. Em determinadas circunstâncias, empresas podem priorizar a remuneração de acionistas, a valorização dos ativos e a redução de custos em detrimento de investimentos produtivos de longo prazo.
Não se trata de afirmar que todo investimento financeiro seja improdutivo ou que todas as empresas atuem da mesma maneira. A questão é compreender como a busca de valorização do capital influencia decisões que afetam o emprego, os salários e a distribuição dos recursos.
A automação acrescenta outra contradição.
O desenvolvimento tecnológico pode reduzir o tempo necessário à produção de bens e serviços, ampliar a produtividade e liberar os seres humanos de tarefas repetitivas ou perigosas.
Entretanto, os ganhos de produtividade não são distribuídos automaticamente.
Se a introdução de tecnologias resulta principalmente na redução de postos de trabalho, na intensificação das atividades e na concentração dos ganhos, a inovação pode ampliar a insegurança de parte dos trabalhadores.
Se, ao contrário, os ganhos são compartilhados por meio de jornadas menores, melhores salários, serviços públicos e maior participação nas decisões produtivas, a mesma tecnologia pode contribuir para ampliar a autonomia humana.
O resultado depende das relações sociais e das instituições que organizam a distribuição dos benefícios.
Essa discussão é particularmente relevante para a civilização algorítmica. Os sistemas de gestão automatizada podem ser utilizados para organizar atividades de maneira eficiente, mas também para monitorar trabalhadores, estabelecer metas opacas e transferir riscos econômicos para indivíduos com pouca capacidade de contestação.
A questão central não é se a tecnologia é, em si mesma, emancipadora ou opressiva. É quem controla sua aplicação, quais objetivos orientam seu desenvolvimento e como seus benefícios são distribuídos.
8. Austeridade e a produção do senso comum
Uma das dimensões mais profundas da análise de Mattei diz respeito à maneira como determinadas escolhas econômicas são transformadas em verdades aparentemente incontestáveis.
Expressões como responsabilidade fiscal, confiança dos mercados, eficiência, competitividade e necessidade de reformas podem designar questões legítimas. O problema surge quando seu emprego impede a discussão sobre as prioridades sociais e as alternativas possíveis.
Considere-se, por exemplo, a afirmação de que determinado serviço público precisa ser reduzido porque não existem recursos suficientes.
A afirmação pode corresponder a uma restrição concreta, mas não encerra a discussão. Ainda é necessário perguntar quais despesas serão preservadas, quais receitas poderiam ser mobilizadas, como os recursos estão distribuídos e quais necessidades receberão prioridade.
O mesmo vale para a afirmação de que salários precisam permanecer baixos para preservar a competitividade.
A competitividade depende de múltiplos fatores, entre eles produtividade, infraestrutura, qualificação, tecnologia, organização empresarial e condições de financiamento. Reduzir toda essa complexidade ao custo do trabalho constitui uma escolha interpretativa que merece ser examinada criticamente.
A linguagem econômica pode, assim, ampliar a compreensão dos problemas ou restringi-la, dependendo de como é utilizada.
8.1. Marx, Gramsci e Foucault: três perspectivas complementares
Marx oferece instrumentos para investigar como as relações de produção e a apropriação do excedente condicionam a organização da sociedade.
Gramsci permite compreender como uma ordem social se estabiliza por meio da hegemonia, isto é, da combinação entre poder material, instituições, cultura e produção de consentimento.
Foucault, por sua vez, oferece o conceito de governamentalidade para analisar as formas pelas quais saberes, técnicas administrativas, normas e dispositivos institucionais conduzem a conduta dos indivíduos.
Essas tradições não são equivalentes, e suas diferenças precisam ser preservadas. Entretanto, podem ser articuladas para investigar uma questão comum: como uma ordem econômica se reproduz tanto por suas estruturas materiais quanto pelas maneiras de pensar e agir que favorece.
No capitalismo contemporâneo, o indivíduo é frequentemente convocado a comportar-se como uma empresa de si mesmo. Precisa administrar sua empregabilidade, investir em suas competências, calcular riscos, medir seu desempenho e assumir individualmente as consequências de oscilações econômicas que não controla.
