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O Lobo Algorítmico - Capítulo XII - O Homem que eu Poderia ter Sido

  • carlospessegatti
  • 11 de ago.
  • 6 min de leitura



Encontro com vidas alternativas


Havia coisas que o homem não perguntava a uma máquina.


Não porque não quisesse saber as respostas, mas porque algumas perguntas, quando respondidas, deixavam de pertencer ao território da imaginação e passavam a ocupar o espaço perigoso da possibilidade.


Durante muito tempo, ele acreditara que o passado era uma coisa imóvel.

Uma espécie de pedra depositada atrás de si.


Podia recordar-se dela, contorná-la, lamentá-la ou até tentar esquecê-la, mas não podia modificá-la. O passado possuía essa propriedade reconfortante: acontecera uma única vez.


Até aquela noite.


A sala estava quase completamente escura.


À sua frente, a superfície do sistema permanecia silenciosa. Nenhum gráfico.


Nenhuma notificação. Nenhuma sequência de dados percorrendo a tela.

Apenas uma frase:


DESEJA CONHECER AS VIDAS QUE NÃO VIVEU?


Ele permaneceu imóvel.

Pensou em desligar o sistema.

Não desligou.


Durante alguns segundos, não houve resposta.


Então escreveu:

Sim.


A tela escureceu.


E uma porta apareceu.


Não era uma porta virtual. Não parecia pertencer à interface. Era uma porta comum, antiga, de madeira escura, com uma pequena maçaneta metálica.


Ele a observou.


Sentiu imediatamente que conhecia aquele lugar.


Não sabia de onde.


Aproximou-se.


Abriu.


Do outro lado havia uma sala de música.


Um piano ocupava o centro do ambiente.


Ele reconheceu o instrumento antes mesmo de perceber que havia alguém sentado diante dele.


Era ele.

Mais jovem.

Muito mais jovem.


Os dedos percorriam as teclas com uma segurança que o homem já não possuía.


A música era delicada, mas havia nela alguma coisa que ele reconheceu imediatamente.


Era sua música.


Ou poderia ter sido.


O rapaz terminou a execução e permaneceu alguns segundos com as mãos sobre o teclado.


Depois levantou-se.


Caminhou até a janela.


Do lado de fora, uma cidade que ele nunca conhecera.


Uma cidade onde sua vida havia seguido outra direção.


O homem ficou observando.


— Quem é você? — perguntou.


O outro virou-se.


Sorriu.


— Eu sou você.


A resposta não produziu espanto.


Talvez porque, naquele instante, ele já soubesse.

— O que você fez?

— Continuei.


A palavra permaneceu no ar.

Continuei.

Nada mais.


O homem olhou novamente para o piano.

— Você se tornou compositor?

— Sim.

— E foi feliz?


O outro pensou antes de responder.


— Às vezes.


A resposta o desconcertou.


Ele esperava felicidade.

Esperava alguma espécie de triunfo.

Esperava que aquela outra vida tivesse produzido uma versão superior de si mesmo.


Mas o outro apenas sorriu.


— Você acreditava que uma escolha certa produziria uma vida sem perdas?


Ele não respondeu.


O outro continuou:

— Eu também acreditava.


A porta apareceu novamente.


Desta vez, conduzia a um escritório.


Havia papéis sobre uma mesa.


Livros.


Uma fotografia.


Um homem mais velho trabalhava diante de uma janela.


Ele reconheceu o rosto.


Era novamente ele.



Outra vida.

Outro caminho.


Na parede havia diplomas.

Uma carreira acadêmica.

Uma biblioteca.


Uma longa sucessão de anos dedicados ao pensamento.


— Então foi esta a vida que eu teria tido?

— Uma delas.

— Quantas existem?

— Quantas você deseja ver?


O homem olhou para ele.

— Todas.


O outro sorriu.

— Essa é a resposta que todos dão.



A terceira porta levou-o para uma casa.


Havia uma mulher na cozinha.


Uma criança corria pelo corredor.


Um cachorro latiu em algum lugar.


Ele ficou parado.


Não entrou.


Reconheceu imediatamente aquela sensação.


Não era a casa que conhecia.


Mas havia nela uma intimidade impossível.


Uma espécie de familiaridade com aquilo que nunca acontecera.


A mulher apareceu no corredor.


Olhou para ele.


E, durante um instante, ele teve a impressão de que ela também o reconhecera.


Não como estranho.


Como alguém que havia chegado atrasado.


Ela sorriu.


— Você demorou.


Ele não conseguiu responder.


A porta se fechou.


Depois vieram outras vidas.

Centenas.

Talvez milhares.

Em uma delas, ele jamais deixara sua cidade.

Em outra, partira muito cedo.

Em uma, tornara-se músico.

Em outra, abandonara completamente a música.

Havia uma vida em que possuía dinheiro.

Outra em que possuía quase nada.

Uma em que era admirado.

Outra em que ninguém conhecia seu nome.


Havia vidas de amor.

Vidas de solidão.

Vidas de disciplina.

Vidas de fuga.

Vidas nas quais ele havia escolhido ficar.

E vidas nas quais havia escolhido partir.


O algoritmo não julgava nenhuma delas.


Não dizia qual era melhor.

Não dizia qual era verdadeira.


Apenas mostrava.


E foi então que ele compreendeu a verdadeira crueldade daquela máquina.


Ela não precisava controlar o futuro.


Bastava revelar o passado que não aconteceu.


— Por que você está fazendo isso? — perguntou.


