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O Lobo Algorítmico - Capítulo VI: Heloísa

carlospessegatti
16 de jul.
4 min de leitura


Capítulo VI — Heloísa


Henrique costumava acreditar que toda cidade possuía um centro.

Durante muitos anos imaginara que esse centro fosse uma praça antiga, uma igreja, um mercado público ou uma biblioteca onde o tempo parecia caminhar mais devagar. Depois concluiu que talvez o verdadeiro centro estivesse nas avenidas por onde circulava o dinheiro. Mais tarde, passou a suspeitar que ele havia migrado para edifícios sem janelas, onde milhares de servidores armazenavam silenciosamente os rastros deixados por milhões de existências.

Naquela tarde, porém, ocorreu-lhe um pensamento diferente.


Talvez a cidade já não possuísse centro algum.


Talvez tivesse se tornado um arquipélago.


Milhões de pequenas ilhas ligadas por cabos invisíveis.


Cada pessoa habitava uma delas.


Compartilhavam informações.

Compartilhavam imagens.

Compartilhavam opiniões.


Mas raramente compartilhavam o mesmo mundo.


Abriu o caderno.


Escreveu apenas uma linha.


"Quando tudo está conectado, por que nos sentimos tão separados?"


Fechou-o.


Não havia resposta.


As perguntas, aprendera, eram muito mais pacientes.


Continuou caminhando.


Gostava de andar sem destino. Havia descoberto que as cidades revelavam mais de si quando não lhes pedíamos direções.


Foi assim que ouviu a música.


Não era alta.


Também não procurava chamar atenção.


Parecia existir por si mesma.


Sintetizadores sustentavam acordes longos enquanto pequenas texturas eletrônicas surgiam e desapareciam como se respirassem.


Henrique parou.


A música vinha de um antigo galpão restaurado.


As grandes portas de ferro permaneciam abertas.


Lá dentro não havia palco.


Nem cadeiras enfileiradas.


Algumas pessoas desenhavam em tablets.


Outras pintavam sobre telas convencionais.


Um rapaz desmontava um pequeno robô sobre uma bancada.


Duas mulheres conversavam ao lado de um projetor que exibia formas abstratas geradas por inteligência artificial.


Ninguém parecia preocupado em registrar o momento.


Durante alguns minutos Henrique percebeu algo que já lhe parecia raro.


As pessoas estavam presentes.


Entrou.


Foi então que a viu.


Estava inclinada sobre um sintetizador modular, reorganizando cabos coloridos com a mesma naturalidade de quem rega plantas.


Usava uma camiseta preta estampada com um antigo mapa celeste.


Os cabelos presos pareciam desafiar qualquer intenção de ordem.


Ao lado do sintetizador repousavam dois discos de vinil e um notebook aberto.


O século XX e o XXI dividiam a mesma mesa sem discutir.


Ela ergueu os olhos.


Sorriu.


— Você está procurando alguém?


Henrique respondeu sem pensar.


— Acho que estou procurando alguma coisa.


Ela apoiou os cotovelos sobre a bancada.


— Melhor ainda.


As pessoas costumam encontrar coisas mais interessantes quando deixam de procurar pessoas.


Henrique sorriu.


Fazia tempo que um desconhecido lhe dirigia uma frase sem esperar nada em troca.


Ela estendeu a mão.


— Heloísa.


— Henrique.


Ela repetiu lentamente o nome.


Como quem experimenta uma palavra antiga.


— Henrique...


Nome de quem escreve cartas.

Ou cadernos.


Ele arqueou as sobrancelhas.


— Como sabe do caderno?


Ela apontou discretamente para a mochila.


— Porque você a segura como quem transporta alguma coisa que não pode ser substituída.


Henrique riu.


Havia precisão naquela observação.


Talvez excessiva.


— Sou artista.


acrescentou ela.


— Pelo menos é isso que continuo respondendo quando alguém insiste em perguntar o que faço.


— E o que você faz?


Ela olhou ao redor.


— Tento impedir que as máquinas tenham o monopólio da imaginação.

Henrique permaneceu em silêncio.



Gostou da resposta.