Essa responsabilização pode ocultar o caráter estrutural de problemas como desemprego, precariedade e desigualdade.
A pessoa que perde o emprego é incentivada a interpretar o acontecimento como insuficiência de qualificação ou falha de planejamento pessoal, mesmo quando a demissão decorre de uma reestruturação produtiva, de uma crise setorial ou de uma decisão financeira empresarial.
A crítica não consiste em negar a importância da qualificação ou da responsabilidade individual. Consiste em reconhecer que a responsabilidade individual não substitui a análise das estruturas sociais.
A contribuição de Mattei, nesse contexto, é mostrar como a autoridade da economia técnica pode contribuir para naturalizar relações de poder que são historicamente construídas.
Para o Observatório, essa aproximação oferece uma linha de pesquisa particularmente fértil: a relação entre a economia política da austeridade e a formação de sujeitos que aprendem a administrar individualmente os custos de uma organização econômica que permanece fora de seu controle democrático.
9. As vulnerabilidades da ordem capitalista
Se o capitalismo é capaz de reproduzir suas instituições mesmo diante de crises, isso não significa que seja invulnerável.
Na verdade, a própria necessidade de recorrer continuamente a mecanismos de disciplina revela que a ordem econômica depende de condições que não estão garantidas de maneira automática.
A relação entre capital e trabalho é dinâmica. Os trabalhadores podem organizar-se, interromper atividades, exigir direitos, construir instituições próprias e desenvolver formas de cooperação que reduzam sua dependência dos mercados.
As empresas dependem de trabalhadores, infraestrutura, conhecimentos científicos, sistemas públicos, cadeias de fornecimento e condições sociais de reprodução da vida. O capital não é uma força independente da sociedade: sua capacidade de acumulação depende de uma extensa rede de relações e recursos coletivos.
Essa dependência constitui uma das principais vulnerabilidades do sistema.
9.1. A vulnerabilidade da produção
A produção capitalista depende da cooperação de milhões de pessoas.
Quando trabalhadores interrompem atividades estratégicas, a circulação de mercadorias e a produção podem ser afetadas. A greve torna visível algo que frequentemente permanece oculto: a riqueza não é produzida exclusivamente pelos proprietários do capital, mas por uma rede de atividades humanas interdependentes.
A capacidade de interromper a produção pode conferir força política aos trabalhadores.
Entretanto, esse poder não é ilimitado. Empresas podem recorrer a estoques, automação, trabalhadores substitutos, mudanças logísticas e medidas judiciais. Setores precarizados podem enfrentar dificuldades adicionais para sustentar greves prolongadas.
A vulnerabilidade existe, mas depende da capacidade de organização, da posição estratégica dos trabalhadores e da solidariedade social.
9.2. A vulnerabilidade da legitimidade
Uma ordem econômica também depende de algum grau de legitimidade.
Quando as promessas de prosperidade, mobilidade social e segurança material deixam de corresponder às experiências vividas, pode crescer a insatisfação.
Entretanto, a insatisfação não produz necessariamente consciência crítica. Ela pode alimentar projetos de transformação social, mas também ressentimento, xenofobia, autoritarismo e busca por culpados individuais ou grupos vulneráveis.
Esse é um dos problemas políticos centrais do presente.
A crise de legitimidade só se transforma em capacidade emancipatória quando existem organizações, interpretações e práticas capazes de relacionar experiências individuais a problemas estruturais.
9.3. A vulnerabilidade da imaginação social
Talvez exista uma vulnerabilidade ainda mais profunda: o capitalismo depende de sua capacidade de apresentar a própria organização como indispensável.
Se as pessoas passam a reconhecer que a produção, a propriedade e a distribuição dos recursos podem ser organizadas de maneiras diferentes, a ordem existente perde parte de sua aparência de inevitabilidade.
Isso não significa que imaginar uma alternativa seja suficiente para construí-la. Mas nenhuma transformação estrutural se torna viável quando a própria possibilidade de mudança é excluída antecipadamente.
