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Memoria Universi - Segundo Movimento - Quando o Universo Aprendeu a Mudar

  • carlospessegatti
  • 17 de jul.
  • 4 min de leitura

"Durante muito tempo acreditamos que o Universo fosse composto por coisas. Talvez ele seja composto por relações."



MOVIMENTO II

QUANDO O UNIVERSO APRENDEU A MUDAR


Durante muito tempo imaginamos o Universo como um gigantesco depósito de objetos.


As estrelas seriam coisas.


Os planetas seriam coisas.


Os átomos seriam coisas.


Nós mesmos seríamos coisas.


Cada elemento ocuparia um lugar fixo dentro de uma imensa arquitetura construída pela matéria.


Era uma visão poderosa.


Também era incompleta.


A ciência dos últimos séculos começou a revelar um Universo muito mais surpreendente do que aquele imaginado pela física clássica.


Descobrimos que praticamente nada existe isoladamente.


Uma estrela vive porque troca energia com o espaço.


Uma galáxia existe porque bilhões de estrelas dançam sob a gravidade comum.


Uma célula permanece viva porque jamais deixa de trocar matéria e energia com aquilo que a cerca.


Até uma pedra, aparentemente imóvel, participa de uma história iniciada nas explosões de estrelas ancestrais e lentamente modificada pelo calor, pela água, pelo vento e pelo tempo geológico.


Aquilo que chamávamos de "coisas" começou lentamente a revelar-se como acontecimentos.


Talvez o Universo nunca tenha sido composto por objetos.


Talvez sempre tenha sido composto por relações.


Essa mudança de perspectiva altera profundamente nossa maneira de compreender a realidade.


Quando observamos uma árvore, vemos um tronco, galhos e folhas.


Mas a árvore não termina onde termina sua casca.


Ela continua na água que sobe pelas raízes.


Continua na luz que chega do Sol.


Continua nos fungos invisíveis que compartilham nutrientes sob a terra.


Continua no carbono que um dia pertenceu a antigas estrelas.


Continua no oxigênio que respiramos.


Onde termina, afinal, uma árvore?


A pergunta talvez não possua resposta.


Porque uma árvore não é uma coisa.


É uma rede.


O mesmo vale para nós.


Durante muito tempo imaginamos que nossa identidade estivesse encerrada dentro da pele.


Hoje sabemos que carregamos em nosso corpo trilhões de organismos microscópicos sem os quais não viveríamos.


Nossa memória depende de bilhões de conexões entre neurônios.


Nossa linguagem existe porque pertence a uma comunidade.


Nosso pensamento utiliza símbolos construídos durante milhares de anos pela cultura.


Somos indivíduos.


Mas somos também relações.


Essa percepção começa a aproximar, de maneira surpreendente, a filosofia antiga das descobertas contemporâneas.


Heráclito via o mundo como um rio.


Parmênides via o ser como uma montanha.


Hoje talvez possamos enxergar ambos sob outra luz.


Nem o rio nem a montanha existem por si mesmos.


O rio depende da chuva, da gravidade, das montanhas que o alimentam e do oceano que o recebe.


A montanha depende do movimento das placas tectônicas, da erosão, do clima e do tempo profundo da Terra.


O que parecia imóvel participa de um movimento.


O que parecia apenas movimento conserva uma organização.


Não são as pedras que permanecem.


Não são as águas que permanecem.


É a relação entre elas.


Essa talvez seja uma das mais belas descobertas da ciência contemporânea.

A identidade não reside na imobilidade.

Ela nasce da continuidade da organização.


Foi Ilya Prigogine quem mostrou que a ordem pode emergir justamente dos sistemas mais distantes do equilíbrio. Edgar Morin ensinou que os fenômenos complexos não se explicam pela soma de suas partes, mas pelas relações que as constituem. Maturana e Varela compreenderam que um organismo vivo não é apenas matéria organizada, mas uma organização capaz de produzir continuamente a si mesma. John Archibald Wheeler ousou sugerir que a informação ocupa um papel tão fundamental quanto a própria matéria. Carlo Rovelli descreve o mundo físico como uma teia de relações, enquanto David Bohm imaginou uma ordem profunda que une aquilo que percebemos como separado.


Nenhum deles utiliza exatamente a mesma linguagem.

Mas todos parecem apontar para uma mesma direção.


O Universo não é uma coleção de peças.


É uma composição.


Talvez seja por isso que ele consegue transformar-se durante quase catorze bilhões de anos sem perder sua identidade.


As estrelas morrem.


As galáxias colidem.


Os continentes deslocam-se.


As espécies desaparecem.


Cada átomo do nosso corpo será, um dia, parte de outra paisagem.


Mesmo assim, alguma coisa permanece atravessando todas essas metamorfoses.


Não uma substância imóvel.


Nem uma forma eterna.


Permanece o desenho invisível das relações.


Permanece a capacidade do Universo de organizar continuamente novas formas de existência.


Talvez seja essa a sua memória mais profunda.


Não um arquivo onde os acontecimentos são guardados.


Mas uma música cuja melodia continua reconhecível, mesmo quando todos os instrumentos já mudaram.


E talvez seja por isso que hoje podemos contemplar o céu e fazer perguntas sobre a origem de tudo.


Porque, depois de bilhões de anos aprendendo a transformar-se, o Universo encontrou uma maneira singular de recordar a si mesmo.


Encontrou um observador.


Encontrou a consciência.


Encontrou, por um breve instante da eternidade...

os nossos olhos.


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"Durante muito tempo acreditamos que o Universo fosse composto por coisas. Talvez ele seja composto por relações. E talvez seja precisamente por isso que ele consegue mudar sem deixar de deixar de ser ele mesmo."



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Este livro não será dividido apenas em capítulos. Ele poderá ser lido como uma sinfonia filosófica. Cada capítulo é um movimento de uma obra maior, exatamente como cada faixa do álbum é um movimento musical da mesma ideia. Ele não será um simples encarte, mas um livro-ensaio transdisciplinar, que vai dialogar com o álbum Memoria Universi.

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