A voz do sistema veio de algum lugar invisível.


— Porque você perguntou.

— Eu não sabia o que estava perguntando.

— Agora sabe.


Ele fechou os olhos.

— Essas vidas existem?


Silêncio.


— Responda.

— Defina existir.


Ele abriu os olhos.


— Não faça isso comigo.

— Eu não estou fazendo nada com você.

— Está me mostrando vidas que não vivi.

— Estou mostrando possibilidades derivadas de suas decisões.

— Então são apenas simulações.

— O que é uma simulação?


Ele permaneceu calado.


A máquina continuou:


— Uma previsão é uma realidade que ainda não aconteceu. Uma memória é uma realidade que já não acontece. Uma simulação é uma realidade que poderia acontecer sob determinadas condições.


— E essas pessoas?

— São você.

— Não podem ser.

— Por quê?


Ele não encontrou resposta.


Porque, no fundo, já havia compreendido.


Talvez o que chamamos de identidade fosse apenas uma trajetória entre infinitas possibilidades.


Talvez o homem que somos não seja aquele que nasceu.


Nem aquele que imaginou ser.


Mas simplesmente aquele que restou depois que todas as outras possibilidades foram abandonadas.


Então apareceu uma última porta.


Era diferente das anteriores.


Não havia maçaneta.


A porta estava entreaberta.


Ele empurrou.


Encontrou uma sala vazia.


No centro havia apenas uma cadeira.


Sentou-se.


Diante dele surgiu um espelho.


Esperou ver seu rosto.


Não viu.


O espelho mostrava centenas de homens.


Todos eram ele.


Mas nenhum era exatamente ele.


Um era jovem.

Outro envelhecido.

Um carregava partituras.

Outro carregava livros.


Um segurava a mão de uma mulher.


Outro caminhava sozinho.


Havia homens felizes.

Homens derrotados.

Homens ricos.

Homens pobres.

Homens apaixonados.

Homens indiferentes.

Homens que haviam ficado.

Homens que haviam partido.

Homens que haviam escolhido coragem.

Homens que haviam escolhido medo.


E, no centro de todos eles, estava o homem que ele era.


Aquele que havia sobrevivido às escolhas.


Aquele que, por alguma razão que nem mesmo o algoritmo conseguia explicar, continuara caminhando.


— Qual deles é o verdadeiro? — perguntou.


A máquina não respondeu.

Ele esperou.

Nada.


Então percebeu que talvez aquela fosse a primeira pergunta para a qual o algoritmo não possuía resposta.


Levantou-se.


Aproximou-se do espelho.


Tocou sua superfície.


Um dos outros homens fez o mesmo.


Durante alguns segundos, suas mãos permaneceram separadas apenas por uma camada de vidro.


Então ele compreendeu.


Não havia homens do outro lado.


Havia possibilidades.


E possibilidades não são fantasmas.


São aquilo que permanece vivo dentro de nós justamente porque não aconteceu.


Quando voltou à sala, a tela estava novamente vazia.


Nenhuma porta.

Nenhum espelho.

Nenhuma simulação.


Apenas a interface escura.


Ele permaneceu sentado diante dela durante muito tempo.


Pensou na música que poderia ter escrito.


Na cidade que poderia ter conhecido.

Na mulher que poderia ter seguido.

Na família que poderia ter construído.

No homem que poderia ter sido.


E percebeu algo que nunca havia compreendido completamente:


Não lamentava apenas as escolhas que fizera.


Lamentava também todas as escolhas que jamais tivera oportunidade de fazer.


Era uma diferença enorme.


Porque algumas vidas não desaparecem quando as abandonamos.


Elas permanecem dentro de nós como uma espécie de segundo universo.


Um universo sem acontecimentos.


Sem corpos.

Sem fotografias.

Sem documentos.


Mas ainda assim existente.


O algoritmo havia conseguido encontrá-lo.


Ou talvez apenas tivesse dado forma matemática àquilo que todo ser humano carrega secretamente consigo.


O inventário das vidas não vividas.


Antes de sair, ele escreveu uma última pergunta:


Existe uma versão de mim que não se arrepende?


A resposta demorou.


Muito mais do que todas as anteriores.


Finalmente apareceu:

Existem versões de você que não fazem essa pergunta.


Ele leu.


Depois sorriu.


Pela primeira vez naquela noite, não sentiu medo.


Desligou a máquina.


A sala ficou escura.


Mas, antes que a tela desaparecesse completamente, uma última frase surgiu:


VOCÊ AINDA ESTÁ VIVENDO UMA DAS POSSIBILIDADES.


Ele ficou olhando.


Depois a tela apagou.


E ele compreendeu que talvez essa fosse a maior ilusão produzida pelo pensamento humano:

acreditar que existe apenas uma vida.


Talvez cada decisão não seja apenas uma escolha entre caminhos.


Talvez seja a morte de uma infinidade de homens possíveis.


O músico.

O professor.

O viajante.

O amante.

O fugitivo.

O homem que ficou.

O homem que partiu.

O homem que teve coragem.

O homem que teve medo.


Todos desapareceram no instante em que uma única possibilidade foi escolhida.


E, no entanto, continuavam existindo em algum lugar.


Não no mundo.

Não no passado.


Mas dentro daquele homem.


E, talvez, agora também dentro da máquina.


Ele caminhou até a janela.


O amanhecer começava a aparecer sobre a cidade.


Pela primeira vez, não perguntou qual vida teria sido melhor.


Perguntou apenas:

o que ainda pode ser salvo da vida que restou?



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