Ela continuou.


— Trabalho com imagens geradas por inteligência artificial.


Com música eletrônica.


Com instalações.


Com realidade virtual.


Com tudo aquilo que assusta quem nunca entrou nesses lugares.


Fez uma pausa.


— Mas continuo desenhando à mão.


Acho importante que meus lápis não se sintam abandonados.


Henrique riu novamente.


Percebeu que Heloísa possuía uma qualidade rara.


Era inteligente sem parecer interessada em demonstrá-lo.


Ela ligou novamente o sintetizador.


Um acorde grave ocupou lentamente o ambiente.


Depois outro.


Depois um terceiro.


Não havia melodia.


Havia espaço.


Henrique fechou os olhos por alguns segundos.


Quando tornou a abri-los, Heloísa o observava.


— Você escuta música como quem lê um livro.


— Existe outro jeito?


Ela sorriu.


— Existe.


Tem gente que escuta apenas para descobrir qual será a próxima faixa.


Os dois caminharam lentamente pelo galpão.


As paredes exibiam pinturas digitais que se modificavam quase imperceptivelmente.


Nenhuma imagem permanecia igual por muito tempo.


— Tudo muda o tempo inteiro?


perguntou Henrique.


— Sim.


Como nós.


Só que as pessoas fingem que não.


Pararam diante de uma enorme parede branca.


Completamente vazia.


Henrique olhou para ela durante alguns segundos.


Depois perguntou:


— Ainda vão instalar alguma coisa aqui?


Heloísa caiu na risada.


Uma risada leve.


Cristalina.


Sem qualquer traço de ironia cruel.


— Não.


A obra é esta.


— Uma parede?


— Um intervalo.


Ela voltou a olhar para a superfície branca.


— Descobri que quase ninguém consegue permanecer cinco minutos diante dela.


Sempre aparece alguém procurando uma legenda.

Uma explicação.


Ou um celular.


Henrique permaneceu olhando para o vazio.


Percebeu que a parede realmente fazia alguma coisa.


Obrigava o olhar a desacelerar.


Obrigava o pensamento a deixar de consumir imagens para começar a produzi-las.


Heloísa percebeu seu silêncio.


— Você não odeia tecnologia.


Henrique voltou-se para ela.


— Não?


— Não.


Você odeia a preguiça que ela às vezes produz.


A tecnologia é apenas uma ferramenta.


A preguiça sempre foi humana.


Henrique não respondeu.


Sentiu que aquela frase desmontava meses de reflexões.


Talvez anos.


Saíram do galpão.


A noite havia chegado.


Os prédios continuavam cobertos por anúncios luminosos.


Veículos deslizavam silenciosamente pelas avenidas.


Drones riscavam o céu como pequenos vaga-lumes artificiais.


Tudo permanecia igual.


E, no entanto, a cidade parecia ligeiramente diferente.


Ou talvez fosse apenas o seu olhar.


Antes de se despedirem, Heloísa perguntou:


— Posso fazer uma pergunta?


Henrique assentiu.


— Claro.


Ela olhou para a mochila.


— Há quanto tempo você escreve nesse caderno?


Henrique demorou alguns segundos.


— Acho que comecei muito antes de comprá-lo.


Ela sorriu.


Como se aquela fosse exatamente a resposta que esperava.


Depois disse apenas:

— Até logo, Henrique.


Não "adeus".


Nem "prazer em conhecê-lo".


Até logo.


Como se ambos soubessem que aquela conversa havia começado muito antes daquele encontro.

E que ainda levaria muito tempo para terminar.


Henrique caminhou sozinho pelas ruas.


Depois de alguns minutos abriu novamente o caderno.


Escreveu apenas uma frase.


"Talvez algumas pessoas não nos mostrem a saída do labirinto.

Talvez apenas caminhem ao nosso lado até que deixemos de ter medo dele."


Fechou o caderno.


Pela primeira vez desde que começara a escrevê-lo, teve a impressão de que aquelas páginas já não reuniam apenas os fragmentos de uma consciência.


Começavam, lentamente, a registrar o nascimento de um diálogo.



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