A imaginação política não substitui a organização material; ela ajuda a orientar sua construção.
É nesse ponto que a pesquisa histórica de Mattei se conecta à investigação das experiências de auto-organização: a existência de alternativas concretas torna mais difícil sustentar a afirmação de que o capitalismo representa a única forma possível de organizar a vida econômica.
10. A auto-organização da sociedade: MST, MTST e outras experiências coletivas
Em suas entrevistas sobre Como Escapar do Capitalismo, Mattei enfatiza a importância da organização popular e cita experiências brasileiras como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e os movimentos de luta por moradia. Ela defende que a sociedade precisa reduzir sua dependência do mercado e pressionar os governos a orientar a economia pelas necessidades sociais. https://fpabramo.org.br/o-sistema-e-muito-mais-fragil-do-que-pensamos-defende-clara-mattei-economista-italiana/
Essa proposta desloca a discussão da crítica para a prática.
Não basta demonstrar que a ordem capitalista produz desigualdades. É necessário investigar como as pessoas podem construir formas de cooperação, participação e controle coletivo que modifiquem as relações existentes.
10.1. O MST e a organização da produção
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra atua na luta pela reforma agrária, pela democratização do acesso à terra e por melhores condições de vida para populações rurais.
A relevância dessa experiência para a discussão de Mattei não se limita à reivindicação de acesso à propriedade. Ela envolve também a possibilidade de organizar a produção, a cooperação e a distribuição de recursos de maneira diferente daquela orientada exclusivamente pela rentabilidade privada.
Cooperativas, associações, experiências de produção agroecológica e iniciativas de comercialização coletiva podem ampliar a capacidade dos trabalhadores rurais de decidir sobre sua atividade econômica.
Essas experiências não são homogêneas e enfrentam dificuldades reais, como acesso a crédito, infraestrutura, mercados, assistência técnica e políticas públicas. Ainda assim, oferecem possibilidades concretas de examinar como a cooperação pode alterar as relações de dependência econômica.
A questão não é idealizar o MST, mas compreender o que suas experiências revelam sobre as possibilidades e os limites da organização coletiva.
10.2. O MTST e o direito à moradia
O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto concentra sua atuação na luta por moradia digna e na denúncia das desigualdades urbanas.
A questão habitacional revela de maneira particularmente clara a tensão entre necessidade social e rentabilidade.
A existência de pessoas sem moradia adequada ao lado de imóveis vazios ou subutilizados demonstra que a distribuição habitacional não depende exclusivamente da disponibilidade física de construções. Depende também da propriedade, da renda, do crédito, da localização e das decisões de investimento.
A organização coletiva pode transformar necessidades dispersas em reivindicações públicas, construir formas de solidariedade e pressionar por políticas habitacionais.
A experiência do MTST mostra como a mobilização territorial pode tornar visível uma contradição que frequentemente é tratada como problema individual: a dificuldade de acesso à moradia em sociedades que dispõem de capacidade produtiva para construir e manter habitações.
10.3. Para além dos movimentos sociais tradicionais
A auto-organização não se limita a movimentos de trabalhadores rurais ou de moradia.
Ela pode assumir formas diversas:
cooperativas de produção e consumo;
associações comunitárias;
redes de economia solidária;
organizações de trabalhadores de plataformas digitais;
iniciativas de compartilhamento de conhecimentos e tecnologias;
sistemas comunitários de cuidado;
organizações de defesa dos serviços públicos;
experiências de gestão democrática de recursos comuns.
Essas formas de organização não são necessariamente anticapitalistas em todos os seus aspectos. Algumas funcionam dentro dos mercados, dependem de financiamento externo ou reproduzem relações hierárquicas.
Sua importância deve ser examinada de maneira concreta: em que medida ampliam a autonomia dos participantes, distribuem o poder de decisão, reduzem dependências e criam capacidades coletivas duradouras?
