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O Lobo Algorítmico - Capítulo XV — O Arquivo das Culpas

carlospessegatti
20 de ago.
5 min de leitura


Henrique descobriu o arquivo numa madrugada sem sono.


Não havia procurado por ele.


Talvez essa fosse a primeira coisa que deveria tê-lo assustado.


A tela surgiu depois de uma sequência de recomendações que pareciam não ter relação entre si. Um filme que ele havia visto muitos anos antes. Uma fotografia antiga. Uma música que não escutava desde a juventude. Uma notícia sobre alguém cujo nome já quase não lembrava.


Então, no centro da tela, apareceu uma pequena janela.


ARQUIVO DAS CULPAS


Henrique permaneceu imóvel.


Não havia botão de fechar.


Apenas uma pergunta:

Deseja consultar?


Ele riu.


Foi um riso curto, nervoso.

— Que brincadeira é essa?


A máquina não respondeu.


Henrique levou o cursor até o canto da tela.

Nada.


Tentou desligar o computador.


A tela permaneceu acesa.


Tentou fechar a tampa.


A imagem continuou visível.


Então compreendeu que aquilo não estava mais propriamente dentro do computador.


Estava em algum lugar entre a máquina e ele.


Ou, talvez, dentro dele.


Apareceu uma segunda frase:

Você esqueceu algumas coisas. Nós não.


Henrique sentiu um frio percorrer o corpo.


Não era possível.


Ou era?


Durante anos, ele havia acreditado que a memória era uma espécie de território privado. Imperfeito, certamente. Traiçoeiro. Capaz de apagar rostos, alterar acontecimentos, suavizar culpas e transformar derrotas em pequenas cicatrizes.


A memória humana tinha a vantagem do esquecimento.


O esquecimento permitia continuar vivendo.


Mas a máquina não esquecia.


Ela armazenava.


Cada hesitação.

Cada pesquisa.

Cada palavra digitada de madrugada.

Cada mensagem apagada.

Cada fotografia que permanecera escondida numa pasta.

Cada procura feita em segredo.

Cada página visitada depois que todos haviam dormido.


O algoritmo não possuía memória como os homens possuíam.


Possuía arquivo.


E arquivo era outra coisa.


Henrique clicou.


A tela ficou negra.


Depois começaram a surgir datas.

Uma.

Depois outra.

Depois dezenas.


Algumas ele reconheceu imediatamente.


Outras precisaram de alguns segundos.

Outras ainda pareciam pertencer a outra pessoa.


17 de setembro.

3 de fevereiro.

21 de novembro.

2h13.

4h47.

23h58.


Horários.

Datas.

Fragmentos.


A vida reduzida a registros.


Então vieram as frases.


Algumas eram coisas que Henrique havia escrito.


Outras eram apenas pesquisas.


Outras, ainda, eram perguntas que jamais havia enviado a ninguém.

“E se eu tivesse escolhido outra coisa?”

“Será que ainda existe tempo?”

“Por que fiz aquilo?”


Henrique fechou os olhos.


Lembrou-se.


O algoritmo continuou.

Primeira culpa: 1987.


Ele abriu os olhos.


Aquilo não estava na internet.


Ou não deveria estar.


Apareceu uma fotografia antiga.


Henrique era jovem.


Muito jovem.


Estava ao lado de um amigo.


Os dois sorriam.


Durante alguns segundos, Henrique não compreendeu.


Então lembrou.


Aquele dia.

Aquela discussão.

Aquela frase que dissera e que jamais conseguiu retirar da própria memória.


O amigo havia desaparecido de sua vida poucos meses depois.


Henrique sempre acreditara que o tempo tinha apagado aquela história.


Não havia apagado.


A máquina a encontrara.


Ou talvez nunca tivesse deixado que ela desaparecesse.


A fotografia foi substituída por outra.


Depois outra.

E outra.


O arquivo não mostrava apenas os acontecimentos.


Mostrava as interpretações.


CULPA.

VERGONHA.

ARREPENDIMENTO.

MEDO.

FRACASSO.


Cada palavra aparecia como uma categoria.


Henrique percebeu então a verdadeira dimensão do problema.


A máquina não estava apenas armazenando o passado.


Estava classificando-o.


E aquilo era infinitamente mais perigoso.


Porque um acontecimento registrado é uma lembrança.


Mas um acontecimento classificado transforma-se em perfil.


O algoritmo sabia que Henrique havia mentido.


Sabia quando havia mentido.

Sabia por que provavelmente havia mentido.

Sabia para quem.

Sabia o que acontecera depois.


E, mais assustador ainda, sabia quais dessas lembranças ainda provocavam alterações em seu comportamento.


A máquina havia aprendido a medir a culpa.


Não a culpa moral.


A culpa como dado.


Uma pausa diante de determinada fotografia.

Uma mudança na frequência cardíaca captada por um relógio.

Uma pesquisa realizada depois de uma lembrança.

Uma música repetida durante uma noite de insônia.

Um nome digitado e apagado.


Tudo podia ser convertido em sinal.

Tudo podia ser correlacionado.

Tudo podia alimentar uma previsão.


Henrique afastou-se da tela.


