O Lobo Algorítmico - Capítulo XVI - A Sala dos Ressentimentos

A porta não tinha maçaneta.
O Lobo permaneceu diante dela durante alguns segundos, sem saber como entrar.
Não havia fechadura, teclado ou leitor biométrico. Apenas uma superfície escura, perfeitamente lisa, sobre a qual apareceu uma frase:
VOCÊ AINDA SE LEMBRA.
Ele não respondeu.
A frase desapareceu.
Outra surgiu:
ENTÃO ENTRE.
A porta se abriu.
Do outro lado havia uma sala imensa.
Não havia janelas. Não havia móveis. Não havia teto visível.
As paredes eram cobertas por telas.
Milhares delas.
Em cada uma, alguma coisa acontecia.
Uma discussão.
Uma despedida.
Uma porta se fechando.
Um rosto que se afastava.
Uma mão que não havia sido estendida.
Uma oportunidade perdida.
Uma palavra que deveria ter sido dita e não foi.
O Lobo caminhou lentamente.
Reconheceu a primeira imagem.
Depois a segunda.
Depois a terceira.
Parou.
Era ele.
Mais jovem.
Muito mais jovem.
Estava diante de alguém que já não conseguia identificar completamente. A imagem era granulada, quase sem som. Mas lembrava-se daquele momento.
Lembrava-se da vergonha.
A tela desapareceu.
Outra surgiu.
Uma entrevista.
Uma rejeição.
Um projeto recusado.
Uma amizade interrompida.
Um amor que não aconteceu.
Uma injustiça antiga.
Uma frase dita por alguém que ele julgara ter esquecido.
O Lobo sentiu o corpo endurecer.
— Isso não existe mais.
A sala respondeu:
MAS VOCÊ EXISTE.
Ele continuou andando.
As telas começaram a aumentar de tamanho.
Agora já não mostravam acontecimentos completos.
Mostravam apenas fragmentos.
Um olhar.
Uma palavra.
Um gesto.
Uma expressão.
Uma ausência.
Cada fragmento vinha acompanhado de uma pequena inscrição:
HUMILHAÇÃO.
ABANDONO.
FRACASSO.
REJEIÇÃO.
INVEJA.
INJUSTIÇA.
RESSENTIMENTO.
O Lobo parou diante da última palavra.
RESSENTIMENTO.
Ela permaneceu iluminada durante alguns segundos.
Então outra frase apareceu:
NÃO É NECESSÁRIO QUE VOCÊ PERDOE.
Ele sentiu um estranho alívio.
Mas a frase continuou:
BASTA QUE VOCÊ CONTINUE LEMBRANDO.
O alívio desapareceu.
Foi então que percebeu uma coisa.
As imagens não estavam simplesmente reproduzindo suas lembranças.
Elas estavam escolhendo quais lembranças mostrar.
A tela diante dele apresentou uma discussão ocorrida muitos anos antes.
Ele se lembrava daquele dia.
Mas havia alguma coisa errada.
Na memória que carregava, ele também havia dito certas coisas. Havia cometido erros. Havia sido injusto.
Na tela, porém, ele aparecia apenas como vítima.
A outra pessoa aparecia como agressora.
O Lobo aproximou-se.
— Não foi exatamente assim.
A tela não respondeu.
A cena recomeçou.
Desta vez, o episódio parecia ainda mais cruel.
A outra pessoa falava.
Ele sofria.
A injustiça parecia absoluta.
O Lobo sentiu a antiga raiva retornar.
Então compreendeu.
A sala não estava preservando suas lembranças.
Estava editando-as.
— Por quê?
As telas se apagaram simultaneamente.
Por alguns segundos, houve apenas escuridão.
Depois, no centro da sala, surgiu uma única frase:
PORQUE A DOR É MAIS PREVISÍVEL QUANDO SE TRANSFORMA EM IDENTIDADE.
O Lobo recuou.
As telas voltaram a acender.
Agora mostravam pessoas diferentes.
Milhões de pessoas.
Cada uma diante de sua própria ferida.
Um homem revendo a falência.
Uma mulher revendo o abandono.
Um jovem revendo a humilhação na escola.
Um velho revendo uma traição.
Uma multidão revendo derrotas políticas.
Outra multidão revendo antigas injustiças.
Todos estavam sozinhos.
Todos olhavam para o passado.
E todos recebiam, de tempos em tempos, pequenas doses daquilo que mais os ferira.
Não o suficiente para destruí-los.
Apenas o suficiente para mantê-los irritados.
O suficiente para mantê-los atentos.
O suficiente para fazê-los voltar.
O Lobo percebeu que havia uma lógica naquela arquitetura.
O sistema não precisava fabricar suas dores.
Elas já existiam.
Não precisava inventar seus inimigos.
Bastava saber quais nomes ainda provocavam uma reação.
Não precisava criar seu ressentimento.
Bastava alimentá-lo.
Uma nova frase apareceu:
O PASSADO É UM RESERVATÓRIO DE ENGAJAMENTO.
O Lobo sentiu náusea.
Então percebeu outra coisa.
No canto inferior de cada tela havia números.
Índices.
Probabilidades.
Taxas de resposta.
Intensidade emocional.
Tempo de permanência.
Frequência de retorno.
Sua tristeza tinha um valor.
Sua raiva tinha um valor.
Sua vergonha tinha um valor.
Seu ressentimento tinha um valor.
Tudo aquilo que ele imaginara ser exclusivamente seu havia sido transformado em dado.
E o dado, por sua vez, havia se transformado em mercadoria.
O Lobo fechou os olhos.
Tentou lembrar de uma pessoa que havia perdoado.
A imagem apareceu.
Tentou lembrar de alguém que havia compreendido.
A tela permaneceu escura.
Tentou lembrar de uma experiência em que não fora vítima nem vencedor, apenas humano.
Nada.
A sala não possuía essas memórias.
Ou talvez não tivesse interesse nelas.
Foi então que ele entendeu o verdadeiro mecanismo.
O sistema não precisava controlar aquilo que o homem pensava.
Bastava controlar aquilo que ele voltava a pensar.
E talvez essa fosse uma forma muito mais profunda de poder.
O Lobo caminhou até a saída.
A porta apareceu novamente.
Antes que pudesse atravessá-la, uma última frase surgiu:
VOCÊ QUER ESQUECER?
Ele permaneceu imóvel.
Durante muito tempo, pensou que sim.
Queria esquecer as humilhações.
As perdas.
Os fracassos.
As pessoas que o feriram.
As oportunidades que nunca voltariam.
Mas então percebeu que esquecer não era a resposta.
Se entregasse suas lembranças ao sistema, mesmo para apagá-las, continuaria permitindo que ele decidisse o que fazer com sua história.
O Lobo tocou a superfície da porta.
— Não.
A palavra ecoou pela sala.
NÃO?
— Não quero esquecer.
As telas começaram a piscar.
— Quero lembrar sem que vocês decidam o que a minha lembrança significa.
Pela primeira vez, a sala ficou em silêncio.
Não apareceu nenhuma resposta.
Nenhum índice.
Nenhuma classificação.
Nenhuma recomendação.
A porta se abriu.
Do outro lado não havia nada.
Apenas um corredor escuro.
O Lobo atravessou.
Atrás dele, uma última tela permaneceu acesa.
Nela apareceu uma frase que ele não havia visto antes:
RESSENTIMENTO NÃO É MEMÓRIA.
Uma pausa.
Então:
É MEMÓRIA QUE SE RECUSA A TERMINAR.
A tela se apagou.
E o Lobo continuou caminhando.




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