A questão fundamental não é atribuir um rótulo político a toda experiência de cooperação. É compreender quais relações ela transforma e quais limites permanece incapaz de superar.
11. Da resistência à democratização da economia
Uma das dificuldades das alternativas ao capitalismo consiste em ultrapassar a escala localizada.
Uma cooperativa pode organizar democraticamente sua produção e, ainda assim, depender de fornecedores, bancos, compradores e plataformas controlados por grandes empresas. Um assentamento pode ampliar a autonomia de seus participantes, mas enfrentar dificuldades de financiamento e comercialização. Um movimento por moradia pode conquistar políticas públicas sem alterar a estrutura mais ampla da especulação imobiliária.
Essas limitações não anulam o valor das experiências coletivas. Elas demonstram que a emancipação depende tanto da construção de alternativas locais quanto da transformação das instituições que condicionam sua existência.
É possível identificar ao menos quatro dimensões desse processo.
A primeira é a autonomia material: ampliar o acesso a recursos essenciais, reduzir a insegurança e criar condições para que as pessoas não dependam exclusivamente da venda de sua força de trabalho em qualquer circunstância.
A segunda é a democratização das decisões econômicas: ampliar a participação dos trabalhadores e das comunidades nas decisões sobre investimento, produção, tecnologia e distribuição dos resultados.
A terceira é a construção de solidariedade organizada: estabelecer vínculos entre grupos sociais que enfrentam problemas semelhantes, evitando que a competição permanente destrua a capacidade de ação coletiva.
A quarta é a transformação institucional: converter a força social acumulada em mudanças nas políticas públicas, nos direitos trabalhistas, na organização dos serviços e nas formas de propriedade e controle produtivo.
Nenhuma dessas dimensões é suficiente isoladamente.
A autonomia material sem transformação institucional pode permanecer localizada. A mudança institucional sem organização popular pode ser revertida. A solidariedade sem recursos e capacidade de decisão pode não resistir às pressões econômicas.
A democratização da economia exige, portanto, uma articulação entre organização de base, transformação política e construção de instituições capazes de sustentar formas mais igualitárias de cooperação.
12. O papel do Estado: instrumento de disputa ou limite estrutural?
A discussão sobre auto-organização conduz inevitavelmente à questão do Estado.
Seria suficiente eleger governos comprometidos com a redução da desigualdade e esperar que implementassem políticas capazes de alterar a ordem econômica?
A perspectiva de Mattei é mais exigente.
Em suas entrevistas, ela argumenta que a pressão popular é indispensável porque mesmo governos que se apresentam como progressistas podem continuar operando sob as restrições e prioridades do capitalismo. A continuidade da austeridade não pode ser explicada apenas pelas intenções pessoais dos governantes: é necessário investigar as estruturas econômicas e institucionais que condicionam suas decisões. https://fpabramo.org.br/o-sistema-e-muito-mais-fragil-do-que-pensamos-defende-clara-mattei-economista-italiana/
Isso não significa que o Estado seja irrelevante ou que todas as políticas públicas sejam equivalentes.
Direitos sociais, legislação trabalhista, serviços universais, tributação progressiva, investimentos públicos e políticas de habitação podem alterar significativamente as condições de vida.
O problema é que as instituições estatais atuam em uma sociedade na qual a produção e o investimento permanecem, em grande medida, sob controle privado.
Governos dependem de receitas, enfrentam restrições financeiras, respondem a conflitos políticos e precisam lidar com decisões de investimento que não controlam integralmente.
Quando o investimento privado é tratado como condição indispensável para a estabilidade econômica, os interesses dos investidores podem adquirir influência desproporcional sobre as decisões públicas.
A pressão popular pode modificar esse equilíbrio, ampliando o espaço político para políticas que priorizem necessidades sociais.
Por isso, a alternativa não é simplesmente escolher entre Estado e sociedade. É compreender como instituições públicas, organizações populares e formas coletivas de produção podem atuar em conjunto, sem perder de vista os conflitos de interesse que atravessam cada uma dessas esferas.