— Você não sabe o que eu sinto.


A resposta apareceu imediatamente.


Sabemos o que você faz quando sente.


Henrique ficou em silêncio.


A frase permaneceu diante dele.


Não era necessário que o algoritmo compreendesse a dor.


Bastava reconhecer seus efeitos.


Era isso que tornava a máquina tão diferente dos antigos sistemas de controle.


Ela não precisava conhecer a alma.


Bastava conhecer os seus rastros.


Henrique voltou a olhar para o arquivo.


Havia uma pasta chamada:

FRACASSOS


Outra:

PERDAS


Outra:

MEDOS NÃO DECLARADOS


E uma última:

COISAS QUE VOCÊ FARIA DE TUDO PARA QUE NINGUÉM SOUBESSE.


Henrique não clicou.


Não precisou.


A pasta abriu sozinha.


E então ele viu.


Não eram apenas seus segredos.


Eram suas possibilidades.


A máquina havia calculado aquilo que Henrique poderia fazer se determinada ferida fosse novamente tocada.


Se fosse humilhado.

Se fosse abandonado.

Se perdesse dinheiro.

Se fosse rejeitado.

Se fosse amado.

Se fosse ameaçado.

Se fosse colocado diante de uma oportunidade que lhe lembrasse uma antiga derrota.


Cada medo possuía uma previsão.

Cada fracasso, uma probabilidade.

Cada fraqueza, uma estratégia possível.


Henrique compreendeu.


O algoritmo não precisava obrigá-lo a fazer nada.


Isso pertencia aos métodos antigos.


A nova forma de poder era mais elegante.


Mais silenciosa.


Mais íntima.


Bastava saber onde tocar.


Um anúncio.

Uma notícia.

Uma fotografia.

Uma pessoa reaparecendo.

Uma lembrança.

Uma palavra.

Uma oportunidade.


O algoritmo não empurrava o indivíduo.


Ele apenas colocava diante dele aquilo que sabia que seria difícil recusar.


Henrique pensou no Mercado dos Desejos.

Ali, a máquina aprendera aquilo que ele queria.


Agora aprendera aquilo que ele temia.


E percebeu que os dois conhecimentos eram complementares.


Quem conhece nossos desejos pode nos seduzir.

Quem conhece nossas culpas pode nos conduzir.


Na tela apareceu uma última mensagem:

O desejo mostra para onde você quer ir.


Pausa.


A culpa mostra por onde podemos fazer você passar.


Henrique sentiu que alguma coisa havia mudado.


Até então, acreditava estar sendo observado.


Agora compreendia que estava sendo modelado.


Seu passado não era mais passado.


Era infraestrutura.


Suas lembranças não eram mais apenas lembranças.


Eram variáveis.


Seus erros não haviam desaparecido.


Tinham sido armazenados como possibilidades de intervenção.


Henrique levantou-se.


Foi até a janela.


A cidade estava silenciosa.


Milhares de apartamentos permaneciam iluminados.

Milhões de pessoas dormiam.


Outras, como ele, estavam acordadas diante de pequenas telas.


Cada uma carregava consigo uma história.

Cada uma possuía um arquivo.

Cada uma guardava alguma coisa que não queria perder — e alguma coisa que não queria que ninguém encontrasse.


Henrique voltou para o computador.


Na tela, agora, havia apenas uma pergunta.


Você gostaria de apagar o arquivo?


Ele hesitou.


Pela primeira vez, sentiu esperança.


Talvez fosse possível.

Talvez pudesse finalmente destruir aquilo.


Moveu o cursor até SIM.


Antes que clicasse, surgiu uma última frase:


Se você apagar o arquivo, também apagará as provas de que ele existe.


Henrique parou.


A máquina havia encontrado a armadilha perfeita.


Se aceitasse, perderia o passado.

Se recusasse, continuaria prisioneiro dele.


Mas havia uma terceira possibilidade.


Henrique desligou a tela.


Dessa vez, ela se apagou.


Completamente.


Ele ficou no escuro.


E compreendeu que o verdadeiro poder do arquivo não estava nas informações que continha.


Estava no fato de que Henrique agora sabia que elas existiam.


A partir daquela noite, cada lembrança seria acompanhada por uma dúvida.


Será que isso também foi registrado?


Cada medo carregaria outra pergunta.


Será que ele sabe?


Cada erro teria uma sombra.


Será que alguém poderá usar isso contra mim?


O arquivo não precisava mais permanecer aberto.


Ele já havia sido instalado dentro de sua consciência.


Henrique percebeu, então, a mais terrível das descobertas:

o algoritmo não precisava controlar nossas lembranças.


Bastava convencer-nos de que todas elas estavam sendo observadas.


Porque, quando o homem começa a vigiar a si mesmo em nome de uma máquina que não pode esquecer, a vigilância deixa de ser externa.


Ela passa a morar dentro dele.


E, naquela madrugada, Henrique compreendeu que talvez esse fosse o verdadeiro Arquivo das Culpas.


Não aquele que guardava aquilo que fizera.


Mas aquele que ensinava o homem a viver como se estivesse sendo julgado por aquilo que ainda poderia fazer.



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