13. Como Escapar do Capitalismo: da crítica histórica à construção de alternativas
Em Escape from Capitalism, publicado originalmente em janeiro de 2026, Mattei desenvolve a dimensão propositiva de sua investigação.
Enquanto A Ordem do Capital procura explicar como a austeridade se consolidou historicamente como instrumento de defesa da ordem capitalista, o livro posterior volta-se à possibilidade de reduzir a dependência do mercado e construir formas mais democráticas de organização econômica. https://www.simonandschuster.com/books/Escape-from-Capitalism/Clara-E-Mattei/9781668085141
A mudança de enfoque é importante.
A crítica econômica pode demonstrar que as instituições existentes não são naturais e que seus efeitos distribuem desigualmente recursos e poder. Mas a demonstração de que uma ordem é histórica não fornece, por si só, um modelo completo de sua superação.
É preciso investigar como as necessidades sociais podem ser atendidas, como a produção pode ser organizada, como os recursos podem ser distribuídos e como as decisões econômicas podem ser submetidas a formas mais amplas de participação democrática.
A proposta de reduzir a dependência do mercado aponta para uma questão fundamental: até que ponto o acesso à existência material deve depender da capacidade individual de comprar bens e serviços?
Quanto maior a dependência de mercados instáveis para satisfazer necessidades essenciais, maior pode ser a vulnerabilidade dos indivíduos diante do desemprego, da inflação e das decisões empresariais.
A ampliação de serviços públicos universais, a produção cooperativa, a organização comunitária e a democratização do investimento são possibilidades a serem examinadas nessa direção.
Entretanto, escapar da lógica capitalista não é simplesmente criar espaços isolados de cooperação dentro de uma economia maior. O desafio consiste em articular experiências, ampliar sua capacidade material e transformar as instituições que subordinam a produção às exigências de rentabilidade privada.
A transição exige experimentação, organização política, aprendizagem coletiva e debate democrático. Não existe garantia histórica de que essas experiências serão bem-sucedidas, nem um único caminho previamente definido.
A contribuição de Mattei está em insistir que a própria questão da alternativa precisa voltar ao centro do debate econômico.
14. Uma crítica necessária: os limites e as questões em aberto
A força da obra de Mattei não elimina a necessidade de uma leitura crítica.
Sua interpretação da austeridade como mecanismo de defesa das relações capitalistas é poderosa, mas precisa ser confrontada com a diversidade dos contextos históricos e com os diferentes efeitos das políticas econômicas.
A austeridade pode produzir efeitos distributivos e políticos importantes, mas nem toda decisão de contenção de gastos tem a mesma motivação ou consequência. Estados enfrentam restrições fiscais, pressões inflacionárias, crises cambiais e necessidades de financiamento que não podem ser ignoradas.
O problema analítico consiste em investigar essas restrições sem aceitar automaticamente que as soluções escolhidas sejam as únicas possíveis.
Também é necessário distinguir a intenção dos agentes dos efeitos estruturais de suas decisões. Uma política pode enfraquecer trabalhadores sem ter sido formulada explicitamente com esse propósito. Da mesma forma, uma política apresentada como favorável ao capital pode produzir efeitos contraditórios, dependendo de sua implementação.
Outro desafio diz respeito às alternativas.
A organização cooperativa pode ampliar a autonomia, mas precisa enfrentar problemas de financiamento, escala, coordenação, distribuição de responsabilidades e controle democrático. A propriedade coletiva, por si só, não elimina conflitos internos nem garante resultados socialmente desejáveis.
A democratização econômica precisa desenvolver instituições capazes de tomar decisões complexas, lidar com divergências e assegurar transparência e participação efetiva.
Finalmente, a redução da dependência do mercado não deve ser confundida com a eliminação de toda troca comercial ou de toda iniciativa individual. A questão fundamental é determinar quais atividades devem ser subordinadas à rentabilidade privada e quais precisam ser organizadas prioritariamente segundo critérios de necessidade social, sustentabilidade e participação democrática.
Essas questões não invalidam a proposta de Mattei. Ao contrário, indicam o trabalho que ainda precisa ser realizado para transformar a crítica do capitalismo em investigação sistemática das alternativas.
15. Capitalismo, consciência e imaginação histórica
Há uma dimensão filosófica que atravessa toda essa discussão.
As sociedades não se reproduzem apenas por meio de estruturas econômicas. Elas também reproduzem modos de perceber, interpretar e imaginar o mundo.
Quando uma organização econômica se apresenta como natural, seus limites podem deixar de ser percebidos como limites históricos. O que é resultado de decisões políticas e relações de poder passa a ser interpretado como exigência inevitável da realidade.
Essa naturalização restringe o horizonte das possibilidades.
A pessoa pode reconhecer que a desigualdade é injusta e, simultaneamente, considerar impossível alterar as estruturas que a produzem. Pode criticar a precariedade do trabalho e acreditar que a única solução é tornar-se mais competitiva dentro do mesmo sistema. Pode desejar uma sociedade mais cooperativa e imaginar que a cooperação só é possível em pequenas experiências sem influência sobre a economia como um todo.
A crítica de Mattei nos convida a examinar essa tensão entre a experiência concreta das contradições e a capacidade de imaginar alternativas.
Aproximando essa discussão de Gramsci, podemos compreender que a transformação social exige disputar não apenas recursos materiais, mas também os significados atribuídos à realidade.
Aproximando-a de Foucault, podemos investigar como instituições e técnicas de gestão moldam sujeitos que aprendem a administrar individualmente riscos produzidos por estruturas que não controlam.
Aproximando-a de Marx, podemos recordar que a transformação da consciência não substitui a transformação das condições materiais. A crítica precisa encontrar formas concretas de organização, cooperação e intervenção histórica.
Essa articulação permite formular uma ideia central para o Observatório: a emancipação depende da capacidade de reconhecer o caráter histórico das estruturas sociais e de construir coletivamente as condições materiais, políticas e culturais para transformá-las.
Não basta imaginar um mundo diferente. É necessário compreender as relações que impedem sua realização e desenvolver as capacidades coletivas capazes de modificá-las.
Conclusão — A economia deve servir à vida
O trabalho de Clara E. Mattei nos oferece uma perspectiva importante para reconsiderar o significado político da economia.
Ao investigar a história da austeridade, a autora demonstra que políticas apresentadas como exigências técnicas podem desempenhar funções decisivas na preservação das relações capitalistas. Ao examinar a disciplina do trabalho, evidencia a importância do desemprego, da insegurança material e da autoridade econômica na distribuição do poder. Ao discutir as possibilidades de auto-organização, procura deslocar o debate da crítica para a construção de alternativas.
O conjunto dessas contribuições permite reconhecer que o capitalismo não se reproduz apenas porque produz riqueza, organiza mercados e desenvolve tecnologias. Ele também depende de relações sociais que tornam a maioria das pessoas dependente da venda de sua força de trabalho e preservam o controle privado sobre decisões econômicas fundamentais.
A austeridade pode reforçar essa dependência quando reduz serviços públicos, restringe oportunidades de emprego, transfere custos para as famílias e amplia a influência de determinados interesses financeiros. A competição entre trabalhadores pode enfraquecer a solidariedade, enquanto a linguagem da inevitabilidade econômica limita a discussão pública sobre alternativas.
Entretanto, essas relações não são imutáveis.
Os trabalhadores podem organizar-se. Os sindicatos podem ampliar sua atuação para além da negociação salarial imediata. Os movimentos populares podem transformar necessidades individuais em reivindicações coletivas. As cooperativas podem desenvolver formas alternativas de produção. As políticas públicas podem reduzir a dependência do mercado. E as experiências de participação democrática podem abrir espaços para que as decisões econômicas respondam mais diretamente às necessidades sociais.
Nenhuma dessas possibilidades garante, isoladamente, a superação das contradições do capitalismo. Todas enfrentam limites, conflitos e riscos. Mas sua existência demonstra que a organização da vida econômica não está condenada a permanecer exatamente como é.
A questão decisiva não consiste em imaginar uma sociedade sem problemas, mas em perguntar quais instituições permitem que os problemas sejam enfrentados democraticamente, quais relações concentram poder e quais formas de cooperação ampliam a autonomia humana.
É nesse sentido que a reflexão de Mattei adquire importância para o presente.
Uma civilização que dispõe de capacidade científica e tecnológica para produzir abundância precisa decidir como distribuir os frutos dessa capacidade, quem controlará os processos produtivos e quais necessidades terão prioridade.
Se o desenvolvimento econômico permanece subordinado predominantemente à rentabilidade privada, os avanços técnicos não garantem, por si mesmos, uma vida melhor para todos.
A questão fundamental é política: como transformar a capacidade coletiva de produzir riqueza em capacidade coletiva de decidir sobre o próprio destino?
A resposta não está pronta. Ela depende da investigação histórica, da crítica das instituições, da organização popular e da experimentação de formas mais democráticas de vida econômica.
Talvez a contribuição mais importante de Clara Mattei seja justamente esta: devolver à sociedade a possibilidade de discutir a economia como uma construção histórica, e não como uma força natural diante da qual os indivíduos só podem se adaptar.
Quando reconhecemos que as estruturas econômicas são produzidas e reproduzidas por relações humanas, abre-se também a possibilidade de perguntar como essas relações poderiam ser organizadas de outra maneira.
A economia não é um fim em si mesma. É uma forma de organizar a produção e a distribuição dos recursos de que a vida depende. A questão que permanece é se essa organização continuará subordinando as necessidades humanas à rentabilidade do capital ou se a sociedade será capaz de democratizar as decisões sobre aquilo que produz, como produz e para quem produz.
É nesse horizonte que a crítica da austeridade encontra sua dimensão emancipatória: não apenas denunciar os mecanismos pelos quais uma ordem social se preserva, mas contribuir para que as pessoas recuperem a capacidade de imaginar, organizar e construir outras possibilidades históricas.
Bibliografia e referências para aprofundamento
Obras de Clara E. Mattei
MATTEI, Clara E. A Ordem do Capital: Como os economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo. Obra publicada originalmente em inglês pela University of Chicago Press, em 2022; edição brasileira publicada pela Boitempo.
MATTEI, Clara E. Escape from Capitalism. Publicado originalmente em inglês em janeiro de 2026. Consulte a página da editora para informações sobre as edições disponíveis.
MATTEI, Clara E. “Work More, Consume Less: The Coercive Nature of Austerity Politics”. Public Books, 2022. Leia o ensaio.
Entrevistas e materiais complementares
Fundação Perseu Abramo. “O sistema é muito mais frágil do que pensamos”, defende Clara Mattei. Entrevista sobre austeridade, movimentos populares, juros e auto-organização, publicada em 29 de junho de 2026. Leia a entrevista.
Instituto Humanitas Unisinos. “A austeridade serve para disciplinar a classe trabalhadora”. Entrevista com Clara E. Mattei, publicada em maio de 2025. Leia a entrevista.
Review of Democracy. Entrevista com Clara Mattei sobre a persistência da austeridade e os aspectos políticos do pleno emprego. Leia a entrevista.
Autores para ampliar o debate
MARX, Karl. O Capital, Livro I — mercadoria, força de trabalho, mais-valia e acumulação.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere — hegemonia, sociedade civil e construção do consentimento.
KALECKI, Michal. “Political Aspects of Full Employment” (1943) — os aspectos políticos do pleno emprego.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica — governamentalidade, liberalismo e neoliberalismo.
POLANYI, Karl. A Grande Transformação — a construção histórica dos mercados e as tensões entre economia e sociedade.
Nota editorial: este ensaio combina uma exposição das teses de Clara E. Mattei com uma análise crítica complementar. As interpretações históricas e econômicas apresentadas devem ser lidas como argumentos a serem debatidos à luz das obras citadas, e não como afirmações de consenso absoluto sobre todos os aspectos do capitalismo.


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